O deputado da Renamo, António Muchanga, defendeu uma profunda reforma interna do partido e lançou duras críticas à liderança de Ossufo Momade, durante uma entrevista concedida ao podcast MOZPOD – Os Muito Maus, gravada a 22 de Junho de 2026.
Ao longo da conversa, Muchanga abordou a situação interna da Renamo, o seu percurso político iniciado durante a guerra civil, a actual conjuntura política e económica de Moçambique e as propostas que considera essenciais para o futuro do país.
«O presidente já deu o que tinha a dar»
Uma das principais mensagens deixadas pelo deputado foi a necessidade de renovação da liderança da Renamo.
Segundo Muchanga, o partido atravessa uma crise institucional provocada pelo incumprimento dos seus estatutos e pelo enfraquecimento dos órgãos internos.
“O presidente da Renamo já deu o que tinha a dar. Tem de cessar funções e dar lugar a pessoas com nova dinâmica e nova energia.”
O deputado afirmou liderar um movimento interno que pretende promover reformas estruturais, desde os órgãos centrais até às bases.
Para ilustrar a situação do partido, utilizou uma metáfora:
“Estamos a construir uma casa que tem pilares, mas as vigas não se comunicam… esta casa está a rachar.”
Muchanga acusa ainda a direcção de não convocar os Conselhos Nacionais previstos nos estatutos e de não prestar contas sobre a gestão financeira do partido.
Segundo afirmou, um grupo de membros submeteu uma petição com cerca de 18 mil assinaturas à Procuradoria-Geral da República, solicitando a fiscalização das contas da organização referentes aos últimos 24 meses.
Quatro décadas ligadas à Renamo
Durante a entrevista, António Muchanga recordou o seu percurso de vida e a sua ligação ao partido.
Natural de Magude, província de Maputo, afirmou ter ingressado formalmente na Renamo em Agosto de 1982, quando ainda era adolescente.
“A minha relação com a Renamo começa em Agosto de 1982… vou completar 44 anos.”
Relatou igualmente episódios marcantes da guerra civil, incluindo a morte dos seus pais, cujos locais de sepultura afirma desconhecer.
Recordou ainda o período em que conheceu o falecido líder Afonso Dhlakama, em 1993, e o trabalho desenvolvido após o Acordo Geral de Paz.
Suspensão e batalha judicial
Recentemente suspenso das actividades partidárias, Muchanga revelou que contestou judicialmente a decisão, alegando que as sanções não encontram respaldo nos estatutos da Renamo.
Durante a entrevista, criticou igualmente aquilo que designou como falta de democracia interna e acusou sectores da actual liderança de recorrerem à intimidação de membros.
Sem apresentar provas durante a entrevista, afirmou existirem grupos armados com catanas que intimidam militantes em algumas províncias.
O deputado classificou ainda determinadas práticas políticas como “prostituição política”, afirmando que nunca adoptou esse tipo de comportamento ao longo da sua carreira.
Dívidas Ocultas e governação
Ao abordar a situação nacional, Muchanga considerou que Moçambique viveu o seu melhor momento económico durante o primeiro mandato do antigo Presidente Armando Guebuza, defendendo que esse ciclo foi interrompido pelo escândalo das Dívidas Ocultas.
Na sua opinião, a corrupção, a burocracia e a má gestão dos recursos naturais continuam a limitar o desenvolvimento económico do país.
Criticou igualmente o actual modelo de administração provincial, defendendo maior articulação entre Governadores Provinciais e Secretários de Estado.
Agricultura e indústria como prioridades
Questionado sobre soluções para o desenvolvimento nacional, Muchanga defendeu uma aposta forte na agricultura, na industrialização e na reactivação da indústria metalomecânica.
O deputado considera que Moçambique deve reduzir a dependência de produtos importados e apostar na produção nacional, incluindo a montagem de autocarros adaptados às necessidades do meio rural.
No final da entrevista, dirigiu uma mensagem aos jovens moçambicanos, apelando à participação activa na vida política e à defesa das instituições democráticas.
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