Expansão da moeda electrónica aproxima os serviços financeiros das zonas rurais e muda a forma como famílias, comerciantes e agricultores movimentam dinheiro
Até há poucos anos, sempre que precisava de enviar dinheiro à mãe, residente no distrito de Muidumbe, em Cabo Delgado, Ernesto tinha apenas duas opções: confiar o dinheiro a um motorista de transporte semicolectivo ou viajar centenas de quilómetros para fazer a entrega pessoalmente.
Actualmente,, basta alguns toques no telemóvel.
Em poucos segundos, a mãe recebe uma mensagem a confirmar que o valor já está disponível num agente de dinheiro móvel da sua comunidade.
Além disso, esta mudança, aparentemente simples, representa uma das maiores transformações económicas silenciosas que Moçambique vive nas últimas décadas.
O Relatório de Inclusão Financeira 2025, do Banco de Moçambique, mostra que os agentes de moeda electrónica deixaram de ser apenas um complemento dos bancos para se tornarem o principal canal de acesso aos serviços financeiros em grande parte do território nacional.
Uma revolução que acontece longe das agências bancárias
Ao contrário do modelo tradicional, em que era necessário construir edifícios bancários e instalar caixas automáticas, a expansão da inclusão financeira está agora a acontecer através de pequenos estabelecimentos comerciais.
Mercearias, barracas, papelarias, farmácias e quiosques passaram a desempenhar uma função que antes era exclusiva das instituições bancárias.
Segundo o relatório, Moçambique contabilizou 482.359 pontos de acesso aos serviços financeiros em 2025, um crescimento de 36% relativamente ao ano anterior.
Desse total, 446.604 correspondem a agentes não bancários, representando cerca de 92% de todos os pontos de acesso existentes no país.
Na prática, isso significa que, para a maioria dos moçambicanos, o primeiro contacto com o sistema financeiro acontece através de um agente de dinheiro móvel e não numa agência bancária.
Porque estão os agentes a crescer tão rapidamente?
Existem razões económicas e sociais.
Abrir uma agência bancária implica elevados investimentos em edifícios, equipamentos, segurança e recursos humanos.
Já um agente de dinheiro móvel pode funcionar num pequeno estabelecimento comercial, utilizando apenas um telemóvel, um terminal electrónico e ligação à rede móvel.
Este modelo reduz significativamente os custos de expansão e permite que os operadores cheguem a comunidades onde a abertura de uma agência bancária seria financeiramente inviável.
Por isso, enquanto o número de agências bancárias praticamente permaneceu estável, os agentes de moeda electrónica cresceram 42% entre 2024 e 2025.
O telemóvel tornou-se um banco de bolso
O crescimento da rede de agentes acompanha a rápida expansão das contas de moeda electrónica.
De acordo com o documento, o relatório indica que existem agora 1.313 contas de moeda electrónica por cada mil adultos, demonstrando que muitos cidadãos possuem mais do que uma carteira digital para diferentes operadores.
As mulheres registaram o maior crescimento, contribuindo para reduzir parte das desigualdades de género no acesso aos serviços financeiros digitais.
Consequentemente, o telemóvel passou a permitir operações que anteriormente exigiam deslocações aos bancos, como:
- envio e recepção de dinheiro;
- pagamento de serviços públicos;
- compra de recargas;
- pagamento de comerciantes;
- levantamento de dinheiro;
- recebimento de salários e apoios sociais.
O impacto na vida do cidadão comum
Os efeitos desta transformação são sentidos diariamente.
No caso de um agricultor em Gurué, significa vender café e receber imediatamente o pagamento.
Da mesma forma, um pescador em Angoche, reduz o risco de transportar dinheiro após um dia de vendas.
Já um estudante deslocado da família, permite receber apoio financeiro em poucos minutos.
Entretanto, um pequeno comerciante, facilita a reposição de mercadorias sem necessidade de transportar grandes quantias em numerário.
Além da comodidade, aumenta também a segurança, reduzindo perdas por roubos e diminuindo os custos de deslocação às cidades.
Ainda há desafios
Contudo, apesar da expansão dos agentes, o relatório alerta que persistem desigualdades importantes.
As províncias de Niassa, Cabo Delgado, Nampula e Zambézia continuam com níveis inferiores de acesso aos serviços financeiros, embora tenham registado um crescimento expressivo da rede de agentes durante 2025.
Por outro lado, outro desafio prende-se com a utilização dos serviços.
Ter uma carteira electrónica não significa, necessariamente, utilizar produtos financeiros mais sofisticados, como poupança, crédito ou seguros.
Grande parte dos utilizadores continua a recorrer às plataformas principalmente para enviar e receber dinheiro.
O próximo passo é transformar pagamentos em desenvolvimento
Nesse contexto, o Banco de Moçambique pretende que a expansão dos agentes seja acompanhada por uma utilização mais diversificada dos serviços financeiros.
A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira prevê o fortalecimento da educação financeira, da protecção do consumidor, da inovação digital e da interoperabilidade entre plataformas, permitindo que os cidadãos utilizem os serviços com maior confiança e eficiência.
Análise
Em síntese,, a rápida expansão dos agentes de dinheiro móvel demonstra que Moçambique está a seguir uma trajectória semelhante à observada noutros países africanos, onde a tecnologia móvel permitiu ultrapassar limitações históricas da banca tradicional.
No entanto, o verdadeiro potencial desta transformação dependerá da capacidade de converter milhões de utilizadores de carteiras electrónicas em participantes activos da economia formal, com acesso ao crédito, à poupança, aos seguros e a instrumentos de investimento.
Enquanto isso não acontecer, a inclusão financeira continuará a representar sobretudo uma revolução nos meios de pagamento, e não ainda uma transformação completa das oportunidades económicas para a maioria dos moçambicanos.
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