Opinião

Queda da Ponte do Revué após Investimento de 15 Milhões: Augusto Pelembe exige detenção de Empreiteiros e denuncia “roubalheira”

A recente queda da ponte sobre o rio Revué, escassos três dias após ser reaberta ao tráfego na sequência de uma empreitada de reabilitação orçada em 15 milhões de meticais, gerou uma vaga de forte indignação. Em declarações prestadas no programa transmitido pelo canal TV Sucesso, o interveniente Augusto Pelembe classificou a situação como “o reflexo daquilo que tem sido a governação deste país”, que definiu abertamente como “um descalabro”.

O posicionamento alinha-se com as denúncias apresentadas pela bancada parlamentar do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), que contestou a qualidade da obra e a gestão dos fundos públicos.

Ausência de Fiscalização e Dinheiro público “Sem Dono”

Durante a sua intervenção, Pelembe criticou severamente a atuação das entidades reguladoras e governamentais, nomeadamente os técnicos da Administração Nacional de Estradas (ANE) e do Ministério dos Transportes, acusando-os de não terem procedido à devida fiscalização antes de autorizarem a circulação de veículos pesados.

“Não faz sentido (…) o dinheiro público não tem dono, é o que eu acho que os nossos governantes pensam. Olhar para os 15 milhões, olhar para uma reabilitação de uma ponte que não dura 3 dias, não passa na cabeça de ninguém que foi investido 15 milhões e ninguém dos técnicos da ANE ou do governo do Ministério dos Transportes foi lá fiscalizar para perceber se já podia ser usada aquela ponte”, afirmou Pelembe.

O comentador reforçou ainda que “foram investidos 15 milhões e ninguém se preocupou em fiscalizar”, acrescentando que “não podemos deixar de pensar nos 15 milhões que foram jogados no lixo enquanto as pessoas comeram e estão a viver com carros de luxo uma vida boa”.

Graves Impactos Socioeconómicos para as Populações

O desabamento da infraestrutura cortou a circulação rodoviária na região, provocando severos prejuízos sociais e económicos. Pelembe alertou para o drama humanitário de quem precisa de atravessar a via para aceder a cuidados médicos urgentes e para as perdas financeiras impostas às pequenas e médias empresas e aos produtores locais.

“Imaginem que alguém precise de um médico, de atravessar ali para ir ao hospital, vai perder a vida porque não vai atravessar. Vamos pensar naquele empresário que foi govar a cebola e a cebola vai apodrecer ali porque não vai atravessar. Quem vai suportar esses todos prejuízos?”, questionou.

“Já Não É Corrupção, É Roubalheira”: Apelo à Intervenção da PGR e SERNIC

Para Pelembe, os episódios repetidos de alegada má gestão do erário público — entre os quais citou também irregularidades reportadas no Hospital Central, no INSS e na compra de viaturas pelo Conselho Constitucional (onde uma viatura cotada a 5,5 milhões de meticais terá sido adquirida por 18 milhões) — demonstram que o problema ultrapassou a corrupção administrativa.

“Isso já não é corrupção, é roubalheira! Nós estamos a ter dirigentes ladrões que roubam (…) alguém tem que pôr a mão no guiso, tem que ir prender esses senhores”, defendeu categoricamente.

Pelembe sustentou que a Procuradoria-Geral da República (PGR), a Brigada Anticorrupção e o SERNIC devem agir de imediato com responsabilização criminal dos envolvidos.

Detenção Imediata de Empreiteiros e o Exemplo da Turquia

Aprofundando os detalhes técnicos da derrocada, foi citada uma publicação do analista Nádio Jaim Taíbo, indicando que a Ponte do Rio Revué tinha sido reaberta há menos de uma semana com capacidade autorizada para cargas de até 80 toneladas, mas acabou por ruir com a passagem de um camião com carga substancialmente inferior (estimada entre 14 e 22 toneladas).

Diante deste cenário, Pelembe defendeu a detenção imediata dos empreiteiros responsáveis pela obra, estabelecendo um paralelo com a atuação das autoridades turcas após o sismo naquele país.

“O presidente Erdogan colocou aqueles todos empreiteiros na cadeia. Os empreiteiros ali deviam ser presos na mesma hora! Não há conversa fiada aqui. Vamos olhar para o histórico desses empreiteiros, que é o de sempre: comer o erário público e nada lhes acontecer”, declarou.

O Contraste com as Obras do Período Colonial

A terminar a sua reflexão, Pelembe estabeleceu uma comparação entre a fragilidade das obras públicas recentes e a durabilidade das infraestruturas edificadas antes da independência.

“Se já bateste a Estrada Nacional Número 1 (N1), há várias pontes do tempo colonial que até hoje estão em pé, estão a resistir. Agora estas pontes que estamos a construir, que não conseguem nem durar 3 dias, o que é que nós queremos deste país? (…) O colono fez pontes que até hoje estão aqui, a maioria dos prédios na capital foram construídos pelo colono e estão a resistir. Agora nós, moçambicanos, o que estamos a construir para nós não conseguimos construir com duração de 50 ou 100 anos”, concluiu.

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