MOÇAMBIQUE E OS BRICS: O PAÍS QUE EXPORTA RECURSOS, IMPORTA RIQUEZA E DEIXA O SEU MAIOR CAPITAL À ESPERA

Uma estratégia para transformar juventude, recursos e localização em poder económico

Análise Económica
Autoria: Agostinho Muchave, Jornalista e Activista Social

Maputo, 15 de Agosto de 2026

Há perguntas económicas que parecem simples, mas escondem problemas muito maiores.

Moçambique pode entrar nos BRICS?

A resposta curta é: pode procurar aproximar-se desse espaço económico e diplomático.

Mas esta não é, a meu ver, a pergunta mais importante.

A pergunta verdadeiramente estratégica é outra:

O que Moçambique precisa de produzir, transformar, exportar e construir dentro de si próprio para que os BRICS deixem de olhar para o país apenas como fornecedor de matérias-primas e passem a vê-lo como uma plataforma económica indispensável no Oceano Índico e na África Austral?

Esta mudança de pergunta altera toda a análise.

Porque os BRICS não deveriam ser vistos por Moçambique apenas como um clube de países emergentes ao qual se pretende pertencer. Devem ser entendidos como uma possível arquitectura de comércio, investimento, financiamento, tecnologia, energia, indústria, agricultura e cooperação Sul-Sul.

E é precisamente aqui que começa a verdadeira discussão.

Moçambique possui aquilo que muitas economias procuram: gás natural, minerais estratégicos, terras agrícolas, água, energia, costa marítima, portos, corredores logísticos, biodiversidade, localização geográfica e uma população jovem.

Mas possui também aquilo que pode tornar-se o seu maior problema se não for correctamente aproveitado:

Uma enorme quantidade de força de trabalho jovem que entra no mercado todos os anos sem encontrar ocupação produtiva suficiente.

O FMI estima que mais de meio milhão de jovens moçambicanos entram anualmente no mercado de trabalho, enquanto a criação de emprego continua fraca e a transformação estrutural favorece actividades extractivas intensivas em capital.

Este dado deveria mudar a maneira como pensamos a economia nacional.

Porque um jovem desempregado não é apenas um desempregado.

Um jovem recém-formado sem ocupação não é apenas alguém à procura de emprego.

Um técnico que passa anos à espera de uma oportunidade não é apenas um problema social.

É capital humano parado.

E capital humano parado é capital económico desperdiçado.

O paradoxo de Moçambique

Moçambique encontra-se diante de um dos maiores paradoxos económicos da África contemporânea.

O país possui recursos que podem valer milhares de milhões de dólares, mas continua com uma economia incapaz de absorver produtivamente uma grande parte da sua força de trabalho.

Possui gás natural, mas necessita de mais industrialização.

Possui terras agrícolas, mas importa alimentos e produtos processados.

Possui portos, mas ainda não capturou todo o valor possível da sua posição logística.

Possui jovens formados, mas não criou suficiente procura por competências.

Possui energia, mas enfrenta limitações de acesso, distribuição e competitividade.

Possui minerais críticos para a transição energética mundial, mas continua a discutir como transformar extracção em desenvolvimento.

Possui acesso ao Oceano Índico, mas ainda não se tornou a grande plataforma logística que a sua geografia permite.

E possui uma posição que poderia ser estratégica para os BRICS, mas ainda não construiu uma economia à altura dessa posição.

O FMI descreve precisamente esta situação como um momento crítico da trajectória de desenvolvimento do país: depois de anos de crescimento próximo de 8%, a economia desacelerou fortemente desde 2016, enquanto persistem pobreza, fragilidades institucionais e constrangimentos fiscais.

Em 2026, o próprio FMI projecta crescimento real de apenas 0,5%.

É aqui que a discussão sobre os BRICS se torna interessante.

BRICS não deve ser uma fotografia: deve ser uma estratégia económica

Os BRICS mudaram.

Já não são simplesmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Em 2024 entraram novos membros, entre eles Egipto, Etiópia, Irão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos; a Indonésia tornou-se membro em 2025. A presidência indiana de 2026 trabalha actualmente com um bloco de 11 membros.

Isso significa que o espaço BRICS passou a representar uma combinação muito mais ampla de economias, recursos, mercados, sistemas financeiros e posições geoestratégicas.

Para Moçambique, isso é importante.

Porque o país não precisa necessariamente de começar por perguntar:

“Como entramos?”

Pode começar por perguntar:

“Como nos tornamos economicamente relevantes para estes países?”

A segunda pergunta é muito mais inteligente.

Se Moçambique se tornar um grande fornecedor de energia, alimentos processados, serviços logísticos, minerais transformados, produtos agrícolas, serviços digitais e acesso ao interior da África Austral, a sua importância económica crescerá independentemente do estatuto diplomático.

A geografia pode fazer o resto.

A tese que Moçambique deveria levar aos BRICS

Moçambique deveria apresentar uma proposta económica simples:

Não queremos apenas vender recursos aos BRICS. Queremos produzir com os BRICS.

Esta diferença é gigantesca.

Vender gás é uma actividade.

Produzir fertilizantes utilizando gás é outra.

Exportar grafite é uma actividade.

Criar capacidade de processamento e produtos associados à cadeia das baterias é outra.

Exportar caju em bruto é uma actividade.

Processar, embalar e exportar alimentos com marca moçambicana é outra.

Ter um porto é uma coisa.

Transformar o porto num ecossistema de logística, armazenagem, transformação industrial, seguros, banca e comércio regional é outra.

Ter licenciados desempregados é uma realidade.

Transformá-los em engenheiros, consultores, técnicos, programadores, gestores, agricultores comerciais, analistas financeiros, especialistas logísticos e empresários que participam nessas cadeias é desenvolvimento.

É esta segunda economia que Moçambique ainda precisa de construir.

O maior recurso que Moçambique ainda não contabilizou correctamente

Há uma discussão que raramente aparece quando se fala dos recursos naturais de Moçambique.

Fala-se de gás.

Fala-se de carvão.

Fala-se de rubis.

Fala-se de grafite.

Fala-se de areias pesadas.

Fala-se de terras agrícolas.

Mas fala-se pouco de capital humano.

Esta omissão é grave.

O economista W. Arthur Lewis, um dos fundadores da economia moderna do desenvolvimento, estudou precisamente sociedades onde coexistem actividades tradicionais de baixa produtividade e sectores modernos de maior produtividade. A sua análise mostrou como o desenvolvimento depende da transferência de trabalho para actividades capitalistas mais produtivas e da acumulação de capital.

A ideia é particularmente útil para Moçambique.

Lewis escreveu sobre economias onde coexistem uma economia de baixos rendimentos — agricultura familiar, pequeno comércio, trabalho ocasional e actividades tradicionais — e uma economia de salários mais elevados, como indústria, minas, grandes transportes e empresas modernas.

Moçambique apresenta características que tornam esta reflexão actual.

O problema não é simplesmente existir mão-de-obra.

O problema é a produtividade dessa mão-de-obra.

Um licenciado que passa dois anos sem emprego não está necessariamente sem capacidade.

Pode estar numa economia sem suficiente procura pela sua capacidade.

A solução, portanto, não é apenas formar mais licenciados.

É criar sectores económicos que precisem deles.

O erro de formar jovens apenas para procurar emprego

Aqui está uma das grandes questões que Moçambique precisa de enfrentar.

Durante décadas, a educação foi apresentada sobretudo como caminho para conseguir emprego.

Estudar.

Licenciar-se.

Concorrer.

Esperar.

Ser contratado.

Mas este modelo tornou-se insuficiente.

Se o Estado, as empresas e a economia não conseguem criar empregos formais na mesma velocidade em que aumenta a população economicamente activa, continuar a preparar jovens exclusivamente para serem candidatos a empregos será uma estratégia incompleta.

O país precisa de começar a formar jovens também para criar mercados, empresas e soluções económicas.

Não significa dizer ao jovem:

“Se não encontrares emprego, abre uma banca.”

Isso seria uma simplificação perigosa.

Significa algo muito mais sofisticado:

transformar formação académica em capacidade produtiva.

Um economista pode criar uma empresa de inteligência de mercado.

Um jornalista pode criar uma empresa de dados, investigação e informação económica.

Um engenheiro pode prestar serviços de eficiência energética.

Um agrónomo pode criar uma empresa de assistência técnica a produtores.

Um informático pode desenvolver sistemas para pequenas empresas.

Um contabilista pode criar serviços financeiros para PME.

Um jurista pode especializar-se em compliance empresarial.

Um técnico de construção pode criar uma empresa de manutenção.

Um especialista em logística pode criar soluções de distribuição.

Um profissional de turismo pode desenvolver produtos para mercados internacionais.

Um biólogo pode trabalhar na economia azul.

Um especialista em ambiente pode actuar em mercados de carbono, gestão de resíduos e sustentabilidade.

Um professor pode criar plataformas de educação especializada.

Um designer pode vender serviços para empresas de todo o continente.

A questão é mudar a mentalidade de:

“Onde há emprego para mim?”

para:

“Que problema económico consigo resolver?”

A economia dos problemas ainda não resolvidos

Moçambique possui milhares de problemas que representam, simultaneamente, milhares de oportunidades empresariais.

A dificuldade de transportar produtos agrícolas é um problema.

Mas também é um mercado.

A falta de armazenamento refrigerado é um problema.

Mas também é um mercado.

As perdas pós-colheita são um problema.

Mas também são uma oportunidade empresarial.

A dificuldade de pequenas empresas obterem contabilidade profissional é um problema.

Mas também é um mercado.

A informalidade empresarial é um problema.

Mas também cria procura por serviços de formalização, gestão e tecnologia.

A falta de informação sobre preços agrícolas é um problema.

Mas também pode gerar plataformas digitais de informação de mercado.

A manutenção deficiente de equipamentos é um problema.

Mas também é um mercado.

A fraca ligação entre produtores e compradores é um problema.

Mas também pode ser transformada numa plataforma comercial.

A falta de soluções de financiamento para pequenas empresas é um problema.

Mas também cria espaço para fintechs, plataformas de crédito, sistemas de facturação, scoring e serviços financeiros digitais, dentro de uma regulação prudente.

Uma economia desenvolve-se quando começa a transformar problemas em mercados.

Moçambique precisa de uma nova classe empresarial jovem

É aqui que os jovens entram na equação dos BRICS.

Se os BRICS são um enorme espaço de comércio e investimento, Moçambique precisa de empresas capazes de participar nesse espaço.

Não basta ter jovens à procura de emprego.

É necessário ter jovens a construir empresas que possam vender para esses mercados.

Imagine uma geração de jovens moçambicanos a criar empresas especializadas em:

agritech;

logística;

energia solar;

software empresarial;

inteligência artificial;

serviços financeiros;

turismo;

processamento alimentar;

design;

moda;

economia azul;

reciclagem;

serviços ambientais;

consultoria;

engenharia;

manutenção industrial;

comércio electrónico;

educação digital;

produção audiovisual;

análise de dados;

serviços profissionais.

Isto não é utopia.

É a lógica da diversificação económica.

A grande diferença entre Moçambique e economias que conseguiram industrializar

A história económica mundial demonstra que recursos naturais podem ser ponto de partida, mas raramente são suficientes para explicar o sucesso de uma economia.

A Coreia do Sul tinha poucos recursos naturais comparada com grandes economias mineiras.

Singapura não possuía grandes reservas de petróleo ou vastas terras agrícolas.

A China começou com rendimentos muito baixos.

A Índia possuía uma enorme população e desafios estruturais.

O que mudou essas economias foi a combinação de capital, instituições, tecnologia, educação, indústria, exportações e capacidade empresarial.

Não significa copiar esses países.

Significa aprender com a lógica.

Ha-Joon Chang, historiador económico da Universidade de Cambridge, demonstrou em Kicking Away the Ladder como muitas economias hoje desenvolvidas utilizaram historicamente políticas de promoção industrial antes de defenderem modelos muito mais abertos.

A lição para Moçambique não é fechar o mercado.

É outra:

nenhuma economia pobre se transforma numa economia sofisticada simplesmente esperando que o mercado faça sozinho todo o trabalho estrutural.

É necessário construir capacidades.

Prebisch continua actual

O pensamento de Raúl Prebisch sobre a relação entre centro e periferia também oferece uma lente importante.

A economia periférica tende a especializar-se em matérias-primas enquanto as economias mais avançadas concentram tecnologia, indústria e maior valor acrescentado.

A consequência é conhecida:

um país exporta aquilo que tem menos valor acrescentado e importa aquilo que incorpora mais conhecimento.

Moçambique não deve aceitar essa divisão como destino.

Se exportamos gás, devemos perguntar o que podemos produzir com esse gás.

Se exportamos minerais, devemos perguntar até onde podemos processá-los.

Se produzimos algodão, devemos perguntar por que não produzir mais fios, tecidos e vestuário.

Se produzimos alimentos, devemos perguntar por que não exportamos alimentos processados.

Se temos peixe, devemos perguntar por que não desenvolver uma cadeia de frio, processamento, embalagem e exportação.

A industrialização não significa abandonar os recursos naturais.

Significa subir na cadeia de valor.

O BRICS pode ser o mercado para essa transformação

Aqui está uma oportunidade extraordinária.

Os BRICS representam mercados com escalas enormes e economias muito diferentes.

A China possui uma gigantesca capacidade industrial e de consumo.

A Índia possui uma das maiores populações do planeta e uma economia tecnológica em expansão.

O Brasil possui experiência agrícola, alimentar, industrial e energética.

A Rússia possui capacidades em energia, ciência e tecnologia.

A África do Sul é uma potência económica regional.

Os países árabes do bloco possuem capital, energia, logística e mercados.

Moçambique não precisa de competir directamente com todos eles.

Pode complementar as suas economias.

Pode ser fornecedor.

Pode ser corredor.

Pode ser plataforma.

Pode ser destino de investimento.

Pode ser parceiro agrícola.

Pode ser parceiro energético.

Pode ser porta de entrada regional.

Essa é uma posição muito mais inteligente.

O gás pode financiar uma revolução ou financiar o consumo

A grande riqueza energética de Moçambique é também uma grande armadilha.

Se as receitas do gás forem utilizadas essencialmente para financiar despesas correntes, importações e desequilíbrios públicos, o país pode tornar-se rico em exportações e continuar pobre em capacidade produtiva.

Mas se forem canalizadas, dentro de regras transparentes e sustentáveis, para:

energia;

infra-estruturas;

educação;

indústria;

agricultura;

tecnologia;

saúde;

capital humano;

fundos de desenvolvimento;

infra-estruturas logísticas;

investigação;

poupança soberana;

o gás poderá financiar uma transformação estrutural.

A diferença entre as duas estratégias é enorme.

Uma transforma gás em consumo.

A outra transforma gás em capital.

Schumpeter e o jovem moçambicano

Joseph Schumpeter ensinou-nos a olhar para o empreendedor como agente da transformação económica.

Para ele, o capitalismo não é estático.

É um processo permanente de inovação.

Schumpeter chamou-lhe “creative destruction” — destruição criadora — e descreveu a abertura de novos mercados, novos métodos de produção e novas formas de organização como forças que revolucionam a estrutura económica.

É precisamente isso que Moçambique precisa.

Não apenas de mais empresas.

Mas de empresas que mudem a forma como as coisas são feitas.

O jovem que cria uma aplicação para ligar agricultores a compradores está a inovar.

O técnico que cria uma empresa de manutenção industrial está a inovar.

O programador que automatiza a contabilidade de pequenas empresas está a inovar.

O agrónomo que cria um serviço de previsão de produção está a inovar.

O engenheiro que reduz o consumo energético de uma fábrica está a inovar.

A inovação não precisa de começar num laboratório sofisticado.

Pode começar num problema quotidiano.

Amartya Sen obriga-nos a fazer outra pergunta

O crescimento económico não pode ser reduzido ao PIB.

O Nobel da Economia Amartya Sen escreveu em Development as Freedom:

“Development can be seen … as a process of expanding the real freedoms that people enjoy.”

O argumento é particularmente importante para Moçambique.

Se o PIB cresce, mas o jovem não consegue encontrar trabalho produtivo;

se existe gás, mas a comunidade permanece pobre;

se há investimento estrangeiro, mas não se criam cadeias nacionais;

se existem universidades, mas os licenciados não encontram aplicação para as suas competências;

então o desenvolvimento está incompleto.

O objectivo final da economia não é produzir números.

É aumentar as capacidades reais das pessoas.

Acemoglu e a questão institucional

Daron Acemoglu e James Robinson colocaram outra questão essencial: instituições económicas inclusivas, direitos de propriedade seguros e Estado de Direito estão associados a melhores resultados de desenvolvimento.

Acemoglu resume a diferença dizendo que instituições inclusivas criam incentivos para investimento e inovação e permitem que o talento da população seja amplamente utilizado.

Esta ideia deveria ser central na estratégia moçambicana.

Porque não existe política económica de juventude verdadeiramente eficaz se um jovem talentoso não conseguir entrar no mercado porque não tem ligações.

Não existe política industrial eficaz se o empresário produtivo enfrentar custos imprevisíveis.

Não existe economia competitiva se as regras mudarem constantemente.

Não existe investimento sustentável sem segurança jurídica.

E não existe grande economia se o talento for seleccionado pela proximidade e não pela competência.

O grande capital desperdiçado é o talento que não entra na economia

Esta pode ser a afirmação mais importante desta análise:

Moçambique não perde apenas dinheiro quando um jovem fica desempregado. Perde produção potencial.

Perde inovação.

Perde impostos futuros.

Perde empresas que poderiam nascer.

Perde exportações que poderiam existir.

Perde patentes.

Perde serviços.

Perde conhecimento.

Perde produtividade.

Perde capital social.

E perde anos de experiência que poderiam transformar uma geração.

Por isso, o desemprego jovem não deveria ser tratado exclusivamente como problema social.

É um problema macroeconómico.

O emprego deve deixar de ser medido apenas pelo número de vagas

Precisamos também de mudar a forma como avaliamos políticas de emprego.

Uma economia pode criar milhares de ocupações de baixa produtividade e continuar pobre.

O objectivo deve ser criar empregos produtivos.

O Banco Mundial já identifica experiências em Moçambique que combinam formação, empreendedorismo e criação de empresas: iniciativas apoiadas pela instituição alcançaram 20 mil jovens, financiaram 500 PME lideradas por jovens e 3.000 microempresários, contribuindo para a criação de cerca de 6.000 empregos.

Isto mostra que existe uma pista.

Mas a escala precisa de ser muito maior.

Se centenas de milhares de jovens entram no mercado anualmente, programas de algumas centenas ou milhares de beneficiários não podem, sozinhos, resolver o problema estrutural.

Moçambique precisa de uma economia capaz de criar milhões de oportunidades ao longo de uma geração.

A oportunidade que ninguém vê: serviços exportáveis

Quando se fala de exportações, pensa-se imediatamente em gás, carvão, minerais, açúcar ou caju.

Mas existe uma exportação que não precisa de navios.

Serviços.

Um programador moçambicano pode trabalhar para uma empresa indiana.

Um designer pode trabalhar para uma empresa brasileira.

Um analista financeiro pode prestar serviços a uma empresa sul-africana.

Um especialista em dados pode trabalhar remotamente para uma empresa chinesa.

Um tradutor pode vender serviços para mercados internacionais.

Um produtor audiovisual pode trabalhar para empresas estrangeiras.

Um contabilista especializado pode prestar serviços transfronteiriços.

Uma empresa de software pode exportar sem possuir uma única fábrica.

Isto é particularmente importante para os jovens.

A economia digital permite que parte do capital humano moçambicano participe da economia global sem emigrar.

Mas isso exige internet, pagamentos internacionais funcionais, competências linguísticas, certificações, energia estável e um ambiente empresarial adequado.

A economia azul pode ser outra fronteira

Moçambique possui uma longa costa e vastos recursos marítimos.

Mas a economia do mar não deve ser reduzida à pesca.

Existe aquacultura.

Logística marítima.

Reparação naval.

Turismo costeiro.

Cruzeiros.

Biotecnologia marinha.

Processamento de pescado.

Frio industrial.

Serviços portuários.

Seguros marítimos.

Investigação oceânica.

Energia offshore.

Serviços ambientais.

Economia dos resíduos marítimos.

A costa moçambicana pode ser uma das maiores plataformas económicas do país.

Mas precisa de ser tratada como um sector económico integrado.

Turismo: o recurso que não se esgota como um minério

Moçambique possui uma das combinações naturais mais extraordinárias da África Austral.

Praias.

Ilhas.

Recifes.

Fauna.

Cultura.

História.

Gastronomia.

Pesca desportiva.

Turismo de natureza.

Turismo de negócios.

Turismo de eventos.

A vantagem do turismo é diferente da mineração.

Uma mina pode esgotar-se.

Uma praia bem preservada pode gerar rendimento durante gerações.

Mas isso exige qualidade.

Segurança.

Infra-estruturas.

Marketing.

Transportes.

Formação.

Serviços.

Facilitação de vistos.

Conectividade aérea.

E integração com empresas locais.

O que Moçambique pode vender aos BRICS em 2040?

É possível imaginar uma pauta de exportação completamente diferente.

Não apenas gás.

Mas:

energia;

fertilizantes;

alimentos processados;

caju processado;

açúcar e derivados;

arroz;

produtos pesqueiros processados;

minérios beneficiados;

produtos industriais;

serviços logísticos;

serviços digitais;

turismo;

serviços profissionais;

produtos farmacêuticos e químicos seleccionados;

energia renovável;

conhecimento.

E talvez a maior exportação de todas:

talento.

Mas não talento que abandona o país.

Talento que trabalha a partir de Moçambique para o mundo.

O que Moçambique pode importar dos BRICS?

Tecnologia.

Máquinas.

Capital.

Conhecimento industrial.

Equipamentos agrícolas.

Sistemas ferroviários.

Tecnologias de energia.

Conhecimento de processamento mineral.

Tecnologias digitais.

Financiamento.

Experiência em produção em larga escala.

Mas existe uma condição.

Moçambique não pode simplesmente importar tecnologia para continuar a ser consumidor.

Deve importar tecnologia para aprender a produzir.

Essa diferença separa dependência de desenvolvimento.

O modelo que proponho: BRICS + Juventude + Recursos + Corredores

Moçambique deveria construir uma estratégia económica assente em quatro pilares.

Primeiro: recursos.

Gás, minerais, agricultura, pesca e energia.

Segundo: corredores.

Maputo, Beira, Nacala e ligações com os países do interior.

Terceiro: juventude.

Formação, empreendedorismo, tecnologia, emprego e capital humano.

Quarto: BRICS.

Mercados, investimento, tecnologia, financiamento e cooperação.

A combinação destes quatro elementos pode criar uma estratégia de desenvolvimento muito mais poderosa do que tratar cada sector isoladamente.

Uma universidade que conhece a economia que pretende construir

Existe também uma reforma intelectual que precisa de acontecer.

As universidades não devem formar apenas pessoas para procurar empregos existentes.

Devem ajudar a criar os profissionais das indústrias que ainda não existem.

Se Moçambique quer desenvolver gás, precisa de formar especialistas em energia.

Se quer industrializar agricultura, precisa de especialistas em agro-indústria.

Se quer transformar portos em plataformas regionais, precisa de especialistas em logística.

Se quer desenvolver economia digital, precisa de programadores e especialistas em dados.

Se quer criar mercados de capitais sofisticados, precisa de analistas financeiros.

Se quer processar minerais, precisa de engenheiros e químicos.

Se quer explorar economia azul, precisa de especialistas marítimos.

A universidade deve antecipar a economia.

Não apenas reagir a ela.

O papel do Estado não é substituir o empresário

O Estado não deve tentar ser proprietário de tudo.

Mas também não pode limitar-se a observar.

A função inteligente do Estado é criar condições.

Infra-estruturas.

Regras.

Educação.

Energia.

Financiamento catalítico.

Segurança.

Justiça.

Informação.

Política industrial.

Diplomacia económica.

E coordenação.

Dani Rodrik tem defendido uma abordagem de “productivism”, centrada na disseminação de oportunidades produtivas pela economia e na criação de empregos bons e produtivos, atribuindo ao Estado e à sociedade papéis importantes nesse processo.

É uma ideia particularmente útil para Moçambique.

O objectivo não deve ser apenas redistribuir pobreza.

Deve ser produzir prosperidade.

Moçambique não precisa de escolher entre Estado e mercado

Precisa de aprender a fazer os dois funcionarem.

O Estado pode construir a estrada.

O privado pode operar a empresa.

O Estado pode criar uma escola técnica.

A indústria pode formar os trabalhadores.

O Estado pode regular o sector financeiro.

Os bancos podem financiar empresas.

O Estado pode negociar acordos comerciais.

As empresas podem exportar.

O Estado pode garantir segurança.

O empresário pode assumir o risco produtivo.

Esta relação é mais inteligente do que a guerra ideológica entre “Estado” e “mercado”.

A pergunta correcta é:

quem faz melhor cada coisa e como podemos fazer essas partes funcionarem juntas?

O grande teste será o capital nacional

Moçambique não pode depender eternamente de capital estrangeiro.

Precisa de criar capital nacional.

Empresas moçambicanas fortes.

Fundos de investimento.

Mercado de capitais.

Fundos de pensões produtivos.

Seguradoras.

Bancos de investimento.

Empresas familiares profissionalizadas.

Cooperativas modernas.

Empresas tecnológicas.

Capital de risco.

Business angels.

Incubadoras.

A riqueza precisa de começar a circular dentro da própria economia.

Uma empresa estrangeira pode trazer capital.

Mas uma economia desenvolvida precisa de gerar também os seus próprios investidores.

O mercado de capitais como instrumento de transformação

É impossível discutir uma grande economia sem discutir financiamento.

As empresas não crescem apenas com lucros.

Precisam de capital.

Moçambique precisa de aprofundar o seu mercado de capitais para permitir que empresas produtivas tenham acesso a financiamento de longo prazo.

Isso inclui dívida empresarial, obrigações, acções, fundos de investimento e outros instrumentos adequadamente regulados.

Uma economia sofisticada precisa de mobilizar poupança para investimento produtivo.

O dinheiro parado é poupança.

O dinheiro investido produtivamente pode tornar-se capital.

E capital é aquilo que aumenta a capacidade de produzir no futuro.

O BRICS como laboratório de aprendizagem

Moçambique deveria olhar para cada país dos BRICS como uma fonte específica de aprendizagem.

Da China: escala industrial, infra-estruturas e cadeias de fornecimento.

Da Índia: tecnologia, serviços, farmacêutica, digitalização e empreendedorismo.

Do Brasil: agricultura tropical, indústria alimentar e energia.

Da África do Sul: serviços financeiros, mineração, indústria e integração regional.

Dos Emirados Árabes Unidos: logística, portos, aviação, serviços e transformação de uma posição geográfica em plataforma económica.

Da Arábia Saudita: utilização estratégica dos recursos energéticos para financiar diversificação.

Da Indonésia: transformação de recursos naturais e integração industrial num país arquipelágico.

Do Egipto: logística, indústria e posição estratégica entre mercados.

Da Etiópia: desenvolvimento industrial e construção de capacidade produtiva apesar de limitações estruturais.

Do Irão: adaptação industrial e tecnológica sob condições externas adversas.

A questão não é copiar.

É seleccionar aquilo que funciona e adaptar ao contexto moçambicano.

A grande oportunidade geoeconómica de Moçambique

Existe uma palavra que deveria aparecer muito mais no debate nacional:

geoeconomia.

Moçambique está situado numa zona em que interesses africanos, asiáticos, árabes e globais se cruzam.

O Oceano Índico tornou-se uma das grandes artérias do comércio mundial.

A África Austral possui recursos minerais, agrícolas e energéticos.

A Ásia possui capital, tecnologia e mercados.

Moçambique está entre esses mundos.

Essa posição pode transformar o país num corredor.

Mas um corredor pobre apenas transporta.

Um corredor desenvolvido produz, transforma, armazena, financia, assegura e exporta.

Essa é a diferença.

A pergunta que deveria estar na mesa do Governo, das universidades e das empresas

Não deveríamos perguntar apenas:

“Quantos empregos o Governo pode criar?”

Deveríamos perguntar:

“Quantas actividades económicas produtivas podemos criar para que milhões de moçambicanos possam criar ou ocupar empregos?”

A primeira pergunta coloca todo o peso sobre o Estado.

A segunda coloca a economia inteira em movimento.

2030: primeiro objectivo

Até 2030, Moçambique deveria procurar:

estabilidade macroeconómica;

melhor gestão da dívida;

mais energia disponível;

melhores corredores logísticos;

maior produtividade agrícola;

mais financiamento para PME;

mais formação técnica;

maior digitalização;

melhor segurança;

mais transparência;

mais capacidade empresarial nacional.

2035: segundo objectivo

Até 2035, o país deveria começar a apresentar uma estrutura económica diferente.

Mais indústria.

Mais processamento.

Mais exportações de produtos acabados.

Mais empresas nacionais.

Mais trabalhadores especializados.

Mais serviços digitais.

Mais agricultura comercial.

Mais logística.

Mais turismo.

Mais economia azul.

Mais integração regional.

2040: o teste definitivo

Em 2040, a pergunta não deveria ser quantos milhões de dólares de gás Moçambique exportou.

Deveria ser:

quantos empregos produtivos foram criados?

quantas empresas moçambicanas se tornaram multinacionais africanas?

quanto valor acrescentado ficou no país?

quantas cadeias industriais foram construídas?

quanto aumentou a produtividade agrícola?

quanto capital nacional foi acumulado?

quanto aumentaram as exportações não extractivas?

quantos jovens conseguiram transformar conhecimento em rendimento?

quanto cresceu o rendimento real das famílias?

Esses serão os indicadores de uma verdadeira transformação.

Moçambique e os BRICS: a oportunidade que pode mudar a pergunta

No início desta análise, a pergunta era:

Moçambique pode entrar nos BRICS?

Depois de tudo isto, talvez seja possível formular uma pergunta melhor:

Os BRICS podem ajudar Moçambique a transformar-se numa economia que já não precise de pedir para entrar, mas que seja procurada porque possui algo economicamente indispensável para oferecer?

Essa é a ambição que considero mais inteligente.

Porque a entrada num grupo não cria automaticamente riqueza.

A riqueza é que cria relevância.

E relevância económica não nasce de discursos.

Nasce de produção.

Nasce de empresas.

Nasce de produtividade.

Nasce de conhecimento.

Nasce de capital.

Nasce de exportações.

Nasce de instituições.

Nasce de confiança.

Nasce de uma população economicamente activa.

CONCLUSÃO: O BRICS NÃO DEVE SER O DESTINO. DEVE SER O MERCADO PARA A TRANSFORMAÇÃO

Moçambique não deve olhar para os BRICS como quem olha para uma porta à qual pretende bater.

Deve olhar para os BRICS como parte de uma enorme paisagem económica onde precisa de encontrar o seu lugar.

Esse lugar existe.

Pode estar no gás.

Pode estar nos minerais.

Pode estar na agricultura.

Pode estar nos portos.

Pode estar no turismo.

Pode estar na economia azul.

Pode estar na energia.

Pode estar na logística.

Pode estar nos serviços digitais.

Mas existe uma possibilidade ainda maior.

Pode estar nos jovens.

Porque o gás pode acabar.

Uma mina pode esgotar-se.

Um preço internacional pode cair.

Uma rota comercial pode mudar.

Uma tecnologia pode tornar-se obsoleta.

Mas uma geração educada, produtiva, inovadora e empresarial pode renovar a economia durante décadas.

Por isso, talvez o maior recurso estratégico de Moçambique não seja o que está enterrado no subsolo.

É aquilo que está sentado numa sala de aula, numa universidade, num instituto técnico, numa pequena oficina, num mercado, numa empresa sem financiamento, num computador sem internet suficiente ou simplesmente em casa à espera da primeira oportunidade.

Esse recurso chama-se capital humano.

O desafio é transformá-lo em capital económico.

É aqui que W. Arthur Lewis continua actual.

É aqui que Schumpeter continua actual.

É aqui que Prebisch continua actual.

É aqui que Amartya Sen continua actual.

É aqui que Acemoglu continua actual.

E é aqui que Moçambique precisa de construir a sua própria teoria de desenvolvimento.

Não uma cópia da China.

Não uma cópia da Índia.

Não uma cópia do Brasil.

Não uma cópia da África do Sul.

Uma estratégia moçambicana para uma economia moçambicana inserida numa economia mundial em transformação.

O país possui recursos.

Possui localização.

Possui população.

Possui mercado.

Possui costa.

Possui energia.

Possui terras.

Possui juventude.

Possui necessidades.

E necessidades, quando combinadas com conhecimento, capital e empreendedorismo, tornam-se mercados.

O problema é que Moçambique ainda exporta demasiadas matérias-primas e importa demasiados produtos acabados.

Exporta recursos e importa tecnologia.

Exporta minerais e importa máquinas.

Exporta produtos agrícolas e importa alimentos processados.

E, paradoxalmente, possui milhares de jovens formados que poderiam ajudar a construir parte dessas cadeias, mas permanecem fora delas.

Esta contradição precisa de terminar.

O verdadeiro projecto nacional não deve ser simplesmente transformar Moçambique num país rico em recursos.

Deve ser transformar Moçambique num país rico em capacidade produtiva.

E quando essa transformação começar, os BRICS deixarão de ser apenas uma questão diplomática.

Passarão a ser aquilo que realmente podem representar para Moçambique:

um mercado, uma fonte de capital, uma plataforma tecnológica e uma oportunidade histórica para uma economia que finalmente decidiu deixar de exportar apenas aquilo que possui e começar a exportar aquilo que sabe fazer.

Nesse momento, a pergunta sobre a entrada de Moçambique nos BRICS ganhará outra dimensão.

Já não será:

“Será que Moçambique está preparado para os BRICS?”

Será:

“Estão os BRICS preparados para uma nova economia moçambicana?”

Essa é a pergunta que vale a pena fazer.

E, talvez, seja também a pergunta que Moçambique deveria começar a responder.

Nota do autor

Esta análise é uma reflexão económica e prospectiva. Os cenários apresentados não constituem previsões oficiais nem garantias de crescimento. Os argumentos sobre juventude, crescimento, transformação estrutural, agricultura e emprego são confrontados com dados recentes do FMI e do Banco Mundial; as interpretações sobre BRICS, industrialização, empreendedorismo e capital humano constituem análise do autor apoiada na literatura económica sobre desenvolvimento.

Autoria:
Agostinho Muchave
Jornalista e Activista Social

Data: 15 de Agosto de 2026

Palavras-chave: Moçambique e BRICS, BRICS, economia de Moçambique, juventude moçambicana, desemprego jovem, jovens licenciados, industrialização, gás natural, agricultura, economia azul, mineração, logística, corredores económicos, capital humano, empreendedorismo, pequenas e médias empresas, mercado de capitais, investimento estrangeiro, desenvolvimento económico, África Austral.

Meta descrição: Moçambique e os BRICS: análise económica sobre gás, juventude, desemprego, industrialização, agricultura, capital humano, logística e oportunidades ainda inexploradas para transformar o país numa potência regional.

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