Academia defende aprovação urgente da Lei de Biossegurança para blindar o sector agrícola e impulsionar a produção nacional
A urgência de dotar Moçambique de uma Lei de Biossegurança sólida e aprovada pela Assembleia da República dominou os recentes debates sobre os rumos da biotecnologia agrícola no país. Representantes da academia e especialistas do sector alertam que, embora o país disponha de regulamentos ministeriais desde 2007 (com atualizações em 2014), o ecossistema agrário necessita de uma legislação abrangente e de maior peso jurídico para regulamentar inovações emergentes como a edição genómica e a produção de sementes híbridas biotecnológicas.
A transição legislativa é apontada como a chave para atrair investimento no sector das sementes e proteger a produção nacional diante do agravamento das perturbações climáticas, como as secas recorrentes provocadas pelo fenómeno El Niño.
Inovação em tempo real e soberania científica
Diferente do cenário de décadas passadas, em que a tecnologia demorava anos para chegar aos países em desenvolvimento, Moçambique está a acompanhar os avanços da biotecnologia em tempo real.
Segundo a Dra. Sónia Quilundo, docente universitária e investigadora na Faculdade de Ciências (Departamento de Ciências Biológicas) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), diz que o país vive um momento decisivo para o futuro do sector agrário.
”A agricultura é o pilar do desenvolvimento de Moçambique. Quando adotamos ferramentas modernas como a biologia molecular, conseguimos dar respostas rápidas aos problemas que enfrentamos, como as mudanças climáticas e as pragas que atacam culturas principais como o milho. Antigamente, uma pesquisa para melhorar uma variedade podia levar mais de 15 anos; agora, em alguns meses, podemos ter um produto final disponível. A nível agrícola, o país só tem a ganhar: teremos variedades de alto rendimento, mais tolerantes à seca e resistentes às pragas em curto e médio prazo”, destacou a Dra. Sónia Quilundo, investigadora e docente da UEM.
A docente sublinhou ainda que a aprovação do quadro legal é essencial para garantir a eficácia do trabalho que já é feito no ensino superior:
”Nós já temos alguns instrumentos, não é que não tenhamos nada. O Regulamento de Biossegurança existe desde 2007 e teve atualizações em 2014, mas ele não cobre tudo o que é novo. O nosso grande desafio é que ainda não temos uma Lei aprovada. Os regulamentos ministeriais não têm o mesmo peso que uma lei aprovada pela Assembleia da República. Precisamos de caminhar o mais rápido possível para ter uma lei sólida, para estarmos devidamente preparados como país”, concluiu Sónia Quilundo.
Eficiência no campo: A tecnologia SPT no cultivo do milho
Paralelamente ao esforço legislativo, os técnicos debateram as vantagens operacionais da Tecnologia de Produção de Sementes (SPT) no cultivo do milho, uma das culturas estratégicas para a segurança alimentar do país.
Na produção tradicional de sementes híbridas, os agricultores são obrigados a realizar o despendoamento manual (remoção da flor masculina) da planta-mãe para evitar a autopolinização. Este processo tradicional consome muita mão-de-obra e apresenta elevada margem de erro: se o pendão não for removido a tempo e libertar pólen, todo o campo é rejeitado pelos inspetores de sementes.
A aplicação da tecnologia SPT resolve o estrangulamento operacional ao desenvolver plantas-mãe naturalmente macho-estéreis. Como a planta mantém o pendão, mas não produz pólen, elimina-se a necessidade de corte manual, garantindo uma fertilização totalmente controlada, reduzindo custos de produção e assegurando a certificação das sementes com maior rapidez.
Fiscalização fronteiriça e os próximos passos
A implementação eficaz das novas tecnologias exige também o reforço do controlo nas fronteiras terrestres, marítimas e fluviais do país. Especialistas recomendam a capacitação contínua de biólogos, agrónomos e agentes alfandegários, munindo-os de testes rápidos de deteção genótica para monitorizar a entrada de material vegetal em Moçambique.
A expectativa do sector produtivo e da comunidade científica é que a harmonização das diretrizes legais culminará na submissão e aprovação da Lei de Biossegurança, consolidando Moçambique como um polo emergente de inovação agrotecnológica na região da SADC.