— Vai para a segunda época no Al-Ula, clube onde chegou com a temporada passada em andamento. Fale-nos sobre este projeto na Arábia Saudita.
— Estou em um projeto muito ambicioso do ponto de vista esportivo, mas que também apoia o desenvolvimento cultural. Durante o período em que estive à frente da equipe, fizemos uma média de 2,47 pontos por jogo, o que nos teria colocado em primeiro lugar, oito pontos à frente do segundo colocado. Acabamos ainda perdendo três pontos, não por responsabilidade nossa, mas por um erro da federação. Informamos que um de nossos jogadores tinha quatro cartões amarelos, mas nos disseram que ele tinha apenas três. Aceitei treinar novamente na segunda divisão porque esse é um projeto com qualidade, estrutura, organização e seriedade.
— Como vê a realidade do futebol saudita atualmente?
— A realidade de hoje não tem nada a ver com a que encontrei em 2007 ou em 2010. A chegada de Cristiano Ronaldo coincidiu com uma forte aposta da Arábia Saudita no futebol e acabou transformando profundamente a competição. Hoje há muito mais organização, gramados melhores, infraestrutura melhor, jogadores de maior qualidade e uma competição muito mais forte, inclusive a segunda divisão.
— Você tem uma carreira bastante cheia. Ainda pensa em voltar ao futebol português?
— É difícil.
– Por que?
— Depois de ter treinado clubes como Sporting, FC Porto, SC Braga e Vitória de Guimarães, não vejo como seja fácil voltar ao futebol português. Eu gostaria, naturalmente, mas não é simples.
Sporting foi o último clube português que Peseiro treinou (2018/2019) — Foto: IMAGO
— Há projetos de clubes em franco crescimento em Portugal. O Carlos Carvalhal, por exemplo, está agora no Famalicão. Um caso como esse não poderia seduzi-lo?
— Poderia sim. O Famalicão é uma grande equipe e vem crescendo muito. É verdade que já treinei clubes como SC Braga e Vitória de Guimarães, mas hoje existem outros projetos em Portugal que também despertam interesse para um treinador como eu. No momento, porém, não é nisso que estou pensando. Talvez eu pense nisso no ano que vem ou quando esse ciclo terminar, porque no futebol tudo pode acontecer. Há projetos muito interessantes. Falando em Famalicão, apesar de Carlos Carvalhal estar há pouco tempo no clube, vi um time muito organizado, com jogadores de qualidade e boa estrutura. Existem outros clubes portugueses com muita qualidade onde eu poderia trabalhar. Acompanho o futebol português. Voltar pode ser uma possibilidade, até porque não quero encerrar a carreira sem voltar a treinar em Portugal.
«RUI ALVES ANDA A ‘CHATEAR-ME…’»
A trajetória de José Peseiro tem tido marca bem vincada em vários clubes. E um deles foi o Nacional, que ele guiou, com muito sucesso, de 1999 a 2003. E as relações daquela época continuam fortes. «O presidente do Nacional [Rui Alves] anda me chateando todo ano para vir terminar a carreira no Nacional. Tenho 66 anos e quero continuar treinando, pelo menos, até os 70, desde que mantenha essa vitalidade. Nem parece que tenho essa idade, mas isso resulta da paixão que continuo sentindo pelo futebol», assume, com um sorriso à mistura.
«Enquanto sentir essa paixão pelo futebol, estarei disponível para qualquer projeto. E há bons projetos em Portugal, disso não tenho dúvidas», afirma o técnico, natural de Coruche.
José Peseiro e Rui Alves tem uma história forte no Nacional — Foto: Diário de Notícias da Madeira
EQUILIBRÍO PROJETADO ENTRE OS TRÊS GRANDES
— Como você vislumbra o próximo campeonato português? Quem lhe parece largar na frente?
— É sempre muito cedo para dizer quem é favorito. É verdade que, se o FC Porto voltar a ser campeão, dirão que era o favorito. Mas acredito que haverá muito equilíbrio entre Sporting, Benfica e FC Porto. Acho que será um campeonato ainda mais competitivo. Neste momento existem algumas dúvidas em relação à consistência das equipes, porque o Sporting mudou bastante, embora tenha feito essas mudanças com muito critério. Na minha opinião, o Benfica já tinha um grande elenco na temporada passada, tanto em qualidade quanto em quantidade. Infelizmente, as coisas não saíram como o clube pretendia. Já o FC Porto foi a grande surpresa. Talvez não tivesse o elenco mais forte em quantidade e, aparentemente, muitos consideravam que Sporting e Benfica tinham melhores opções. No entanto, acabou sendo campeão.
— E quanto às restantes equipas?
— Espero que o SC Braga consiga dar continuidade ao futebol de alta qualidade que apresentou na temporada passada. Espero igualmente que os demais clubes, apesar de terem menos recursos financeiros e menor capacidade de contratar jogadores, consigam tornar o campeonato português mais competitivo e mais bem jogado. Há algo que todos os treinadores portugueses têm em comum e pelo qual tiro o chapéu para eles: eles são extremamente competentes na preparação estratégica e tática de cada jogo. Os treinadores portugueses são muito inteligentes.
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