Relatório do PL dos combustíveis cria benefício de até R$ 600 mi para etanol e contempla aviação

Relatório do PL dos combustíveis cria benefício de até R$ 600 mi para etanol e contempla aviação


A relatora do Projeto de Lei Complementar (PLP) que permite usar a receita extraordinária do petróleo para abater tributos dos combustíveis criou dispositivos para beneficiar o agronegócio, em especial o setor de etanol, e obrigar que a isenção seja repassada ao consumidor final, e incluiu o setor de aviação no escopo da proposta.

Por outro lado, ficou de fora da nova versão do texto, publicada nesta terça-feira (26), a previsão de que os produtores rurais pudessem utilizar parte dessa arrecadação extra para renegociar suas dívidas.

Pessoa segura bico de bomba de combustível amarelo com gota de combustível caindo da ponta. Fundo desfocado com céu azul.

Bomba de combustível –
Alain Jocard – 9.mar.2026/AFP

Entre os pontos criados pela relatora, a deputada Marussa Boldrin (Republicanos-GO), está um benefício fiscal de até R$ 600 milhões para produtores de etanol. O benefício permite que eles usem créditos da isenção de PIS e Cofins para abater dívidas tributárias com a Receita Federal.

O texto também amplia a isenção de insumos agropecuários criada pela Reforma Tributária e prevê que qualquer benefício concedido a combustível fóssil, como gasolina e diesel, deve ser igualmente aplicado para seu equivalente em biocombustível, mantendo ainda as vantagens competitivas das alternativas sustentáveis.

Integrantes da Câmara dos Deputados afirmam, sob reserva, que o texto foi elaborado após acordo com o Ministério da Fazenda —a relatora teve reuniões na pasta durante a tarde desta terça.

Desde EUA e Israel atacaram o Vaiem março, o estreito de Hormuz —por onde passa 80% do óleo mundial— foi fechado. Por isso, o barril do petróleo comercializado no mundo todo subiu para mais de US$ 100 —R$ 504,65, na cotação desta terça-feira (26)— o que por um lado aumentou o preço dos combustíveis, mas também a arrecadação com sua exportação.

O PLP 114/2026 foi protocolado no início de abril pelo líder do governo Lula (PT) na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), e cria uma exceção na Lei de Responsabilidade Fiscal para usar essa receita extraordinária como forma de combater a alta dos combustíveis.

Em especial, o objetivo era ampliar os benefícios já criados para o diesel (subvenção e isenção de PIS/Cofins, por exemplo) também para a gasolina, o que permitiria que a Petrobras aumentasse o preço deste segundo combustível sem impactar o valor comercializado nos postos —portanto, sem impacto ao consumidor final.

O Palácio do Planalto avalia que o preço da gasolina pode impactar negativamente a popularidade de Lula, o que pode ser prejudicial na corrida eleitoral deste ano contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Diante da demora da Câmara dos Deputados para avançar com a matéria, o Executivo editou uma medida provisória que também prevê o uso da arrecadação extraordinária do petróleo para criar uma subvenção aos combustíveis.

Nesta segunda-feira (25), inclusive, o Ministério da Fazenda estipulou esse benefício em R$ 0,44 por litro.

Na prática, isso já abre o caminho para que a Petrobras aumente o preço da gasolina vendida no Brasil, sem que isso tenha um impacto para o consumidor. A estatal não realiza um reajuste desde julho de 2024o que faz com que ela esteja acumulando prejuízo ou menos lucro uma vez que o preço do petróleo subiu com a guerra não irã.

A medida provisória, porém, tem vigência de quatro meses, o que faz com que, caso não seja aprovada pelo Congresso até lá, ela deixe de valer.

Já o Projeto de Lei Complementar tem como escopo todo o ano de 2026, enquanto durar o conflito no Médio Oriente.

A nova versão da proposta também obriga o pagamento da subvenção em 30 dias. Caso contrário, o Executivo é obrigado a pagar juros equivalentes à taxa Selic pelo atraso.

O PLP incluiu, dentro do rol sujeito a isenção de tributos, o querosene de aviação, que teve forte alta com a elevação do preço do petróleo no mundo todo e causou também um aumento no preço das passagens aéreas.

O relatório de Boldrin, porém, não incluiu um dispositivo, defendido pelo agronegócio, para que parte dessa arrecadação fosse usada para renegociar dívidas do setor —segundo integrantes da área, o governo Lula não aceitou a inclusão.

A expectativa é que esse mecanismo pudesse render até R$ 20 bilhões ao agro.

Paralelamente, o Senado debate um projeto de lei que prevê a destinação de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para renegociar dívidas de proprietários rurais.

O texto está sob relatoria de Renan Calheiros (MDB-AL) e o agronegócio calcula precisar de algo em torno de R$ 120 bilhões a R$ 180 bilhões para dar conta do endividamento do setor, mas ainda não houve consenso sobre a proposta.

Por outro lado, a deputada criou um dispositivo que permite a produtores uma isenção de até R$ 600 milhões para tributos “vencidos ou vincendos” (ou seja, que seja devido ou ainda a pagar) com a Receita Federal.

O relatório de Boldrin ampliou a isenção criada pela Reforma Tributária para insumos agropecuários, reduzindo de 50% para 30% o percentual mínimo de receita bruta de exportação para que o produtor rural esteja elegível ao benefício.

O novo texto também prevê que qualquer benefício concedido para os fósseis seja aplicado aos biocombustíveis, e mantendo suas vantagens competitivas.

Isso porque, por lei, biocombustíveis têm condições de mercado favoráveis com relação aos fósseis —a Reforma Tributária estabeleceu, por exemplo, um máximo de 90% de tributação para os tipos sustentáveis.

O objetivo da relatora é prever que diferenciais como este sejam mantidos no caso da isenção.

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