Enquanto o Conselho Municipal da Cidade de Maputo descreve a retirada dos vendedores informais das imediações da Praça 25 de Junho como uma operação ordeira e pacífica, vários comerciantes, sobretudo vendedores de peixe, relatam uma realidade marcada por incertezas, perdas financeiras e receios quanto à sua subsistência.
A edilidade assegura que o processo decorreu sem incidentes de maior gravidade e que os constrangimentos registados nos primeiros dias resultaram de alegados mal-entendidos entre as partes. Segundo o município, após o esclarecimento das medidas adoptadas, os vendedores passaram gradualmente a acatar as orientações das autoridades.
No entanto, os testemunhos recolhidos junto dos afectados revelam um cenário distinto, caracterizado por dificuldades económicas imediatas e preocupação com o futuro das suas famílias.
Município defende reorganização Urbana

O Conselho Municipal justifica a intervenção como parte de uma estratégia de ordenamento dos espaços públicos, destinada a melhorar a mobilidade urbana, reforçar a segurança e garantir melhores condições de higiene no centro da cidade.
As autoridades defendem ainda que o processo procura conciliar a organização do espaço urbano com a necessidade de preservação das actividades económicas dos vendedores, através da sua integração em locais considerados mais apropriados para o exercício do comércio.
Vendedores denunciam perda de rendimentos
Para muitos comerciantes, contudo, a retirada da Praça 25 de Junho representa um duro golpe nas suas fontes de rendimento.
Uma vendedora de peixe, viúva e mãe de duas filhas, afirma que a medida compromete directamente o sustento da sua família.
“Estão a tirar-nos o pão. É deste negócio que vivemos e sustentamos os nossos filhos”, lamentou.
A comerciante explica que, desde a implementação da medida, tem sido obrigada a circular com a mercadoria sem encontrar um local adequado para a sua venda, vivendo sob o receio constante de apreensões ou sanções por parte das autoridades.
Falta de Condições nos Mercados Alternativos
Entre as principais preocupações apresentadas pelos vendedores está a alegada falta de condições nos mercados indicados pelo município.
Segundo relatam, o Mercado Central, apontado como uma das alternativas, não dispõe de infra-estruturas adequadas para a conservação do pescado.
“Não há câmaras frigoríficas suficientes. Sem frio, o peixe estraga-se rapidamente e ninguém assume os prejuízos”, afirmou uma das comerciantes.
Os vendedores sustentam que a ausência de condições de armazenamento aumenta significativamente o risco de perdas financeiras, sobretudo para quem trabalha com produtos perecíveis.
Impacto Social nas Famílias
Além dos prejuízos comerciais, os afectados alertam para as consequências sociais da medida.
Muitas famílias dependem exclusivamente dos rendimentos gerados pela venda de peixe para custear despesas básicas, incluindo alimentação, transporte e educação dos filhos.
Algumas comerciantes afirmam já enfrentar dificuldades para assegurar a continuidade dos estudos dos seus filhos, numa altura em que os custos associados à formação continuam a representar um desafio para agregados familiares de baixa renda.
Entre a Ordem Urbana e a Inclusão Económica
Enquanto o Conselho Municipal reafirma o compromisso de prosseguir com o ordenamento dos espaços públicos e melhorar a imagem urbana da capital, os vendedores apelam a soluções que conciliem a organização da cidade com a realidade socioeconómica de milhares de famílias que dependem do comércio informal.
A situação evidencia um desafio recorrente nas grandes cidades moçambicanas: encontrar um equilíbrio entre a necessidade de disciplina urbana e a protecção dos meios de subsistência de cidadãos que encontram no comércio informal a principal fonte de rendimento.
Para os vendedores afectados, a questão ultrapassa o simples cumprimento de normas municipais. Trata-se, acima de tudo, da garantia de condições que lhes permitam continuar a trabalhar e a sustentar as suas famílias com dignidade.
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