É treinador e diretor-desportivo ao mesmo tempo: «Casei com esta ideia»

É treinador e diretor-desportivo ao mesmo tempo: Casei com esta ideia


O Vitória de Setúbal está de volta aos campeonatos nacionais, depois de dois anos lutando, nos distritais, para não cair (de vez) no esquecimento. Essa queda dos vitorianos para o patamar mais baixo possível foi, todavia, estrondosa e bem audível no panorama nacional e, por isso, o som do vazio deixado por este histórico – fundado em 1910 e com 72 participações na Liga – não deixou ninguém indiferente, continuando, então, a ecoar pelos corredores da elite do futebol português.

Porém, a esperança, na foz do rio Sado, é de que esse, que é um dos mais emblemáticos escudos da cidade, possa voltar «aonde pertence» – e, de preferência, o mais depressa possível. «O Vitória não é dessa realidade, é de um mundo muito alto. Somos um clube grande e, por isso, temos de estar junto de clubes do seu tamanho», diz Filipe Moreira, treinador e diretor desportivo dos sadinos, contratado no início desta temporada, para (se possível) lograr a terceira subida consecutiva do clube, que, nos últimos dois anos, já subiu da segunda distrital da AF Setúbal para a primeira (2024/25) e, depois, da primeira para o Campeonato de Portugal (2025/26).
«O que me pediram foi simples: voltar a levar o Vitória aos grandes palcos. O clube merece isso e quem o treina, em que divisão for, só tem um princípio, que é ganhar», sublinha, em entrevista BOLAalertando, ainda assim, que a concorrência da Série 4 vai ser forte. «Há clubes que parece que vivem no mundo do petróleo, mas nós, pela grandeza do clube, iremos sempre lutar com a máxima ambição para subir de divisão, tendo, claro, de ter o máximo de equilíbrio noutras decisões», acrescenta.
As «decisões» de que o timoneiro, de 62 anos, fala são as financeiras. E, sobre essas, neste ano ele também vai ter mão, já que é diretor esportivo. «A possibilidade de ser treinador e diretor esportivo ao mesmo tempo surgiu de uma forma prática, proposta pelo presidente e eu aceitei. Como foi tudo muito em cima da hora, pensou-se: ‘por que não?’ Tendo em conta o conhecimento que tenho dessas divisões e por conhecer muita gente», revela. No fundo, como diz o povo, matam-se dois coelhos duma cajadada só. «De outra forma, tinha que contratar um diretor esportivo, que poderia depois não ser o que idealizamos. Então, vou sempre numa direção, ouvindo, igualmente, muita gente. Tenho uma comissão técnica, assim como o Team Manager, que fala com os jogadores, quando necessário», explica.

Essa forma de ser difere da que encontrou na primeira passagem – «o tempo foi curto, oito jogos no fim da Liga 3 [2021/22]em que conseguimos ir à fase final, mas falhámos a subida de divisão, com muita angústia» – e espera, agora, que, «com mais tempo», lhe permita trabalhar (melhor) à sua maneira, numa «situação» que confessa considerar «normal e não normal», ao mesmo tempo. Apesar de reconhecer que não é a estrutura mais comum, garante que «está a ser algo natural e simples», no Bonfim. Além disso, considera que «o importante é as pessoas saberem estar» e estarem cientes de que «ninguém é maior do que o Vitória».
Se, por um lado, tem agora um trabalho mais exigente – «volto para casa esgotado» -, por outro, o técnico também chega ao fim do dia «mais feliz» e com sentimento de que foi mais produtivo: «Em muitos clubes em que trabalhei, estava dentro do processo, mas não tinha a decisão final na vertente financeira. Às vezes, o treinador fica condicionado, porque não decide.»
«Tenho o desejo de construir a casa de baixo para poder fazer a diferença. Dá muito trabalho? Dá, mas tem sido um desafio louco, no bom sentido», aponta, com alegria, antes de dizer que, «às vezes, as coisas se complicam e aí fica tudo muito difícil». «Aqui, não complicamos o que não existe, todo o processo está muito bem definido, mas só acontece porque as pessoas confiaram em mim e só tenho a agradecer por poder trabalhar em um grande clube português», completa.


Filipe Moreira começou a carreira de treinador em 1984/85, no Ericeirense. Passou, entretanto, por clube da Liga 2, como Santa Clara, Académico de Viseu ou Vilafranquense


«Levei a vacina do Vitória de Setúbal e senti a dor»

Filipe Moreira é treinador há 42 anos, mas este projeto é diferente: «Já estive apaixonado em muitos sítios, mas apaixonei-me e casei completamente com esta ideia.»
Após a primeira passagem pelo clube, o novo homem do leme vitoriano sabia que algo havia ficado por fazer. Volta agora, para renovar o «carimbo», mas buscando retribuir com sua marca: «Quem passa por aqui fica marcado, como se tivesse recebido um carimbo ou sido vacinado. A partir daí, você sofre pela vida do clube. Nessa vacina senti a dor e por isso é que a primeira coisa que fiz quando cheguei foi falar com os jogadores que ficaram da temporada anterior e aumentá-los, numa prova de gratidão e valorização daquilo que deram ao Vitória num período difícil.»
O experiente treinador quer que os seus jogadores estejam «à altura da paixão de quem vive» o Vitória: «Sofrem, lutam, choram…»


Diogo Martins e Pedro Catarino, depois de Rebelo e José Torres

Foram vários os nomes emblemáticos do futebol nacional, como Jacinto João, Carlos Cardoso ou Hélio Sousa, que, em tempos, elevaram o nome do Vitória à eternidade. Num passado mais recente, Sandro, Meyong e Zequinha também inscreveram a assinatura, na lista dos sadinos notáveis.
Agora, e embora longe dos holofotes das ligas profissionais, há outros jogadores a destacar: Diogo Martins e Pedro Catarino são os ilustres do novo Vitória. Em junho de 2024, estiveram presentes na final do Campeonato Português que os sadinos perderam (0-3) para o Amarante.


Diogo Martins, 25, já esteve no pior e agora quer estar no melhor do seu clube do coração – Foto: Vitória de Setúbal

Ainda assim, e após aquela temporada (2023/24) em que, dentro de campo, conseguiram a subida à Liga 3, o lateral-direito e o centroavante – posições, em outros tempos, ocupadas por Rebelo e José Torres, respectivamente -, foram relegados, pela secretaria, às distritais.


Pedro Catarino, 26 anos, assim como Diogo Martins viveu esse ‘sobe e desce’ dos sadinos – Foto: Vitória de Setúbal

Os jovens sadinos (o defesa tem 25 anos e o atacante 26) decidiram não abandonar o clube, lograram duas subidas seguidas e devolveram o clube aos nacionais, fazendo, nesta época, parte do plantel de Filipe Moreira.


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