Maputo, 22 Abr (AIM) – O Procurador-Geral de Moçambique, Américo Letela, declarou quarta-feira em Maputo que “a corrupção nas suas muitas formas e expressões é hoje uma realidade amplamente reconhecida”
“Não é um fenómeno isolado ou residual, restrito apenas a determinados sectores”, afirmou, ao entregar o seu relatório anual sobre o estado da administração da justiça ao parlamento do país, a Assembleia da República.
Letela alertou que “a normalização da corrupção gera uma cultura de tolerância ao ilícito, em que a corrupção passa a ser vista como um meio legítimo para atingir objetivos individuais”.
Reconhecer a existência da corrupção, disse, “é o primeiro e indispensável passo para uma resposta séria, eficaz e duradoura, consciente de que nenhuma sociedade pode derrotar a corrupção enquanto a tratar como um problema distante e abstrato”.
“Todo ato corrupto, independentemente da sua escala, prejudica os interesses coletivos, desvia recursos públicos e enfraquece o Estado de direito”, acrescentou Letela.
Tolerar a corrupção “corrói valores essenciais como integridade, honestidade, responsabilidade, solidariedade e respeito pela lei, e compromete o futuro das próximas gerações”.
O combate à corrupção, sublinhou Letela, “não é apenas uma questão penal ou institucional. É, acima de tudo, uma questão de mentalidade colectiva, de ética pública e de escolha social.
O Estado, acrescentou Letela, “não pode derrotar a corrupção sem o envolvimento activo da sociedade, tal como a sociedade não pode exigir integridade sem assumir a responsabilidade de rejeitar as práticas corruptas na vida quotidiana”.
Isto significa que a luta contra a corrupção deve ser vista “como um imperativo nacional”, que requer “liderança política, instituições fortes, justiça independente, educação cívica e uma cultura que seja absolutamente intolerante face à impunidade”.
Dando exemplos de como a corrupção pode ser prejudicial para o Estado e a sociedade, Letela observou os enormes custos sociais, económicos e humanos da corrupção na polícia de trânsito. Os acidentes de trânsito, disse ele, não foram apenas o resultado de falhas técnicas ou humanas, mas “estão associados a um sistema de controle rodoviário enfraquecido por práticas corruptas”.
Foram estas práticas que permitiram que pessoas não qualificadas conduzissem veículos e que veículos não aptos a circular nas estradas moçambicanas.
A cultura da impunidade, acrescentou Letela, “encoraja comportamentos de risco e enfraquece o respeito pela lei”.
Letela atacou a corrupção dentro do sistema de justiça moçambicano, o que mina a credibilidade da justiça. Como exemplos de corrupção nos tribunais, Letela apontou a lentidão com que muitas vezes as decisões judiciais são tomadas, a manipulação das decisões judiciais e a concessão de favores ilícitos.
A falta de confiança no sistema de justiça “enfraquece a coesão social e mina o contrato social que sustenta o Estado”.
A corrupção nos tribunais transmitiu a mensagem de que “o acesso à justiça depende do dinheiro e não da lei”.
A justiça, acrescentou, “deixa assim de ser um instrumento de equidade e passa a ser um fator de exclusão”.
(MIRAR)
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