Crise de Combustíveis em Moçambique Entre o sufoco dos transportadores e a escassez de divisas

Crise de Combustíveis em Moçambique: Entre o sufoco dos transportadores e a escassez de divisas

A persistente escassez de combustíveis em Moçambique continua a agravar a pressão sobre a economia nacional, afectando particularmente o sector dos transportes, o custo de vida e a actividade produtiva. Apesar dos recentes reajustes nos preços dos combustíveis anunciados pelo Governo, automobilistas e transportadores relatam dificuldades contínuas para abastecer, numa crise que já ameaça o funcionamento regular de vários serviços essenciais.

A reportagem, baseada no programa CIPCast do Centro de Integridade Pública, junta testemunhos de operadores do sector dos transportes e análises económicas que apontam a falta de divisas como uma das principais causas estruturais da crise.

A realidade dos transportadores: “o negócio já não sustenta”

Para os operadores de transporte semi-colectivo nas cidades de Maputo e Matola, a situação tornou-se insustentável. Jaime Mularanje, proprietário de “chapas” e antigo cobrador desde 1999, descreve um cenário de sobrevivência diária marcado pelo aumento dos custos operacionais e pela escassez de combustível.

Segundo Mularanje, muitos transportadores já operam sem margem de lucro:

“Ninguém está a crescer com este negócio aqui; é manter ou todo dia você ir ter com o agiota porque o valor do negócio não é sustentável.”

O operador denuncia ainda alegadas práticas especulativas em alguns postos de abastecimento, onde o combustível seria retido na expectativa de novos aumentos de preços. A situação tem levado vários transportadores a reduzirem viagens, aumentarem tarifas informalmente ou mesmo abandonarem a actividade.

Além do combustível, os custos de manutenção dispararam. Peças sobressalentes, pneus e lubrificantes registam aumentos constantes devido à dependência das importações e à pressão cambial.

Governo admite pressão sobre importação de combustíveis

Nos últimos meses, o Governo moçambicano reconheceu publicamente as dificuldades ligadas à disponibilidade de divisas para financiar importações estratégicas, incluindo combustíveis.

O Ministério da Economia e Finanças e o Banco de Moçambique têm defendido que o país enfrenta forte pressão cambial provocada pela redução da entrada de moeda estrangeira, sobretudo devido à desaceleração do investimento externo, aumento das importações e menor circulação de dólares no sistema financeiro.

Dados oficiais mostram que Moçambique importa praticamente a totalidade dos combustíveis que consome, tornando o sector altamente vulnerável às oscilações internacionais e à disponibilidade de moeda estrangeira.

O Executivo tem igualmente afirmado que continua a trabalhar com as gasolineiras e operadores financeiros para garantir o abastecimento regular do mercado nacional, embora reconheça constrangimentos temporários em várias regiões do país.

FEMATRO critica medidas paliativas

A Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO), através do seu porta-voz Jorge Manhiça, considera que as medidas adoptadas pelo Governo continuam insuficientes para responder à dimensão da crise.

Segundo Manhiça, muitos operadores trabalham “na linha vermelha”, sem acesso a financiamento bancário formal, recorrendo frequentemente a microcréditos com juros elevados.

O dirigente admite também problemas de organização no sector, incluindo falhas no licenciamento de alguns operadores, situação que limita o acesso a apoios estatais e subsídios.

“O transportador privado nunca quis o subsídio do Estado. O que nós pedimos é melhoramento de vias, tarifa justa e garantias bancárias para podermos andar com os nossos próprios pés.”

A FEMATRO defende reformas estruturais no sector dos transportes urbanos, incluindo corredores exclusivos para autocarros, profissionalização dos operadores e melhoria da fiscalização.

Economistas apontam crise de divisas como causa central

A economista e pesquisadora do CIP, Teresa Boene, considera que a crise actual vai muito além dos preços internacionais do petróleo. Segundo a especialista, o principal problema reside na escassez de divisas no sistema financeiro nacional.

De acordo com a análise apresentada no CIPCast, desde 2023 o Banco de Moçambique reduziu significativamente o apoio à cobertura da factura de importação de combustíveis, agravando a pressão sobre os bancos comerciais.

“Os dados mostram que a partir de 2024 os bancos passaram a comprar divisas dos seus clientes mais do que eles vendem. O nível desse défice já é quase equivalente ao observado no ano passado.”

A pesquisadora alerta ainda que a manutenção de uma taxa de câmbio considerada artificialmente estável cria incentivos para retenção de moeda estrangeira, dificultando ainda mais as importações.

Economistas nacionais têm advertido que a escassez de dólares afecta não apenas os combustíveis, mas também medicamentos, matérias-primas industriais e bens alimentares importados, pressionando a inflação e reduzindo o poder de compra das famílias.

Impacto directo no custo de vida

A crise já se reflecte directamente no quotidiano dos moçambicanos. O aumento dos custos de transporte influencia os preços de produtos alimentares, materiais de construção e serviços básicos.

Em várias cidades, passageiros relatam redução de circulação de “chapas”, aumento do tempo de espera e subida informal das tarifas. Pequenos comerciantes também afirmam estar a enfrentar dificuldades no transporte de mercadorias.

Analistas alertam que, caso a disponibilidade de combustível continue instável, sectores como agricultura, pesca, logística e comércio poderão sofrer impactos ainda mais severos nos próximos meses.

Infraestruturas e reformas continuam no centro do debate

Entre as soluções apontadas pelos intervenientes está a necessidade de investimentos estruturantes na economia nacional.

Jaime Mularanje defende a reabilitação efectiva da Estrada Nacional Número Um (EN1), considerada vital para o escoamento da produção agrícola e circulação de mercadorias.

Já a FEMATRO insiste na necessidade de modernização do sistema de transporte público urbano, incluindo modelos de transporte de massa semelhantes ao Bus Rapid Transit (BRT).

Especialistas defendem ainda maior diversificação das fontes de divisas, estímulo à produção nacional e reformas económicas que reduzam a dependência externa.

A conclusão dominante entre economistas e operadores é clara: sem resolver a crise cambial e sem investimentos consistentes em infraestruturas e mobilidade, Moçambique continuará vulnerável a choques internacionais, com os cidadãos a suportarem os custos mais pesados da crise.

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