CASA DE PAPEL DA VIDA REAL: Polícia frustra plano para roubou de mais de 12 Bilhões MT

A Polícia brasileira desmantelou uma operação criminosa que pretendia subtrair mil milhões de reais(mais de 12 Bilhões MT) dos cofres do Banco do Brasil, em São Paulo, através de um complexo túnel subterrâneo construído ao longo de vários meses.
A investigação revelou uma organização criminosa que utilizava uma estrutura montada entre um pavilhão industrial e uma residência, além de galerias de águas pluviais, para chegar às proximidades do cofre do banco. Os envolvidos chegaram a estar a poucos metros do objectivo quando a polícia decidiu avançar para a operação que culminou com a detenção de 16 suspeitos.
A investigação, conduzida sob sigilo durante meses, revelou um plano que combinava escavação subterrânea, vigilância, técnicas para evitar a detecção de vibrações e uma tentativa de interferir no sistema de videovigilância do banco.
A Kombi que levantou as primeiras suspeitas
O primeiro indício surgiu durante a monitorização de um pavilhão industrial localizado na Zona Norte de São Paulo. Apesar de o complexo financeiro do Banco do Brasil estar a cerca de 30 quilómetros daquele local, os investigadores começaram a observar movimentos considerados suspeitos.
Uma das pistas foi uma viatura Kombi que entrava no pavilhão durante a tarde e permanecia no interior sem que os ocupantes fossem vistos a sair.
Um dos investigadores reparou num detalhe: a viatura entrava com a suspensão elevada e saía visivelmente mais baixa, devido ao peso que transportava.
«Sempre entrava uma Kombi, mas ele percebeu o quê: que a suspensão da Kombi entrava alta e saía baixa… a Kombi saía achatada no chão».
A suspeita confirmou-se: o veículo transportava terra retirada durante as escavações subterrâneas. A partir daí, os investigadores passaram a acompanhar os movimentos da Kombi.
O motorista, contudo, adoptava medidas para perceber se estava a ser seguido.
«O motorista era muito arisco, muito ligeiro, ele ficava o tempo todo a travar e a entrar em ruas para ver se não estava a ser seguido».
Polícia recorre a “seguida inversa”
Para evitar ser descoberta, a polícia adoptou uma técnica conhecida como “seguida inversa”. Em vez de colocar uma viatura directamente atrás do veículo suspeito, os agentes posicionavam-se à frente e acompanhavam o trajecto através do retrovisor.
«A seguida clássica que toda a gente sabe, toda a gente imagina, é seguir o carro que está imediatamente à sua frente. Neste caso, não: nós seguíamos o carro que estava atrás de nós».
Durante mais de três semanas, os investigadores montaram postos de observação nas marginais dos rios Tietê e Pinheiros, acompanhando os movimentos da viatura.
A operação levou finalmente os agentes a uma zona residencial, onde a Kombi entrou numa vivenda.
Inspector usa o próprio cão para localizar a casa
Para identificar a residência sem levantar suspeitas, um dos inspectores decidiu passear pela zona com o seu cão Pitbull.
Durante o passeio, o agente conseguiu observar a Kombi a entrar nos portões de uma vivenda e comunicou à equipa:
«Achámos a casa!»
A partir desse momento, a residência e o pavilhão industrial passaram a ser monitorizados permanentemente.
A polícia instalou câmaras ocultas e criou uma estrutura de vigilância que permitia acompanhar simultaneamente os dois locais. Os investigadores trabalhavam em turnos de duas horas para garantir o acompanhamento contínuo da operação.
A investigação era feita contra o tempo, uma vez que os agentes temiam que os criminosos avançassem para o roubo antes de a operação policial estar concluída.
«Nós sempre trabalhámos contra o relógio e com a hipótese de podermos acordar de manhã com a notícia da imprensa de que o roubo tinha acontecido».
O túnel que ligava a residência ao banco
Inicialmente, a polícia consultou especialistas municipais para perceber se seria possível construir um túnel subterrâneo de centenas de metros até ao banco.
A resposta foi de cepticismo, uma vez que uma escavação directa de 600 metros seria extremamente complexa.
Os criminosos, porém, encontraram uma alternativa.
Em vez de escavarem directamente até ao banco, abriram um túnel de aproximadamente 27 metros a partir da residência, até alcançarem uma galeria municipal de águas pluviais.
A partir daí, utilizaram a própria galeria pública para percorrer mais de 660 metros, até chegarem a uma zona próxima do Banco do Brasil. Depois, abriram um segundo túnel de cerca de 37 metros, em forma de “Z”, que terminava por baixo de uma das caixas fortes.
Um dos inspectores que entrou na galeria municipal descreveu as condições encontradas no local:
«Não dava para entrar. Era escuro, fétido, não havia forma de transitar lá dentro».
Escavação era feita com ferramentas manuais
Apesar da dimensão do plano, a escavação não dependia de equipamentos altamente sofisticados.
Os criminosos utilizavam ferramentas manuais, semelhantes a utensílios de jardinagem, e reforçavam o túnel com estruturas de madeira e bases de ferro.
As condições de trabalho eram difíceis. O espaço subterrâneo apresentava humidade, poeira e presença de insectos, escorpiões e ratazanas.
Os envolvidos utilizavam botas de borracha e roupa impermeável. A chuva constituía um risco adicional, uma vez que a água podia fazer subir rapidamente o nível da galeria e obrigar à interrupção dos trabalhos.
«Se o tempo ficava feio, já tinha de estar alguém do lado de fora para avisar: ‘Pára tudo, guarda as ferramentas’».
Criminosos tentaram evitar sensores do banco
Ao aproximarem-se do cofre, os criminosos tiveram de enfrentar outro obstáculo: os sensores sísmicos instalados no Banco do Brasil, destinados a detectar vibrações no subsolo.
Segundo a investigação, os envolvidos procuraram reduzir as vibrações através de métodos manuais e da utilização de uma massa expansiva aplicada em pequenos furos no betão.
A substância expandia-se gradualmente e contribuía para fragmentar o betão sem provocar as vibrações que poderiam activar os sistemas de segurança.
A investigação revelou ainda uma tentativa de interferência no sistema de videovigilância. Os criminosos teriam conseguido transmitir uma imagem estática da sala do cofre para a central de segurança em Brasília, procurando ocultar qualquer movimentação no local.
Polícia descobre que o túnel já chegara ao cofre
O plano inicial previa que a invasão acontecesse durante o feriado de 7 de Setembro, mas problemas relacionados com a aquisição de equipamentos fizeram com que a operação fosse adiada para 12 de Outubro.
Entretanto, a investigação sofreu outro revés quando um informante que fornecia informações sobre a organização criminosa foi detido por outra divisão policial.
Com o assalto cada vez mais próximo, os investigadores reuniram-se com a administração do complexo financeiro e realizaram uma simulação de inspecção de manutenção.
Durante a verificação, encontraram, debaixo das pilhas de dinheiro, um quadrado recortado no betão de uma das caixas fortes.
Para confirmar se existia efectivamente um espaço subterrâneo por baixo, um funcionário lançou água sobre a abertura. A água desapareceu imediatamente.
«A água caiu todinha. O homem ficou em pânico. Nós chegámos debaixo do cofre. Ali dissemos: acabou o tempo, não há mais nada a fazer».
Polícia invade pavilhão e detém 16 suspeitos
Embora a investigação pudesse beneficiar de uma detenção em flagrante delito, o risco associado ao possível roubo de mil milhões de reais levou as autoridades a anteciparem a intervenção.
Na segunda-feira seguinte, os investigadores detectaram movimentações consideradas anormais no pavilhão da Zona Norte. Vários membros da organização começaram a chegar ao local para uma reunião.
Com o cofre já afectado pela escavação e perante o risco de o roubo acontecer, a polícia iniciou a operação.
Um helicóptero policial descolou do Campo de Marte e chegou ao pavilhão em menos de dois minutos. No solo, as equipas de intervenção entraram no edifício e imobilizaram os suspeitos.
Um dos detidos relatou posteriormente:
«A porta foi estourada e entraram vários polícias e helicópteros. Ouvimos um tiro de advertência para o alto e fomos todos imobilizados e algemados no chão».
No total, 16 pessoas foram detidas no interior do pavilhão. Entre elas estavam Alceu, apontado como líder da organização, Fernando, seu braço direito, e Alex.
A investigação estimava que a organização completa tivesse cerca de 35 integrantes.
Inicialmente, os suspeitos tentaram justificar a presença no pavilhão dizendo que se tinham reunido para jogar futebol.
Túnel confirma ligação dos suspeitos ao plano
Apesar das detenções, a polícia precisava de estabelecer uma ligação entre os suspeitos e a estrutura subterrânea localizada na Zona Sul.
Uma equipa de investigadores entrou na residência que vinha sendo monitorizada e encontrou o imóvel praticamente vazio, com colchões, alimentos armazenados, sujidade e grandes quantidades de terra espalhadas pelos compartimentos.
No interior da residência foi localizada a entrada do túnel.
A descoberta levou os investigadores a contactar a equipa que permanecia com os detidos no pavilhão.
Segundo o delegado Fábio, Fernando reagiu à confirmação da existência do túnel dizendo:
«Quando se falou no túnel, o Fernando desabou, desmontou. Ele olhou para mim e disse: ‘Putz, vocês acharam?’».
Com a descoberta da estrutura subterrânea, os suspeitos deixaram de negar a existência da operação.
Um dos envolvidos chegou a afirmar aos investigadores:
«Se vocês nos tivessem procurado antes, nós deixávamos uma parte para vocês. Afinal, lá no cofre havia dinheiro para toda a gente, e até uma parte para vocês também».
Operação evitou roubo de mil milhões de reais
A investigação terminou com a detenção de dezenas de suspeitos e a descoberta de uma estrutura subterrânea que já tinha alcançado as proximidades do cofre do Banco do Brasil.
O caso expôs a dimensão e a complexidade dos métodos utilizados pela organização criminosa, que combinou escavações subterrâneas, vigilância, técnicas para reduzir vibrações e tentativa de manipulação do sistema de videovigilância.
A intervenção policial impediu que o plano fosse concluído e evitou a concretização de um roubo estimado em mil milhões de reais.
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