Estudos refutam tese de Luciano Huck sobre 'dependência eterna' no Bolsa Família

Estudos refutam tese de Luciano Huck sobre dependência eterna no Bolsa Família


As críticas do apresentador Luciano Huck ao Bolsa Família no sábado (23), durante evento do Esfera Brasil, reacenderam um debate antigo sobre a eficiência de programas de transferência de renda.

“O prefeito da cidade de Senhor do Bonfim [BA] tem 56% da sua economia no Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que as famílias queiram sair do Bolsa Família”, afirmou o apresentador.

“Na verdade, elas criam atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda, de proteção social, ad eternum [eternamente]. A gente precisa criar um estímulo. Como é que você motiva a família que precisa, necessita do Bolsa Família, a ter vontade de querer sair desse programa?”

A dita dependência “eterna”, porém, não encontra respaldo em estudos sobre o programa.

Estudos refutam tese de Luciano Huck sobre 'dependência eterna' no Bolsa Família

Aplicativo do programa Bolsa Família

Gabriel Cabral – 05.out.23/Folhapress

Uma pesquisa da FGV apontou que 60,68% dos beneficiários de 2014 deixaram o programa até 2025. O levantamento, intitulado “Filhos do Bolsa Família: Uma Análise da Última Década do Programa”, usou dados do governo federal e acompanhou famílias inscritas no CadÚnico (Cadastro Único dos Benefícios Sociais, destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade social) para mapear os efeitos da assistência sobre as gerações mais novas.

Entre adolescentes beneficiados que tinham de 15 a 17 anos em 2014, 71,25% deixaram o programa; entre crianças de 11 a 14 anos, 68,8%. Em números absolutos, a primeira faixa representa 3 milhões de jovens em um universo de 4,2 milhões. Os 68,8% entre 11 e 14 anos representam 4,05 milhões de 5,8 milhões.

A saída é favorecida quando a pessoa de referência da família —pai, mãe ou avós— tem carteira assinada, chegando a 79,4%. Quando são trabalhadores por conta própria, a taxa de saída é de 65,64%; informais e sem remuneração, 57,51% e 52,35%, respectivamente.

O mesmo estudo ainda apontou que inscritos no CadÚnico saíram do cadastro quando ingressaram no mercado de trabalho formal. Na faixa de 15 a 17 anos, dos 52% que deixaram o CadÚnico, 28% têm carteira assinada. Na faixa de 11 a 14 anos, os percentuais são de 47% e 19%, respectivamente.

Além disso, outro levantamento da FGV, desta vez feito em parceria com as universidades norte-americanas de Stanford e Columbia, apontou que a reforma de 2012 do Bolsa Família –que criou o Benefício de Superação da Extrema Pobreza– aumentou a taxa de ocupação entre beneficiários do programa em 5%.

“Em contextos onde as famílias são limitadas por necessidades básicas, as transferências podem funcionar como investimentos que aumentam a produtividade, em vez de pura redistribuição”, afirmam os pesquisadores Michael C. Best, Felipe Lobel e Valdemar Pinho Neto.

Em outro estudo, desta vez do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), pesquisadores mapearam um fenômeno chamado “fuga da precariedade”. Conduzido por Ricardo Campante e Fábio Soares, o levantamento tem como recorte o período de transição do valor da transferência de renda de R$ 400, do antigo Auxílio Brasil, para R$ 600 do Bolsa Família, entre o início da pandemia e o primeiro semestre de 2023.

Os resultados apontaram redução de até 4,7 pontos percentuais na participação na força de trabalho entre os beneficiários nesse recorte.

A análise, porém, é de que a evasão se concentrou em indivíduos que ocupavam postos de trabalho precários e informais, com predominância de mulheres com responsabilidades de cuidado.

“Os achados sugerem que o aumento do benefício permitiu a saída de ocupações de baixa qualidade e dos desalentados, e não gerou um desincentivo generalizado ao trabalho e à formalidade”, afirmam os pesquisadores.

Ainda assim, membros do governo Lula (PT) ha reconheceram a necessidade de redesenhar programas de assistência social diante da pressão por ajuste fiscal e da sustentabilidade das despesas obrigatórias no médio e longo prazos.

Então ministro da Fazenda e agora pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT) defendeu em fevereiro deste ano uma reformulação estrutural dos gastos sociais do governo federal, incluindo o Bolsa Família, ao afirmar que o país pode estar diante da necessidade de uma “nova arquitetura” para as políticas de assistência e transferência de renda.

Ele traçou um paralelo com o início do primeiro mandato de Lula, em 2003, quando programas sociais fragmentados foram unificados no Bolsa Família. Segundo ele, o atual patamar de gastos com Previdência e assistência social exige reflexão semelhante, e uma alternativa ao atual desenho, marcado por multiplicidade de benefícios, seria um programa de renda básica.

Para Haddad, esse modelo pode ser mais racional do ponto de vista orçamentário e administrativo.

As críticas ao atual desenho do Bolsa Família também encontram coro entre agentes do mercado, que afirmam que o governo “gasta muito e gasta mal”.

O debate, aventado nas redes sociais, gerou uma repercussão negativa para o apresentador Luciano Huck, que foi a público para afirmar que sua fala foi tirada de contexto.

“Tive uma fala num evento fechado, fora do Domingão, fora das minhas redes sociais, não era entrevista que eu dei. E um trecho dessa fala acabou circulando meio fora de contexto. Tem alguns cortes que dão a entender que eu seria contra programas de proteção social. Isso não é verdade. Sou a favor de políticas de proteção social, que ajudam milhões e milhões de brasileiros”, disse.

“Proteção social é fundamental, mas ela precisa caminhar junto com educação de qualidade, com geração de oportunidade, com direito de escolha. O objetivo é apoiar quem precisa hoje, mas também criar caminhos para que essas famílias possam ter autonomia no futuro.”

Ele sugeriu associar o uso da tecnologia de inteligência artificial para “individualizar os programas” e torná-los mais eficientes.

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