Pelo menos 6 mil professores estão altamente endividados na província de Nampula. Muitos enfrentam descontos salariais que deixam pouco dinheiro disponível para sustentar as famílias, enquanto o pagamento das horas extras em atraso continua sem uma data definida.
Professores da província de Nampula estão a recorrer a actividades alternativas, incluindo o serviço de mototáxi, para fazer face às dificuldades financeiras provocadas pelos baixos salários e pelo elevado nível de endividamento.
A situação preocupa a Organização Nacional dos Professores (ONP), que estima que pelo menos 6 mil docentes estejam altamente endividados, segundo um estudo realizado em 180 escolas de 17 dos 23 distritos da província, abrangendo cerca de 8 mil profissionais.
De acordo com a DW África, que cita o secretário provincial da ONP em Nampula, André Jana, muitos professores terminam o mês com recursos insuficientes para garantir o sustento das suas famílias, devido aos descontos bancários sobre os salários.
“Essas dívidas são um pouco complicadas, porque alguns colegas chegam a receber mil meticais apenas”, explicou Jana, sublinhando as dificuldades enfrentadas pelos profissionais que têm famílias para sustentar.
Perante este cenário, alguns docentes estão a abandonar a profissão para procurar oportunidades em estabelecimentos comerciais, onde podem receber 1.500 meticais ou mais. Outros optam pelo transporte de passageiros através de mototáxis, como forma de aumentar os seus rendimentos.
Professor recebe apenas uma pequena parte do salário
Um dos professores ouvidos pela DW, que pediu anonimato, revelou que, apesar de receber um salário mensal de 15 mil meticais, fica com menos de 30 euros disponíveis na conta bancária, depois dos descontos destinados ao pagamento de uma dívida contraída junto de um banco.
Para compensar a redução dos seus rendimentos, o docente passou a trabalhar no transporte de passageiros.
Segundo o professor, a entrada de profissionais da Educação no sector dos mototáxis resulta das dificuldades económicas e da falta de pagamento de valores em atraso pelo Estado, sobretudo os referentes às horas extraordinárias.
A situação evidencia a pressão financeira que afecta parte da classe docente em Nampula, onde o endividamento compromete a capacidade dos professores de responderem às necessidades básicas das suas famílias.
Estado deve mais de 612 milhões de meticais
A ONP estima que a dívida do Estado para com os profissionais da Educação em Nampula ultrapasse os 612 milhões de meticais, acumulados entre 2025 e 2026.
O montante envolve 11.323 funcionários do sector, de acordo com os dados citados pela DW África.
Entre as principais reivindicações dos professores estão o pagamento das horas extras em atraso, a regularização dos valores relativos ao turno e meio, a melhoria dos salários e a criação de condições de trabalho mais adequadas.
O professor Toninho João afirma que os profissionais continuam sem informações concretas sobre a regularização dos pagamentos.
“Até ao momento, não há qualquer documento que fale sobre a regularização de turno e meio e horas extras. Não sabemos o que está a acontecer”, lamentou.
Sindicato denuncia alegada pressão sobre professores
A Associação Nacional do Professor (ANAPRO), através do seu vice-secretário provincial em Nampula, Belito Mualana, acusa o Governo de não demonstrar interesse suficiente na liquidação das dívidas com os profissionais da Educação.
Mualana afirma ainda que os professores que reivindicam os seus direitos enfrentam alegadas medidas de pressão, incluindo transferências para zonas distantes.
O representante recordou que, durante a tomada de posse do actual Presidente da República, Daniel Chapo, teria sido garantido que os fundos necessários para o pagamento das dívidas já estavam nas contas das Finanças das províncias.
Apesar dessa garantia, os professores continuam à espera da regularização dos valores em atraso.
Governo reconhece dificuldades e promete pagar
O secretário de Estado na província de Nampula, Fernando Bemane, reconhece as dificuldades enfrentadas pelo Estado para liquidar as dívidas com os profissionais da Educação.
O governante assegura que os pagamentos serão efectuados, mas não avançou uma data concreta para a regularização dos valores em atraso.
Enquanto os professores aguardam pelo pagamento, Bemane apela ao diálogo entre os profissionais e o Governo, defendendo que as reivindicações devem ser tratadas através de mecanismos de entendimento.
“A vossa missão não é fazer greve, não é manifestação contra o Estado. Tem de haver diálogo entre os professores e o Governo”, declarou.
Entretanto, a falta de uma data definida para a liquidação das dívidas mantém a incerteza entre os docentes, alguns dos quais procuram alternativas de sobrevivência fora das salas de aulas.
Fonte original: DW África — Nampula: Professores recorrem a serviço de mototáxi para fazer face a despesas.


