Norte e Centro continuam atrás de Maputo no acesso aos serviços financeiros

Enquanto a capital concentra bancos e oportunidades, milhões de moçambicanos percorrem longas distâncias para realizar operações financeiras

Todas as primeiras segundas-feiras do mês, Alberto acorda antes do nascer do sol na localidade de Mecanhelas, província do Niassa. O destino é uma vila onde existe um agente de dinheiro electrónico. A viagem pode durar mais de uma hora, apenas para levantar o dinheiro enviado pelo filho que trabalha em Maputo.

A experiência de Alberto é partilhada por milhares de famílias nas províncias do Norte e Centro de Moçambique, onde o acesso aos serviços financeiros continua muito abaixo dos níveis registados na capital do país.

Embora Moçambique tenha registado um crescimento significativo da inclusão financeira em 2025, os benefícios dessa expansão continuam distribuídos de forma desigual entre as províncias.

É o que revela o Relatório de Inclusão Financeira 2025, do Banco de Moçambique.

Crescimento nacional esconde profundas diferenças regionais

O relatório mostra que todas as províncias registaram melhorias no acesso aos serviços financeiros, impulsionadas sobretudo pela expansão dos agentes de moeda electrónica.

Mesmo assim, a Cidade de Maputo e a Província de Maputo continuam a liderar praticamente todos os indicadores de inclusão financeira, enquanto Niassa, Nampula, Zambézia e Cabo Delgado permanecem entre as regiões com menor cobertura de serviços financeiros formais.

No caso das contas bancárias tradicionais, a Cidade de Maputo apresenta uma taxa de bancarização várias vezes superior à registada na Zambézia, Nampula ou Niassa.

As diferenças também são visíveis na posse de contas de moeda electrónica, embora este serviço tenha crescido em todas as províncias durante 2025.

Porque existem estas diferenças?

As disparidades não são explicadas apenas pela existência de bancos.

Segundo o relatório, factores como densidade populacional, desenvolvimento económico, qualidade das infra-estruturas, cobertura das telecomunicações e concentração da actividade empresarial influenciam directamente a presença de serviços financeiros.

Em Maputo concentram-se:

  • sedes de bancos;
  • empresas privadas;
  • maior número de empregos formais;
  • rendimento médio mais elevado;
  • maior utilização de serviços digitais.

Nas províncias mais afastadas, a realidade é diferente.

Grande parte da população depende da agricultura familiar, do comércio informal e de pequenas actividades económicas, sectores que tradicionalmente têm menor ligação ao sistema financeiro formal.

Os agentes de dinheiro móvel estão a mudar o cenário

Uma das conclusões mais importantes do relatório é que a expansão dos agentes de moeda electrónica está a reduzir, gradualmente, estas desigualdades.

Entre 2024 e 2025, os agentes não bancários cresceram cerca de 42%, tornando-se responsáveis por mais de 91% de todos os pontos de acesso aos serviços financeiros existentes no país.

O crescimento foi particularmente expressivo em províncias historicamente menos servidas, como:

  • Niassa;
  • Cabo Delgado;
  • Zambézia.

Nestas regiões, o aumento da rede de agentes permite que milhares de pessoas realizem operações financeiras sem necessidade de viajar até às cidades.

O impacto na vida do cidadão comum

A desigualdade regional no acesso aos serviços financeiros tem consequências muito concretas.

Para um agricultor em Cabo Delgado, conseguir um empréstimo para comprar sementes pode ser muito mais difícil do que para um empresário instalado em Maputo.

Uma pequena comerciante na Zambézia pode gastar várias horas apenas para levantar dinheiro ou efectuar um pagamento.

Uma família em Niassa pode continuar dependente de dinheiro transportado fisicamente porque ainda não existe cobertura suficiente de serviços financeiros na sua comunidade.

Quanto maior a distância até aos serviços financeiros, maiores são:

  • os custos de transporte;
  • o tempo perdido;
  • o risco de roubo;
  • a exclusão económica.

Ainda existem poucas agências bancárias

Embora o número total de pontos de acesso tenha aumentado significativamente, a expansão foi impulsionada sobretudo pelos serviços digitais.

O número de agências bancárias praticamente manteve-se estável entre 2024 e 2025, enquanto os ATM registaram poucas alterações e os terminais POS diminuíram devido à desactivação de equipamentos inactivos.

Isto significa que o crescimento da inclusão financeira está a depender muito mais do telemóvel do que da abertura de novos bancos.

O Governo quer reduzir estas diferenças

A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031 reconhece que a redução das desigualdades regionais é um dos principais desafios do sistema financeiro moçambicano.

Entre as prioridades estão:

  • expansão dos pontos de acesso;
  • fortalecimento dos pagamentos digitais;
  • melhoria da identificação civil;
  • promoção da educação financeira;
  • reforço da protecção do consumidor;
  • incentivo à inovação através das fintechs.

Análise

Os dados do Banco de Moçambique mostram que a inclusão financeira está a crescer, mas não ao mesmo ritmo em todo o território nacional.

A expansão dos serviços digitais representa uma oportunidade histórica para reduzir desigualdades que durante décadas dependeram da construção de agências bancárias. No entanto, a tecnologia, por si só, não elimina as barreiras económicas e sociais existentes.

Enquanto um cidadão de Maputo encontra facilmente uma agência bancária, um ATM ou um agente de dinheiro electrónico a poucos minutos de distância, muitos residentes das zonas rurais continuam a enfrentar limitações de cobertura, conectividade e literacia financeira.

O verdadeiro sucesso da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira será medido quando o local de residência deixar de determinar as oportunidades de acesso ao crédito, à poupança e aos restantes serviços financeiros.


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