Xenofobia reduz procura de passaportes em Inhambane

O recrudescimento dos ataques xenófobos na África do Sul está a provocar uma redução significativa na procura de passaportes na província de Inhambane. Apesar de a migração laboral para o país vizinho continuar a representar uma esperança para milhares de moçambicanos, o receio da violência levou muitos a adiar os seus planos de viagem.

Dados do Serviço Provincial de Migração de Inhambane indicam que os pedidos diários de emissão de passaportes caíram mais de 50 por cento. Entre Janeiro e Maio de 2026, a instituição processava, em média, 400 pedidos por dia. Em Junho, esse número desceu para apenas 170.

A diminuição ocorre numa altura em que a África do Sul volta a registar episódios de violência contra cidadãos estrangeiros, incluindo moçambicanos, alimentando o receio de novos ataques.

Xenofobia continua a marcar migração moçambicana

A África do Sul permanece, há várias décadas, como o principal destino da migração laboral moçambicana. Desde o período do trabalho migratório nas minas sul-africanas, milhares de cidadãos atravessam a fronteira em busca de emprego e melhores condições de vida, fenómeno impulsionado pelas dificuldades económicas e pela escassez de oportunidades no mercado nacional.

Contudo, esta mobilidade tem sido frequentemente afectada por surtos de xenofobia. Os episódios de violência contra estrangeiros repetem-se desde pelo menos 2008, voltando a verificar-se em 2015, 2019 e em diferentes momentos dos anos seguintes. Em cada vaga de ataques, centenas de moçambicanos foram obrigados a regressar ao país, abandonando empregos, habitações e bens acumulados ao longo de vários anos.

Mesmo perante este histórico, a procura de oportunidades na maior economia da África Austral nunca desapareceu completamente, demonstrando que, para muitas famílias, a necessidade de garantir rendimento continua a sobrepor-se ao risco.

Emprego continua a ser principal motivação

Apesar do clima de insegurança, há quem mantenha o projecto de emigrar. Felisberto Cumbana, que trata o passaporte pela primeira vez, afirmou à STV Notícias que pretende viajar para a África do Sul em busca de trabalho.

“O meu destino é viajar… vou para África do Sul, vou à procura de job… não tenho medo disso.”

As autoridades migratórias explicam, contudo, que muitos cidadãos optam por solicitar o passaporte apenas para o terem disponível, aguardando que a situação de segurança melhore antes de atravessar a fronteira.

Cerca de 200 moçambicanos regressaram

O receio não é infundado. Desde o recrudescimento dos ataques xenófobos, aproximadamente 200 moçambicanos regressaram à província de Inhambane, depois de terem abandonado as suas actividades na África do Sul por questões de segurança.

Segundo o Serviço Provincial de Migração, este movimento de retorno contribuiu para a redução da procura de documentos de viagem, reflectindo a incerteza que afecta potenciais emigrantes.

Dilema entre segurança e sobrevivência

A queda na emissão de passaportes não significa, necessariamente, menor interesse em emigrar. Pelo contrário, as autoridades consideram que muitos cidadãos apenas adiaram os seus planos, aguardando um ambiente mais seguro no país vizinho.

Enquanto persistirem os episódios de xenofobia, milhares de moçambicanos continuarão divididos entre o risco de enfrentar a violência na África do Sul e a necessidade de procurar emprego para sustentar as suas famílias.

Fonte: STV Notícias.


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