Entre os sinais do mau tempo, a Les Cinq se tornou alvo de uma decisão da Justiça para evitar a transferência de bens relacionados ao Master, e seu CEO enfrenta dívidas, com medida judicial para apreender sua BMW por inadimplência e até fatura de luz atrasada.
Espaço acadêmico Les Cinq Gym – 
Divulgação – 16.mai.2019
Fundada em 2014 com capital social de R$ 100 mil por um grupo de personal trainers que atendiam clientes famosos, a Les Cinq inaugurou um modelo de malhação de luxo no circuito fitness paulistano. O lugar foi montado com decoração opulenta, banheiros que emulam spas e equipamentos de ponta.
Desde a fundação, a academia teve a presença de atores, modelos e influenciadores da moda. As redes sociais mostram fotos de Claudia Raia, Reinaldo Gianecchini, Mariana Ximenes, Izabel Goulart, Jonas Sulzbach, Marina Ruy Barbosa e Gkay no local.
Em 2021, a academia ganhou aporte de R$ 5 milhões de uma empresa ligada a Vorcaro, a Super Empreendimentos.
À frente da Les Cinq está o CEO Rodrigo César São João, um dos fundadores. Ele fez reputação no mundo fitness como um personal trainer de origem pobre, filho de fiéis da Igreja Adventista, que deixou os pais no interior. Venceu um concurso de fisiculturismo e beleza aos 40 anos e lançou um estilo de treinos que batizou de “método Sangion”.
Sangion é a contração de seu sobrenome e virou marca de uma holding com cursos para treinadores físicos e a rede Yon.
São João se apresenta como Rodrigo Sangion e virou também referência de empreendedorismo no mercado fitness: escreve colunas no InfoMoney, site de notícias financeiras da XP, e dá palestras com dicas de superação.
Em entrevista à massagista Renata França no YouTube, ele conta que chegou a passar fome, mas venceu na vida e conseguiu presentear os pais com uma casa em Ribeirão Preto (SP).
Porém, o cenário mudou. Neste ano, após um pedido do liquidante do Master, a Les Cinq entrou em uma lista de bens marcados pela 3ª Vara de Falências de SP com protesto contra a venda das participações da Super. Isso significa que, embora não tenha o banco como sócio direto, na prática, a academia foi reconhecida como propriedade ligada ao caso. O procedimento funciona como um alerta para evitar que alguém adquira a mercadoria.
As finanças de São João também parecem ter se abalado ao longo de 2025, enquanto o império de Vorcaro ruía –desabando em novembro, quando o ex-banqueiro foi preso por 12 dias e o banco, liquidado.
No início do ano passado, São João colocou a casa que dera aos pais como garantia do pagamento de um crédito rotativo aberto no limite de R$ 852,7 mil, segundo dados da matrícula do imóvel.
Em setembro, a Sangion Group, outra empresa de São João, fechou a loja da Yon no shopping Center 3, na avenida Paulista, com quase R$ 200 mil em débitos.
Das 5 lojas da Yon, 4 baixaram as portas nos últimos meses e a última está em processo de fechamento.
A partir de novembro, vieram os protestos por falta de pagamento: R$ 20,9 mil de uma loja de móveis, R$ 38 mil de IPVA de uma BMW e R$ 460 de energia da Enel.
Em dezembro, ele foi alvo de uma medida judicial que determinou a apreensão de sua outra BMW porque parou de pagar o financiamento. Pelas informações do processo, foi feito um acordo.
São João não respondeu aos pedidos de entrevista feitos pela Folha desde 16 de abril por email, WhatsApp, contatos com a academia e sua assessoria de imprensa.
Em 4 de março deste ano, no dia da nova prisão de Vorcaro, também foi preso Zettel, que dizia ser investidor da Yon e da Les Cinq, quando dava entrevistas para revistas de negócios.
O pastor afirmava que o investimento era feito por meio do seu private equity Moriah, que tem marcas como Desinchá e Oakberry. Mas na prática o dinheiro foi injetado via Super.
As defesas de Zettel e Vorcaro não quiseram comentar.
A Super é apontada pelas investigações como uma das empresas usadas para formalizar contratos fraudulentos. Foi a Super quem doou o apartamento de R$ 4,4 milhões para uma sugar baby. Ainda conforme as investigações, a empresa também era usada para fazer pagamentos aos membros da milícia de Vorcaro, incluindo o operador apelidado de Sicário.
UM Folha falou com Wagner Barros, sócio de São João em empresas como a Sangion Group, que diz estar procurando novos investidores.
Ele nega haver crise na Les Cinq e afirma que o faturamento estimado para 2026 é R$ 18 milhões.
Empresários do setor ouvidos pela reportagem consideram frágil o modelo da Les Cinq porque uma fatia dos frequentadores são os chamados VIPs, ou seja, não pagam mensalidade, o que joga dúvidas sobre a capacidade da empresa de se sustentar.
A mensalidade hoje custa até R$ 3.100.
Durante uma palestra online em 2021, uma então diretora da Les Cinq, Luiza Castanho, negou que a academia aceitasse clientes não pagantes. “Nós não temos mais VIP na academia. Não interessa quem seja. As pessoas pagam para treinar. Não tem bolsa nem parceria. A gente realmente ganha dinheiro na Les Cinq”, disse ela na época.
Porém, em uma mensagem de 2022 revelada pelas investigações do caso Master, o empresário Marcelo Cohen, da gigante de turismo Befly, escreve ao ex-banqueiro contando que uma mulher de nome Yasmin estava “no pé” dele, pedindo para entrar na Les Cinq. Vorcaro responde que ela poderia começar no dia seguinte, o que sinaliza algum envolvimento com a academia, embora ele não figurasse como sócio.
Cohen então avisa que seriam “as duas mas [sic] yasmin”, indicando que poderiam ser três pessoas.
Procurado pela FolhaCohen respondeu em nota que nunca frequentou a Les Cinq. Sobre as mensagens, ele disse que não comenta “diálogos cujo conteúdo desconhece e que podem ter sido vazados indevidamente”.
Em outra troca de mensagens, entre Vorcaro e São João, o CEO da academia se oferece para ajudar o então banqueiro a se aproximar de uma mulher. Não fica claro quem é ela. Quando Vorcaro lhe contou que desistiu porque ela estava apaixonada por outra pessoa, São João disse que iria chamá-la para fazer a campanha publicitária da academia, ao que o ex-banqueiro responde: “Fechado, pode já programar”. E São João completa: “Manda buscar ela de jatinho. Recebe ela com um jantar. Aí já era.”
As mensagens de Vorcaro reveladas pela investigação mostram que alguns personagens ligados à Les Cinq também se relacionavam com o ex-banqueiro em outras esferas.
É o caso do designer Kiko Sobrino, responsável pela decoração da Les Cinq. Foi ele quem levou sofás de couro estilo Chesterfield, luzes coloridas e acabamentos em pedras naturais, que dão ao lugar um ar de discoteca misturado com resort de luxo. Ele também decorou o Botanique, luxuoso hotel em Campos do Jordão (SP), do qual Vorcaro foi sócio.
Sobrino parece ter desenvolvido relação descontraída com Vorcaro, enviando mensagens com piadas e fotos de mulheres publicadas no Instagram.
O nome dele também aparece no episódio do aluguel da mansão de Trancoso (BA) onde Vorcaro fez festa com modelos estrangeiras. O evento é alvo de questionamento pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP) no Ministério Público sobre a presença de autoridades e a instrumentalização de mulheres para vantagem política. Para esconder seu nome na realização da festa, o ex-banqueiro colocou Sobrino no contrato de locação da casa.
A reportagem perguntou por que Sobrino assinou a locação em Trancoso. Ele não respondeu.







