Moçambique acelera inclusão financeira: dinheiro electrónico transforma a forma como milhões de cidadãos movimentam o seu dinheiro

Durante muitos anos, Maria, uma comerciante de tomate no distrito de Mecanhelas, terminava cada dia escondendo o dinheiro das vendas dentro de uma lata metálica, enterrada no quintal. Quando precisava de comprar mercadoria em Cuamba, tinha de viajar com milhares de meticais em dinheiro vivo, enfrentando longas distâncias e riscos de roubo.

Hoje, o cenário começa a mudar.

Com um telemóvel simples e um agente de dinheiro electrónico instalado na vila, Maria consegue receber pagamentos, enviar dinheiro aos filhos que estudam noutra província e comprar mercadoria sem transportar notas no bolso. A história repete-se em milhares de comunidades moçambicanas e ajuda a explicar porque 2025 ficou marcado como um dos anos de maior expansão da inclusão financeira no país.

Segundo o Relatório de Inclusão Financeira 2025, divulgado pelo Banco de Moçambique, a digitalização tornou-se o principal motor da aproximação entre os cidadãos e os serviços financeiros formais.

O que aconteceu?

O relatório mostra que Moçambique registou 482.359 pontos de acesso a serviços financeiros, representando um crescimento de 36% em relação a 2024.

Grande parte desta expansão foi impulsionada pelos agentes de moeda electrónica, cujo número cresceu cerca de 42%, tornando-se a principal porta de entrada dos cidadãos no sistema financeiro. Ao mesmo tempo, o número de contas de moeda electrónica atingiu 1.313 contas por cada mil adultos, um crescimento de aproximadamente 20%, sendo particularmente expressivo entre as mulheres.

O Banco de Moçambique considera que este crescimento resulta da expansão dos serviços digitais, da maior presença dos agentes de dinheiro móvel e da crescente utilização do telemóvel como instrumento financeiro. (Banco de Moçambique)

Porque é importante?

Durante décadas, abrir uma conta bancária significava deslocar-se até uma cidade, enfrentar filas e reunir documentação que muitas famílias rurais nem sempre possuíam.

Hoje, em muitas localidades, o primeiro contacto de um cidadão com o sistema financeiro já não acontece dentro de uma agência bancária, mas sim através de um pequeno agente identificado com as marcas dos operadores de dinheiro móvel.

Essa transformação reduz custos, aproxima os serviços financeiros das comunidades e diminui a dependência do dinheiro físico.

Na prática, milhões de moçambicanos conseguem:

  • receber salários e remessas familiares;
  • pagar contas sem viajar;
  • efectuar transferências em poucos minutos;
  • guardar dinheiro com maior segurança;
  • participar na economia formal.

O impacto na vida do cidadão comum

Os efeitos vão muito além da tecnologia.

Para uma mãe que recebe apoio financeiro de um filho emigrado, significa deixar de esperar dias por um transporte que leve dinheiro até à aldeia.

Para um pequeno agricultor, representa a possibilidade de vender a produção e receber imediatamente o pagamento.

Para um estudante universitário, reduz o tempo e os custos associados ao envio de dinheiro pelos familiares.

Para pequenos comerciantes, diminui o risco de circular diariamente com grandes quantias em numerário.

Num país onde muitas comunidades continuam afastadas das agências bancárias tradicionais, o telemóvel passa a desempenhar funções que antes pertenciam exclusivamente aos bancos.

Nem tudo são boas notícias

Apesar dos avanços, o relatório alerta que a inclusão financeira continua longe de beneficiar todos os moçambicanos da mesma forma.

As províncias de Niassa, Nampula, Zambézia e Cabo Delgado continuam entre as menos abrangidas pelos serviços financeiros, enquanto persistem desigualdades entre homens e mulheres no acesso ao crédito e aos produtos financeiros mais sofisticados.

O Índice de Inclusão Financeira manteve-se em 36,4 pontos, considerado um nível moderado. Embora o acesso e o uso dos serviços tenham melhorado, permanecem desafios relacionados com a disponibilidade da infra-estrutura financeira, a literacia financeira e a protecção do consumidor.

Contexto

A expansão da inclusão financeira acompanha a implementação da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031, lançada pelo Governo, que pretende ampliar o acesso ao crédito, aos pagamentos digitais, aos seguros e à educação financeira, recorrendo igualmente à inovação tecnológica e às fintechs. (Ministério da Economia e Finanças)

Análise

Os dados sugerem que Moçambique está a viver uma mudança estrutural no sistema financeiro.

Ao contrário do passado, em que a expansão dependia sobretudo da abertura de novas agências bancárias, o crescimento actual assenta nos canais digitais e na moeda electrónica. Isso reduz custos para as instituições financeiras e amplia o alcance dos serviços, sobretudo em zonas rurais.

Contudo, a verdadeira inclusão financeira não se mede apenas pelo número de contas abertas. O desafio passa por garantir que os cidadãos utilizem esses serviços para poupar, investir, obter crédito e desenvolver actividades económicas. Enquanto persistirem desigualdades regionais, barreiras de literacia financeira e dificuldades de acesso ao financiamento, a expansão digital continuará a representar apenas uma parte da solução para o desenvolvimento económico inclusivo.


Discover more from Hora Certa News MZ

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Moçambique, Tanzania e Malawi criar Comissão da Bacia do Rovuma