Desvio de ajuda humanitária em Xai-Xai gera revolta e expõe crise nos centros
A situação no maior centro de acomodação da cidade de Xai-Xai, província de Gaza, atingiu um ponto crítico. Famílias afectadas pelas cheias saíram à rua em protesto, denunciando o alegado desvio de donativos essenciais à sua sobrevivência — num cenário que expõe fragilidades graves na gestão da ajuda humanitária em Moçambique.
Donativos desaparecidos levantam suspeitas
No centro da polémica estão 32 fardos de roupa usada, cobertores e alimentos, incluindo bolachas destinadas a crianças e idosos. Segundo os sinistrados, estes bens terão sido desviados por responsáveis do centro em conluio com agentes da Polícia da República de Moçambique.
A denúncia não é isolada. Informações avançadas indicam que parte destes produtos estaria a ser vendida ilegalmente fora do centro, agravando ainda mais a indignação dos afectados.
Protestos e tensão resultam em feridos
A revolta começou na tarde de sábado e rapidamente escalou para confrontos, deixando pelo menos dois feridos. Os residentes dizem estar cansados de promessas e abandono:
“As cheias não estão nos gabinetes. Aqui nunca apareceu ninguém para ver o que estamos a viver.”
Enquanto isso, a direcção do centro classifica as acusações como “calúnia”, mas a tensão no terreno mostra o contrário: há fome, desespero e perda de confiança.
Quase 2 mil famílias sem alternativa
Cerca de 1.900 famílias vivem no Centro de Acomodação Artes e Ofícios, muitas sem perspectiva de regresso às suas casas, ainda submersas ou destruídas em bairros da zona baixa de Xai-Xai.
A possível desactivação do centro está a aumentar o medo e a incerteza. Para muitos, sair dali significa simplesmente não ter para onde ir.
Histórias que mostram o drama real
Entre os relatos mais duros:
- Aurélio Balan, cego e com paralisia, vive sem cobertores:
“Não tenho como dormir.”
- Maria Jorge, 64 anos, perdeu a cadeira de rodas nas cheias:
“Preciso de ajuda… não consigo andar.”
São testemunhos que expõem uma realidade crua: sobrevivência diária sem condições mínimas.
Fome agrava crise humanitária
A escassez de alimentos é alarmante. Há dias em que apenas três panelas de arroz servem centenas de pessoas. Muitas famílias são obrigadas a procurar comida fora ou simplesmente deixar crianças sem refeição suficiente.
Autoridades prometem investigação
O porta-voz do Centro Operativo de Emergência Distrital, Marcelino Bisa, confirmou que há investigações em curso sobre o possível desvio de ajuda:
“Quem estiver envolvido será responsabilizado.”
No entanto, também aponta que parte da agitação pode estar ligada a indivíduos não registados no centro — uma explicação que não convence os residentes.
Crise expõe falhas estruturais
O caso de Xai-Xai não é isolado. Ele revela problemas antigos:
- Falta de fiscalização na distribuição de ajuda
- Ausência do Estado no terreno
- Gestão opaca de recursos humanitários
Quando a ajuda chega, nem sempre chega a quem precisa.






