81.ª ASSEMBLEIA GERAL DA ONU: Lula da Silva denuncia falência da diplomacia mundial e exige reforma urgente do Conselho de Segurança
Discursando na abertura do Debate Geral em Nova Iorque, o estadista brasileiro criticou o direito de veto das grandes potências, alertou para o genocídio em Gaza e o arrastar da guerra na Ucrânia, e defendeu a regulação das gigantes tecnológicas e a justiça social no Sul Global.
O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, abriu na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, o Debate Geral da 81.ª Assembleia Geral da ONU com um pronunciamento marcado por profundas críticas ao imobilismo do Conselho de Segurança e à perda de credibilidade da instituição perante o recrudescimento de conflitos armados no mundo.
Naquela que representou a sua décima intervenção de abertura na tribuna da organização desde 2003, o governante brasileiro classificou a actual conjuntura internacional como o momento mais crítico vivido pelas Nações Unidas.
Paralisia do Conselho de Segurança e corrida armamentista
No seu discurso, o estadista brasileiro manifestou indignação perante a incapacidade da ONU em cumprir a sua missão primordial de evitar guerras e proteger as populações vulneráveis.
Lula da Silva classificou o direito de veto concedido às potências como um “vício de origem” da Carta da ONU que conferiu aos países mais poderosos o “privilégio da insensatez”.
O chefe de Estado destacou que o ano de 2025 registou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial, criticando o gasto de biliões de dólares numa nova corrida armamentista enquanto a diplomacia é preterida.
Diante dessa crise de liderança, apelou a que as decisões vitais não sejam cedidas à “lei do mais forte”, reafirmando que a guerra representa a falência total da política.
Conflitos em Gaza, Ucrânia e soberania na América Latina
Ao abordar as crises geopolíticas, Lula da Silva denunciou as acções militares do Governo israelita em Gaza, qualificando-as como um genocídio contra mulheres e crianças civis, ao mesmo tempo que condenou os actos terroristas praticados pelo Hamas.
Alertou que a expansão de assentamentos ilegais na Cisjordânia inviabiliza a solução de dois Estados e sublinhou o impacto económico global do conflito, que encareceu combustíveis, fertilizantes e alimentos em todo o mundo devido à volatilidade no Estreito de Ormuz.
Relativamente ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia, que se arrasta há cinco anos, o Presidente brasileiro enfatizou que não haverá vencedores no campo de batalha, promovendo a diplomacia e destacando a iniciativa do “Grupo de Amigos da Paz”, criado conjuntamente pelo Brasil e pela China.
No contexto sul-americano, o governante foi peremptório ao declarar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, rejeitando pretensões hegemónicas ou ingerências externas.
Defendeu a autodeterminação do povo venezuelano, condenou a interdição da oposição nas eleições na Nicarágua, criticou a indiferença internacional perante a crise no Haiti e exigiu o fim do embargo económico e energético imposto a Cuba.
Combate ao crime organizado e cooperação transfronteiriça
No domínio da segurança pública, o estadista frisou que o Brasil está a enfrentar o crime organizado em todos os escalões, destacando a promulgação da nova lei antifacção, com penas superiores às aplicadas ao terrorismo.
Lula da Silva informou sobre a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazónia, sediado em Manaus e que reúne as autoridades de segurança dos nove países amazónicos.
Revelou ainda ter apresentado uma proposta directa à presidência dos Estados Unidos para travar o fluxo ilícito de armas e estancar a lavagem de dinheiro de criminosos no exterior.
Regulação digital e denúncia dos “tecno-oligarcas”
Um dos pontos de maior destaque na intervenção centrou-se na transição digital e na inteligência artificial.
O governante brasileiro alertou contra a tentativa de um punhado de “tecno-oligarcas” de impor um neoliberalismo digital sem regras nem transparência ética, à revelia das recomendações da ONU.
Lula da Silva destacou a aprovação, no Brasil, de legislação rigorosa para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital, condenou o endividamento familiar provocado pela indústria desregulada de apostas virtuais e garantiu que o seu Governo não cederá a pressões de multinacionais que tentem privatizar a plataforma pública de pagamentos PIX.
Transição energética, trabalho e compromisso democrático
Na pauta ambiental, o Presidente brasileiro reafirmou a autoridade moral do país no combate às alterações climáticas, sublinhando que a desflorestação na Amazónia caiu para metade, atingindo o nível mais baixo dos últimos 11 anos.
Destacou o lançamento do fundo Florestas Tropicais Para Sempre na COP30, em Belém, e reiterou que o acesso aos minerais críticos e terras raras do Brasil exigirá como contrapartida a industrialização local e a transferência de tecnologia.
No plano laboral e social, o chefe de Estado defendeu o fim da escala de trabalho 6×1 no país, garantindo ao trabalhador dois dias de descanso semanal para aliviar a sobrecarga sobre as mulheres e combater o feminicídio.
A finalizar o discurso, referindo-se às eleições de 4 de Outubro no Brasil, Lula da Silva assegurou que o pleito será transparente e que as instituições democráticas nacionais saberão responder aos desafios da desinformação e às investidas de inimigos internos e externos da soberania popular.