ANAMOLA propõe reforma Constitucional surpreendente

O Partido ANAMOLA formalizou junto ao Comité de Coordenação do Diálogo (COTE) a sua extensa proposta de revisão constitucional, com cerca de 500 páginas, abrangendo reformas estruturais profundas no Estado, sistema judicial e eleitoral, com o intuito de resolver questões que há muito afectam o país.

Reforma do Estado: Rumo ao Semipresidencialismo

A mudança mais marcante proposta é a transição para um regime semipresidencialista. O Presidente da República (PR) manteria o papel de garante da Constituição, eleito directamente pelo povo. Entretanto, a chefia do Executivo passaria ao Primeiro-Ministro (PM), líder do partido maioritário na Assembleia da República (AR), nomeado pelo PR.

Neste modelo, o Governo seria responsável tanto perante o PR como perante a AR, conferindo maior equilíbrio na divisão do poder. Entre as competências que o PR perderia estaria a nomeação do Governador do Banco de Moçambique, que passaria para o PM.

Despartidarização das Instituições e Justiça Independente

ANAMOLA propõe retirar do PR a prerrogativa de nomear altos cargos judiciais e administrativos. Os Conselhos Superiores das Magistraturas elegeriam os Presidentes do Tribunal Supremo (TS), do Tribunal Administrativo (TA) e o Procurador-Geral da República (PGR), que tomariam posse perante o PR.

Além disso, o PR deixaria de nomear Reitores das universidades públicas, reforçando a autonomia dessas instituições.

Quanto à gestão orçamental, sugere-se que os Órgãos de Soberania (Presidência, AR, Tribunais, PGR, Provedor de Justiça) administrem seus orçamentos autonomamente, sem depender da “boa vontade do Governo”.

No Ministério Público (MP), a proposta é eliminar sua função de “advogado do Estado” especialmente quando o próprio Estado seja presumível infractor, permitindo que o MP actue como verdadeiro guardião da legalidade, podendo demandar o Estado em juízo para evitar conflitos de interesse.

Integridade Eleitoral e Responsabilidade Política

A proposta introduz o Artigo 136-A, estabelecendo os Princípios da Verdade Eleitoral como imperativos legais, sob pena de nulidade da eleição. Dentre eles, destaca-se a obrigatoriedade da coincidência do número de votantes nas urnas em eleições simultâneas, a garantia do acesso dos delegados de candidatura aos locais de votação e a divulgação imediata e directa dos resultados parciais para uma plataforma única da nova Comissão Eleitoral Independente (CEI).

O prazo para validação e proclamação dos resultados eleitorais não pode ultrapassar 15 dias. O TS passaria a julgar, validar e proclamar as eleições, com o Conselho Constitucional (CC) actuando somente em casos extraordinários de descumprimento dos princípios eleitorais.

Outra inovação é o Artigo 72-A, que cria o instituto dos Crimes de Responsabilidade (Impeachment) para altos cargos públicos, incluindo PR, PM, PGR e líderes das magistraturas, instaurando uma cultura de responsabilidade política e demissão em casos de graves violações legais.

Símbolos Nacionais e Maioridade Civil

Uma proposta simbólica e controversa visa a alteração da Bandeira Nacional, eliminando o desenho do fuzil AK-47, considerado um símbolo da Guerra Fria e um produto comercial da empresa russa JSC Kalashnikov Concern Group, cuja presença na bandeira é vista como negativa para a imagem do Estado.

Outra medida propõe a harmonização da maioridade civil para os 18 anos, alinhando Moçambique com os demais países da SADC, já que é o único país da região que mantém a maioridade aos 21 anos.

Análise Comparativa: Proposta ANAMOLA vs CRM (2004)

Área de ReformaConstituição de 2004Proposta ANAMOLA
Sistema PolíticoPresidencialista puro: PR é chefe do Estado e do GovernoSemipresidencialista: PR garante do Estado; PM chefe do Governo e responsável perante a AR
Nomeação Judicial/PGRPR nomeia presidente e vice do TS e PGREleição dos presidentes do TS, TA e PGR pelos Conselhos Superiores das Magistraturas
Ministério PúblicoMP representa o Estado em juízoMP retira função de “advogado do Estado” quando este for infrator, podendo demandar o Estado
Validação EleitoralCC valida e proclama resultadosTS valida e proclama; CC intervém só em casos excepcionais
Responsabilidade PolíticaPR responde criminalmente perante o TS; sem impeachment definidoNovo artigo cria processo de impeachment para altos cargos
Eleições na ARSistema proporcional por listasSistema misto: listas plurinominais e eleição uninominal direta
Símbolos NacionaisBandeira com AK-47Proposta de retirar o AK-47, símbolo controverso

Conclusão

A proposta d’ANAMOLA marca um ponto de inflexão, buscando limitar o poder presidencial concentrado desde a independência e garantir maior despartidarização das instituições. Ao estabelecer um regime semipresidencialista, o partido propõe um sistema com maior equilíbrio, onde o Governo responde directamente ao Parlamento, e introduz mecanismos de responsabilização política claros.

A transferência da validação eleitoral para o Tribunal Supremo, com o Conselho Constitucional actuando em situações excepcionais, e o detalhamento dos princípios eleitorais indicam uma aposta clara na transparência e independência do processo eleitoral.

Se implementadas, essas propostas representam uma modernização profunda da arquitectura institucional moçambicana, aproximando o país de modelos democráticos com efectivos controles e equilíbrios de poder.

Analogia: Hoje, o sistema político moçambicano é como um carro em que o motorista (Presidente) acumula funções de cobrador, mecânico e fiscal de trânsito. A proposta d’ANAMOLA visa transformar esse carro num comboio, com carruagens distintas (Legislativo, Executivo e Judiciário), cada uma cumprindo seu papel sob a direcção do maquinista (Primeiro-Ministro), enquanto os passageiros (Assembleia da República) monitoram a viagem, cabendo ao Chefe de Estado o papel de guia e garantidor da linha férrea constitucional.

Views: 0


Discover more from Hora Certa News MZ

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

INAM emite alerta de mau tempo até 30 de Novembro

Disparos em operação policial causam pânico no Mercado Estrela – Cidade de Maputo