Educação financeira continua a ser o maior desafio para transformar inclusão em desenvolvimento

Educação financeira continua a ser o maior desafio para transformar inclusão em desenvolvimento

Milhões de moçambicanos já utilizam serviços financeiros, mas muitos ainda desconhecem como poupar, investir ou recorrer ao crédito de forma responsável

No final de cada mês, Rosa, residente no distrito de Morrumbala, consegue guardar cerca de 500 meticais das vendas de hortícolas. Em vez de depositar esse dinheiro ou utilizar uma conta de poupança, guarda as notas dentro de uma panela escondida no quarto.

Quando surge uma emergência, o dinheiro desaparece rapidamente. Quando aparece uma oportunidade de expandir o negócio, não existe qualquer histórico financeiro que lhe permita solicitar um empréstimo.

Rosa não está excluída do sistema financeiro. Possui uma carteira electrónica e utiliza-a para receber pagamentos. Contudo, como acontece com milhares de moçambicanos, ainda não beneficia plenamente das vantagens que os serviços financeiros podem proporcionar.

O Relatório de Inclusão Financeira 2025, do Banco de Moçambique, conclui que a literacia financeira continua a ser um dos maiores obstáculos para consolidar a inclusão financeira no país.

A tecnologia evoluiu mais depressa do que o conhecimento

Nos últimos anos, Moçambique assistiu a uma rápida expansão da banca digital e dos serviços de moeda electrónica.

Entretanto, o conhecimento sobre produtos financeiros não acompanhou o mesmo ritmo.

Muitos cidadãos sabem enviar dinheiro através do telemóvel.

Contudo, continuam sem conhecer as vantagens da poupança programada, dos seguros, do crédito produtivo ou do investimento.

Segundo o relatório, esta realidade limita o impacto económico da inclusão financeira, sobretudo nas zonas rurais e entre os pequenos empreendedores.

Poupar continua a ser um hábito pouco difundido

Especialistas afirmam que a educação financeira começa com decisões simples.

Guardar dinheiro de forma segura, planear despesas e separar recursos para emergências são práticas que podem reduzir significativamente a vulnerabilidade das famílias.

No entanto, muitas pessoas continuam a conservar dinheiro em casa, onde está sujeito a roubos, perdas ou gastos impulsivos.

Além disso, quem não utiliza produtos financeiros dificilmente constrói um histórico que facilite o acesso ao crédito.

O impacto na vida do cidadão comum

A falta de educação financeira afecta praticamente todos os sectores da sociedade.

Um agricultor pode deixar de investir em sementes de melhor qualidade porque desconhece as opções de financiamento existentes.

Da mesma forma, uma comerciante perde oportunidades de aumentar o stock por recear recorrer ao crédito.

Por outro lado, muitas famílias enfrentam dificuldades para responder a despesas inesperadas porque nunca desenvolveram o hábito de poupar.

Entretanto, jovens que iniciam a vida profissional acabam por repetir os mesmos comportamentos financeiros das gerações anteriores, perpetuando ciclos de baixa capacidade de investimento.

Educação financeira é também protecção do consumidor

Outro aspecto destacado pelo Banco de Moçambique diz respeito à protecção dos consumidores.

À medida que cresce a utilização dos pagamentos digitais, aumentam igualmente os riscos de fraude, burlas electrónicas e utilização inadequada dos serviços financeiros.

Por isso, compreender o funcionamento das plataformas digitais tornou-se tão importante quanto saber utilizá-las.

Conhecer taxas, comissões, direitos e deveres permite que os consumidores tomem decisões mais informadas e reduzam o risco de prejuízos financeiros.

Governo aposta na formação financeira

Para enfrentar este desafio, a Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031 prevê o reforço da educação financeira através de escolas, instituições públicas, operadores financeiros e organizações comunitárias.

Além disso, pretende incentivar a criação de produtos mais simples e adaptados às necessidades das populações de baixa renda, promovendo simultaneamente uma utilização mais segura dos serviços digitais.

Especialistas consideram que a educação financeira deverá assumir um papel semelhante ao da alfabetização tradicional, tornando-se uma competência essencial para a vida económica moderna.

Porque esta questão interessa ao país?

Uma população financeiramente mais preparada tende a poupar mais, investir melhor e utilizar o crédito de forma mais responsável.

Consequentemente, aumentam as probabilidades de criação de pequenas empresas, expansão da produção agrícola e fortalecimento das economias locais.

Ao mesmo tempo, instituições financeiras passam a operar com clientes mais informados e menos expostos ao incumprimento.

Análise

O Relatório de Inclusão Financeira 2025 deixa uma mensagem clara: a tecnologia conseguiu aproximar milhões de moçambicanos do sistema financeiro, mas a inclusão efectiva depende agora da capacidade de transformar acesso em conhecimento.

O próximo desafio de Moçambique não será apenas aumentar o número de contas bancárias ou de carteiras electrónicas. Será garantir que cada cidadão compreenda como utilizar esses instrumentos para poupar, investir, proteger o património familiar e criar oportunidades económicas. Sem esse conhecimento, a inclusão financeira continuará a crescer em números, mas produzirá um impacto limitado na redução da pobreza e no desenvolvimento sustentável.


Discover more from Hora Certa News MZ

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Agentes de dinheiro móvel substituem bancos em milhares de comunidades moçambicanas

MOÇAMBIQUE: Agentes de dinheiro móvel substituem bancos em milhares de comunidades moçambicanas