«O clube não vai morrer», «o tribunal bateu o martelo, mas não bateu o nosso espírito», «faremos um novo caminho, com a mesma dignidade» – afirmam, ao nosso jornal, Bruno Cardoso, José Oliveira e António Martins, respectivamente, presidente (da recém-eleita Comissão Administrativa), ex-glória e sócio do referido emblema de Vila Nova de Gaia.
Decidimos começar a relatar o momento desse histórico, fundado em 1914, pela positividade, porque – nos garante o dirigente máximo – «o Vilanovense tem futuro», mesmo que tenha acabado de ficar sem-teto.
Bruno Cardoso tem um desígnio: salvar o seu Vilanovense – Foto: Vilanovense
Os rubro-negros entregaram as chaves e se despediram, na semana passada, do mítico Parque de Jogos Soares dos Reis – que era sua casa desde 1923 -, por ordem de despejo da Justiça, resultado de um processo que se arrastava há muito tempo.
«Na década de 90, o Vilanovense deu um sinal de 10 mil contos [50 mil euros]para um contrato de promessa e venda de 50% do terreno. O intuito era comprar a outra parcela, depois, e ficar com todo o Parque, evitando chateações futuras – explica Bruno Cardoso. Contudo, houve um erro fatal no procedimento e a chatice chegou mesmo, no início da década passada: «A escritura do acordo nunca foi feita e os donos do terreno puseram uma ação em tribunal.»
O clube viu, então, devolvidos os 50 mil euros, mas a continuidade no Soares dos Reis estava sempre dependente de outrém. «Depois, a direção da época fez um contrato de aluguel. Há um ano, o clube não renovou, porque não tinha tanto dinheiro para pagar o aluguel. Sem acordo, em abril deste ano, houve uma ordem de despejo», que, como explica o presidente da nova Comissão Administrativa (eleita no início deste mês, propondo-se a salvar a instituição esportiva), ditou a saída daquela que era a residência há 103 anos.
Os vilanovenses fizeram de questão de permanecer em sua ‘casa’ até ao último momento – Foto: Vilanovense
Soares dos Reis dava vida a tudo
Localizado no coração de Gaia, o Parque de Jogos Soares dos Reis serviu o que «chegou a ser o clube mais eclético do Norte» – aponta o sócio número 76, António Martins. «Não tinha uma modalidade que o Vilanovense não tivesse, até aeromodelismo [construção e voo de aeronaves]que mais ninguém tinha», recorda a associado «consecutivo» há 51 anos – que confessa, em BOLAsó não ser há mais tempo porque o pai, a certa altura, o pôs de castigo: «Já era sócio desde os 12 anos, mas, como fazia algumas tropelias, tirou-me de sócio, para me castigar.»
António Martins leva uma vida a amar os rubros-negros – Foto: Vilanovense
Aos 68 anos, no auge do temperamento, o torcedor gaiense não tem medo de afirmar: “Eu amo tanto o clube — e elas sabem disso — quanto qualquer pessoa da minha família.” O amor e a lucidez são tão grandes que António Martins não marcou presença na cerimônia de entrega das chaves do campo – onde passou «tantas décadas, de manhã à noite» -, por consciência de que trairia um dos lemas de sua vida: «Ia me emocionar e um vilanovense só chora na hora da vitória.»
«Vimos de duas descidas seguidas e ninguém que esteve no último jogo da descida chorou. Normalmente, cerramos os dentes e esperamos pela próxima», acrescentou, afirmando que é dessa forma que o emblema encara a nova adversidade: «Agora, estamos a fazer o caminho das pedras e vamos fazê-lo com a mesma dignidade com que já estendemos esteiras rubro-negras.»
António Martins – de chapéu – acompanha o seu ‘Vila’ para todo o lado. O presidente Bruno Cardoso é primeiro (da esquerda) na fila de baixo – Foto: D.R.
Para cumpri-lo, o clube tem – revela Bruno Cardoso – o apoio da Câmara Municipal de Gaia (tendo o autarca Luís Filipe Menezes disponibilizado o Estádio Municipal para as atividades), Junta de Freguesia de Mafamude e Vilar do Paraíso, da Associação de Futebol do Porto e do «amigo» Canelas 2010: «Não vamos morrer. Tenho comigo oito bravos elementos trabalhando com amor e carinho para superar as dificuldades, além disso temos tido solidariedade e ajuda financeira de muita gente.»
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