Há uma pergunta que incomoda, mas poucos têm coragem de fazer em voz alta: ainda é possível liderar uma geração que nasceu a deslizar o dedo no ecrã, mas tropeça quando tem de construir algo real?
Por: Imperador da Palavra
Na África Austral, essa questão não é académica. É prática, urgente e visível nas ruas, nas escolas, nas redações e nos próprios lares. Estamos diante de uma geração hiperconectada, informada até à exaustão — e, paradoxalmente, cada vez mais desorientada.
Nunca houve tanto acesso à informação. Hoje, qualquer jovem em Maputo, Joanesburgo ou Harare consegue consumir mais conteúdo em um dia do que uma geração inteira há 30 anos.
Mas aqui está o problema: consumir não é compreender.
A internet criou uma ilusão perigosa — a de que saber um pouco de tudo equivale a dominar alguma coisa. O resultado é uma geração que:
Nas comunidades da África Austral, isso traduz-se numa juventude que fala de empreendedorismo sem nunca ter gerido um negócio, critica governos sem entender políticas públicas e sonha com riqueza digital sem base produtiva.
A geração anterior construiu com sacrifício. Trabalhou sem garantias. Errou sem audiência. Aprendeu sem tutorial.
A atual quer resultado sem percurso.
A internet — especialmente redes sociais — vendeu uma narrativa tóxica:
E isso está a moldar mentalidades.
Hoje, muitos jovens não querem ser médicos, engenheiros ou professores. Querem ser “influencers”. Não porque tenham algo a dizer, mas porque alguém disse que isso paga.
E às vezes paga. Mas a que custo?
Há conquistas que custaram sangue, tempo e disciplina: educação formal, respeito institucional, progressão profissional.
Essa geração olha para tudo isso como obsoleto.
O problema não é questionar. O problema é descartar sem substituir por algo melhor.
E aqui reside o risco real: uma geração que destrói sem saber reconstruir.
Seria intelectualmente preguiçoso ignorar o outro lado.
A mesma internet que distrai também capacita.
Na África Austral, já se vê:
Nunca foi tão possível aprender programação, marketing, design ou jornalismo sem depender de instituições formais.
O problema não é a ferramenta. É o uso.
Aqui está a verdade desconfortável: os métodos antigos de liderança já não funcionam.
Esta geração não responde a:
Responde a:
Quer respeito? Prova que sabes fazer.
Quer liderar? Mostra que consegues construir.
Há uma tendência perigosa de rotular esta geração como inútil. Isso é errado — e intelectualmente desonesto.
Ela não é fraca. É mal direcionada.
Tem:
Mas falta-lhe:
Sem isso, o potencial vira dispersão.
A África Austral está num ponto decisivo.
Ou esta geração:
Ou:
Não há meio-termo.
Sim, ainda é possível liderar esta geração.
Mas não com nostalgia. Nem com discursos moralistas.
É preciso:
E acima de tudo, dizer a verdade sem rodeios:
a internet não vai salvar ninguém — mas pode destruir quem não souber usá-la.
A geração atual não é o fim das conquistas passadas.
Mas, se continuar neste ritmo, pode muito bem ser o início da sua erosão.
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