Quando decidiu expandir o pequeno negócio de venda de peixe seco no mercado local, Joana acreditava que o mais difícil seria conquistar novos clientes. Estava enganada. O verdadeiro obstáculo surgiu quando tentou obter financiamento para comprar um congelador. Apesar de movimentar dinheiro regularmente através da carteira electrónica e possuir uma conta bancária, o crédito foi-lhe negado por falta de garantias e histórico financeiro suficiente.
A história de Joana ilustra uma realidade vivida por milhares de mulheres moçambicanas: estão cada vez mais presentes no sistema financeiro, mas continuam longe de usufruir das mesmas oportunidades que os homens quando o assunto é financiamento para investir e fazer crescer os seus negócios.
É esta uma das principais conclusões do Relatório de Inclusão Financeira 2025, do Banco de Moçambique.
Cresce o número de mulheres com contas digitais
Os dados revelam que 2025 foi um ano histórico para a participação feminina nos serviços financeiros digitais.
O número de contas de moeda electrónica tituladas por mulheres aumentou 24%, passando de 924 para 1.144 contas por cada mil mulheres adultas. Entre os homens, o crescimento também foi significativo, mas ligeiramente inferior, situando-se em 22%. Este desempenho contribuiu para reduzir parte da diferença existente no acesso aos serviços financeiros digitais.
Também nas contas bancárias tradicionais houve evolução, ainda que mais modesta. O número de contas bancárias por mil mulheres passou de 208 para 214, enquanto entre os homens aumentou de 441 para 449. Apesar do progresso, a disparidade permanece elevada.
Para os analistas, estes números demonstram que a expansão dos serviços digitais está a facilitar a entrada de mais mulheres no sistema financeiro formal, sobretudo nas zonas onde a presença de bancos continua reduzida.
O problema começa quando se fala em crédito
Ter uma conta não significa, necessariamente, conseguir financiamento.
O relatório mostra que, embora a participação feminina no crédito tenha aumentado de 31% para 34%, a dos homens cresceu ainda mais, passando de 59% para 66%, ampliando a desigualdade no acesso ao financiamento.
Na prática, muitas mulheres conseguem receber dinheiro, efectuar pagamentos e realizar transferências através do telemóvel, mas continuam a encontrar dificuldades quando procuram empréstimos para expandir um pequeno negócio, adquirir equipamentos ou investir na produção agrícola.
Segundo o Banco de Moçambique, esta realidade evidencia a necessidade de políticas específicas que promovam maior equidade no acesso ao crédito e aos depósitos.
Porque continua a existir esta diferença?
Especialistas em inclusão financeira apontam vários factores.
Grande parte das mulheres trabalha no sector informal, onde os rendimentos são irregulares e difíceis de comprovar perante as instituições financeiras.
Além disso, muitas não possuem bens registados em seu nome que possam servir como garantia para um empréstimo.
Outro desafio prende-se com a literacia financeira. Apesar da crescente utilização das carteiras móveis, muitas empreendedoras ainda desconhecem produtos como crédito empresarial, seguros agrícolas, poupança programada ou linhas de financiamento destinadas às micro e pequenas empresas.
Organismos internacionais, como o Banco Mundial e a Aliança para a Inclusão Financeira (AFI), têm alertado que reduzir a diferença de género no acesso ao financiamento pode aumentar a produtividade das pequenas empresas, criar empregos e acelerar o crescimento económico, especialmente em países de baixo rendimento.
O impacto na vida do cidadão comum
Para milhares de mulheres, esta realidade tem consequências directas.
Uma comerciante que não consegue obter crédito compra menos mercadoria e vende menos.
Uma agricultora sem financiamento continua dependente de técnicas tradicionais e produz menos alimentos.
Uma jovem empresária sem acesso ao crédito adia investimentos que poderiam criar novos postos de trabalho.
No agregado familiar, isso significa menor rendimento, menor capacidade de enfrentar crises económicas e menor possibilidade de investir na educação e saúde dos filhos.
Em muitas comunidades, o sucesso financeiro de uma mulher beneficia toda a família. Quando ela consegue expandir o seu negócio, aumenta o consumo local, gera emprego e fortalece a economia comunitária.
Há sinais positivos
Apesar das dificuldades, o relatório identifica mudanças encorajadoras.
O Índice de Inclusão Financeira por género revela uma diferença relativamente moderada entre homens e mulheres: 37,7 pontos para os homens e 35,3 para as mulheres. Embora ambos os indicadores tenham registado uma ligeira redução em relação a 2024, a distância permanece relativamente pequena quando comparada com outros indicadores financeiros.
Este resultado sugere que as políticas de expansão da moeda electrónica, educação financeira e digitalização dos serviços começam a produzir efeitos positivos na participação feminina.
O desafio dos próximos anos
A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031 identifica precisamente esta questão como uma prioridade. Entre as metas estão o reforço da educação financeira, a expansão dos serviços digitais, a protecção do consumidor e a criação de condições para um acesso mais equitativo aos produtos financeiros.
Análise
Os números demonstram que Moçambique conseguiu reduzir parte da exclusão financeira feminina, sobretudo graças à rápida expansão da moeda electrónica. Contudo, a inclusão financeira só será verdadeiramente transformadora quando as mulheres deixarem de ser apenas utilizadoras de serviços de pagamento e passarem a beneficiar, em igualdade de circunstâncias, de crédito, poupança, seguros e instrumentos de investimento.
A próxima etapa da inclusão financeira não será apenas colocar mais mulheres dentro do sistema bancário, mas garantir que esse sistema funcione como uma ferramenta efectiva de geração de rendimento, autonomia económica e redução da pobreza.
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