Na noite de 24 de Abril de 1974, às 22h55, os Emissores Associados de Lisboa puseram no ar uma canção de amor. “E depois do adeus”, de José Niza e José Calvário, na voz de Paulo de Carvalho, falava do fim de uma relação. Nessa noite serviu para outra coisa: era a primeira senha para que as tropas avançassem. Uma canção sobre uma perda ficou para sempre ligada a um começo. Uma espécie de“lição sobre despedidas”: o adeus só ganha sentido com o que se faz depois dele.
Cristiano Ronaldo anunciou a 5 de Novembro que deixa a Selecção Nacional. Aos 41 anos, com 234 jogos e 146 golos, recordista mundial de internacionalizações e de golos por selecções, escolheu fazê-lo num vídeo nas redes sociais, na véspera de Jorge Jesus divulgar a convocatória. Em Agosto escrevi aqui que estávamos todos a ensaiar uma despedida. Em Outubro, depois de Copenhaga, que esta era uma despedida que ninguém ensaiou. O ensaio acabou.
O fim não foi a festa que se imaginava. Ao banco na Noruega, à saída do estágio em Copenhaga e ao comunicado de oito páginas, juntou-se uma suspensão de 30 dias aplicada pelo Conselho de Disciplina da Federação. Não faltou quem procurasse um culpado – no capitão ou no seleccionador -, nas bancadas e nos comentários das redes sociais, como fazemos sempre que perdemos alguma coisa. O último jogo foi a 24 de Setembro, contra o País de Gales, sem que ninguém soubesse que era o último. Bruno Fernandes tinha pedido que, se fosse para sair, fosse num dia de festa. Não foi.
Não o conheço do consultório e não me cabe ler-lhe a alma. Mas a Psicanálise tem coisas a dizer sobre o que acontece a quem perde um lugar. Freud, em “Luto e Melancolia” (1917), a que recorri em Agosto, lembra que o luto não se faz apenas pela perda de uma pessoa amada, mas também pela perda de uma abstracção que ocupou esse lugar: a pátria, a liberdade, um ideal. A camisola 7 foi, durante 23 anos, um desses lugares. Para ele e para nós. Muitos adeptos sentirão hoje uma tristeza que, vista de fora, pode parecer desproporcionada. Mas com ele vai-se também um pedaço da nossa própria história: o sítio onde estávamos naquela noite de 2016, as pessoas que abraçámos. Choramos o jogador e choramos o tempo que vivemos com ele.
O luto implica trabalho. Precisa de tempo e precisa de forma. Os rituais de despedida existem para dar sentido e suporte a uma perda que, sem eles, fica a doer em bruto. Aqui, o acto veio antes da palavra: primeiro a saída, depois as explicações. O vídeo de despedida parece ser a tentativa de dar ao fim a forma simbólica que o relvado lhe negou. É um texto que agradece, que nomeia os que nunca aparecem nas fotografias, que admite falhas. Num homem cuja imagem pública se construiu sobre a recusa do fracasso, reconhecer que também falhou diz algo.
Há ainda uma frase que merece atenção. Diz que passou a vida a trabalhar para ser o melhor do mundo e que hoje percebe que a maior vitória foi ter merecido representar o país. É uma deslocação subtil. Ser o melhor depende de vencer os outros; merecer um lugar depende de pertencer a algo maior do que nós. Se esta frase for mais do que retórica, aponta para o caminho que o espera.
Que desafios são esses? O primeiro é que este adeus é parcial. Continua a jogar no Al Nassr e o fim definitivo da carreira ainda está por vir. Este foi o primeiro de dois adeuses, e o segundo será mais difícil, porque leva consigo o próprio corpo de atleta. Aos 41 anos, o corpo já não responde como respondia aos 25. O risco é que o clube se transforme no palco onde se tenta provar o que a Selecção já não deixa provar, e que a perseguição de números substitua o trabalho de pensar o fim. Freud, em “Recordar, repetir e elaborar” (1914), mostrou que aquilo que não se consegue elaborar tende a voltar sob a forma de repetição, em acto. Vale a pena lembrar que a saída do Manchester United, em 2022, também se fez em ruptura com o treinador. Resta saber se este fim será elaborado, ou se será repetido, outra vez…
O segundo desafio é encontrar vida para lá do rendimento. Winnicott, que em Outubro me ajudou a pensar o desencanto, escreveu também que é no brincar que a criança e o adulto podem ser criativos. Viver criativamente é o que faz sentir que a vida vale a pena ser vivida. Num excerto que a Netflix pôs a circular, ouve-se a sua mulher a dizer-lhe: “Cris, já tens tudo.” Que frase difícil de ouvir, para quem passou a vida a querer mais! Para a Psicanálise, o desejo não se esgota naquilo que se alcança, e o desafio de quem já ganhou quase tudo é descobrir o que ainda lhe falta, sem o ir procurar num marcador. A mensagem termina com um menino na Madeira a correr atrás de uma bola. Esse menino brincava. O desafio do homem será reencontrar um campo, dentro ou fora do futebol, onde possa voltar a brincar sem ter de provar nada a ninguém.
O terceiro desafio é nosso. Piera Aulagnier chamou contrato narcísico ao laço que une cada sujeito ao conjunto a que pertence: o grupo investe-o e reserva-lhe um lugar, e ele retoma como seus os enunciados que fundam o grupo, assegurando a sua continuidade. Kaës alargou a ideia aos grupos e às instituições. Durante 23 anos, Ronaldo carregou boa parte desse investimento. Agora devolve a camisola e diz que um país que continua a criar novos heróis nunca deixa de acreditar em si próprio. Bion descreveu os grupos que funcionam como se estivessem reunidos para ser sustentados por um líder do qual tudo depende. Uma selecção, e um país, que viveram durante duas décadas apoiados num só homem têm agora de aprender a pensar sem ele. Sem o substituir à pressa por outro salvador.
Ninguém sabia, em 1974, o que vinha depois do adeus. Veio uma coisa nova, que teve de ser construída. Com Ronaldo passa-se o mesmo. Depois do adeus fica uma falta, para ele e para nós. Escrevi aqui, a propósito de Kyrgios, que a falta dói mas abre caminho ao desejo, enquanto o vazio só pede para ser preenchido. O que cada um fizer com esta falta, pensá-la ou tapá-la, dirá mais sobre o futuro do que todos os recordes juntos.

