corrupção na FIFA

Investigação expõe décadas de corrupção estrutural na FIFA

A corrupção na Federação Internacional de Futebol (FIFA) não resultou apenas da conduta isolada de alguns dirigentes, mas de um modelo institucional que, durante décadas, concentrou poder, movimentou milhares de milhões de dólares e permitiu esquemas de suborno sob o argumento de promoção e desenvolvimento do futebol mundial. A conclusão consta de uma investigação publicada pelo jornalista Rodrigo da Silva, na coluna Fronteiras, do jornal Estadão.

A investigação revisita o escândalo de 2015, que levou à detenção de vários dirigentes e revelou um sistema de corrupção internacional envolvendo direitos televisivos, marketing desportivo, contratos comerciais e distribuição de recursos destinados ao desenvolvimento do futebol.

FIFA operava como associação privada com poder global

Um dos aspectos centrais da investigação prende-se com o estatuto jurídico da FIFA. Embora seja a principal entidade que regula o futebol mundial, a organização está registada na Suíça como uma associação privada sem fins lucrativos, beneficiando de um regime fiscal favorável e de reduzida fiscalização externa.

Segundo o Estadão, esta estrutura permitiu à FIFA funcionar durante décadas com elevada autonomia financeira, apesar de reunir 211 federações nacionais, número superior ao de Estados-membros das Nações Unidas.

Ao mesmo tempo, o sistema eleitoral da organização atribui um voto a cada federação, independentemente da sua dimensão económica ou desportiva.

De acordo com Rodrigo da Silva, esse modelo facilitou a consolidação de alianças políticas através da distribuição de fundos destinados ao desenvolvimento do futebol, sobretudo junto de federações financeiramente dependentes.

Direitos televisivos alimentavam esquema milionário

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A investigação revela que grande parte dos pagamentos ilícitos não saía directamente das contas da FIFA.

O esquema envolvia empresas de marketing desportivo que adquiriam direitos de transmissão por valores inferiores aos praticados no mercado e revendiam esses direitos por montantes significativamente superiores.

A diferença entre os valores servia para financiar pagamentos ilegais a dirigentes responsáveis pela adjudicação dos contratos, evitando que o dinheiro circulasse pela contabilidade oficial da organização.

Entre os casos citados encontra-se o do antigo presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), Juan Ángel Napout, acusado de receber cerca de 1,2 milhão de dólares anuais em subornos, pagos em numerário.

Chuck Blazer tornou-se informante do FBI

Outro episódio marcante envolve Chuck Blazer, antigo dirigente norte-americano da FIFA.

Conhecido pelo estilo de vida extravagante, Blazer manteve, durante anos, um apartamento na Trump Tower exclusivamente destinado aos seus gatos, cujos custos eram suportados com recursos obtidos através das suas actividades ligadas ao futebol.

Após ser investigado por evasão fiscal, aceitou colaborar com o FBI.

Segundo a investigação, passou a utilizar um gravador oculto num porta-chaves para recolher provas contra outros dirigentes durante reuniões e eventos internacionais, incluindo os Jogos Olímpicos de Londres.

Justiça norte-americana desmantelou rede internacional

O desmantelamento do esquema ocorreu quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos aplicou a Lei RICO, legislação criada para combater organizações criminosas.

A competência das autoridades norte-americanas assentou no facto de grande parte das transferências ilícitas ter sido realizada em dólares, passando obrigatoriamente pelo sistema bancário dos Estados Unidos.

Esse mecanismo permitiu às autoridades federais rastrear operações financeiras internacionais e construir processos criminais contra vários dirigentes da FIFA e das confederações continentais.

Reformas não eliminaram críticas ao modelo

Apesar das reformas implementadas após o escândalo de 2015, a investigação sustenta que a estrutura de poder da FIFA permanece praticamente inalterada.

O processo de atribuição do Campeonato do Mundo de 2034 à Arábia Saudita é apresentado como exemplo de um sistema em que o controlo político continua concentrado, mantendo-se o modelo de votação que concede igual peso a todas as federações.

Para Rodrigo da Silva, as mudanças administrativas não alteraram o núcleo do sistema que permitiu os escândalos das últimas décadas.

“A corrupção na FIFA nunca foi um desvio de conduta; é o seu modelo de negócios.”

A análise conclui que o maior desafio do futebol mundial continua a ser a criação de mecanismos independentes de fiscalização, transparência e prestação de contas capazes de reduzir a influência política e financeira sobre a gestão da modalidade.

Fonte: Investigação de Rodrigo da Silva, publicada na coluna Fronteiras, do jornal Estadão.


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