Um crime de extrema crueldade chocou a população da chamada «cidade do Chiveve» na madrugada deste sábado. Um jovem de 34 anos de idade, que exercia a actividade de moto-taxista, foi brutalmente assassinado por indivíduos ainda não identificados na zona de Inhamízua.
O que torna este caso particularmente sinistro é o facto de os criminosos terem utilizado o telemóvel da própria vítima para informar a família sobre o óbito.
Segundo uma reportagem do canal Miramar (PortalFM24), o progenitor da vítima, residente no distrito do Dondo, recebeu uma chamada às 2h41 da madrugada. Do outro lado da linha, vozes desconhecidas perguntaram se ele reconhecia o número. Perante a resposta afirmativa, os malfeitores comunicaram a notícia do crime:
«Senhor, conhece este número? É melhor vir aqui à Cerâmica, porque encontramos o seu filho estatelado. Vasculhámos os bolsos e apanhámos o telefone dele, então ligámos.»
O corpo foi localizado na zona da Cerâmica, apresentando sinais evidentes de violência. No local foram encontrados vestígios de luta corporal e uma maca improvisada feita de sacos com manchas de sangue, o que levanta a suspeita de que o jovem poderá ter sido assassinado noutro ponto e posteriormente transportado para ali.
De acordo com relatos recolhidos no local:
«Na verdade, ele não foi executado aqui. Apenas vieram lançar o corpo neste lugar, porque encontramos indícios de uma maca feita com sacos e manchas de sangue. Tudo indica que a actividade criminosa ocorreu fora daqui e depois carregaram o corpo para este local.»
A vítima era um trabalhador conhecido na zona da Passagem de Nível e tinha-se mudado recentemente para o bairro de Mascarenhas.
Suspeita-se que o jovem possa ter sido atraído para uma emboscada por alguém da sua confiança, tendo em conta o carácter recôndito do local onde o corpo foi abandonado.
Após o homicídio, os criminosos apoderaram-se da motorizada da vítima, que constituía o seu principal instrumento de trabalho.
As autoridades policiais encontram-se já a investigar o caso, com vista à localização e detenção dos autores deste acto bárbaro.
O TOQUE DO TELEFONE NA MADRUGADA
Há despertares que rasgam o tecido da alma de forma irreversível. Na Beira, onde o mar costuma trazer o murmúrio da brisa, a madrugada deste sábado trouxe, em vez disso, o som metálico de um telemóvel. Não era o filho a dizer que chegara bem; eram os carrascos, com uma frieza que desafia a compreensão humana, a anunciar o fim.
O relato deste pai, que no Dondo ouviu a sentença de morte do próprio filho, é o retrato de um tempo em que a vida parece valer menos do que o metal de uma motorizada.
«Como é possível vocês encontrarem uma pessoa estatelada e, mesmo sem me conhecerem, ligarem para o meu número?», questionou o homem, num misto de choque e incredulidade.
A resposta não veio. No silêncio da linha ficou apenas a confirmação da barbárie.
Exercer a actividade de moto-taxista nas nossas cidades tornou-se uma profissão de risco extremo. Estes jovens, que cruzam os bairros de Mascarenhas, Vila Massane e as periferias de Inhamízua, carregam consigo não apenas passageiros, mas o sustento de famílias inteiras e, tragicamente, um alvo nas costas.
A cobiça pela motorizada — o seu meio de trabalho — parece cegar alguns indivíduos para a sacralidade da vida humana.
A existência de uma maca improvisada com sacos ensanguentados e os vestígios de luta indicam que aquele jovem de 34 anos não se entregou sem resistir. Lutou pela vida. Lutou pelo seu pão, enquanto era arrastado na penumbra.
O facto de os assassinos se terem dado ao trabalho de vasculhar os pertences da vítima para ligar ao pai revela um requinte de maldade que não procura apenas o roubo, mas também a humilhação do luto.
É o terrorismo do quotidiano, que nos rouba a paz dentro das nossas próprias casas.
Resta a reflexão sobre aquilo em que nos estamos a tornar. Que sociedade é esta onde o assassino se sente no direito de ser o mensageiro da desgraça que ele próprio causou?
A segurança pública não é apenas uma questão de patrulhamento. É também uma questão de resgate de valores que parecem estar a ser «estatelados» à beira das estradas, entre sacos manchados de sangue e silêncios cúmplices.
Que o clamor deste pai não seja apenas mais um eco perdido no vento da Beira, mas um grito que obrigue a sociedade a reagir contra a impunidade que alimenta estes monstros da madrugada.






