Será que o casamento tira as mulheres da pobreza e empobrece os homens em Moçambique?
A ideia de que “casar melhora a vida da mulher e empobrece o homem” circula cada vez mais nas conversas sobre relacionamentos, dinheiro e responsabilidades familiares. Mas, olhando para a realidade moçambicana, a questão é muito mais complexa.
O casamento pode melhorar as condições económicas de uma mulher, mas também pode aumentar a sua carga de trabalho. Do mesmo modo, pode representar maior estabilidade para um homem, mas também pode ampliar significativamente as suas responsabilidades financeiras.
Em Moçambique, portanto, não é correcto afirmar, de forma geral, que o casamento tira as mulheres da pobreza enquanto empobrece os homens.
A pobreza moçambicana é estrutural e afecta milhões de pessoas, independentemente do estado civil. O Banco Mundial estima que a pobreza, medida pelo limiar de 3 dólares por pessoa por dia em paridade do poder de compra de 2021, atingia 81,4% da população em 2022. As projecções mais recentes apontam para cerca de 82% em 2026. (World Bank Open Data)
O casamento pode mudar a situação económica da mulher?
Em determinadas famílias, sim.
Uma mulher que antes vivia sozinha ou dependia exclusivamente de rendimentos muito baixos pode, depois do casamento, passar a partilhar despesas com o marido. Alimentação, renda ou construção da casa, educação dos filhos, transporte, saúde e outras necessidades passam a ser suportadas pelo agregado familiar.
Nas zonas rurais, esta realidade pode assumir outras formas. O casamento pode significar acesso a terra, produção agrícola, habitação, instrumentos de trabalho ou redes familiares.
Mas isso não significa necessariamente que a mulher tenha ficado economicamente independente.
Existe uma diferença importante entre sair da pobreza individualmente e passar a viver num agregado familiar com maior capacidade económica.
Uma mulher pode ter melhores condições materiais depois do casamento e, simultaneamente, possuir pouco controlo sobre o dinheiro, os bens ou as decisões económicas da família.
Estudos sobre Moçambique mostram precisamente que as relações familiares e as estruturas de género influenciam a forma como a pobreza é vivida e percebida dentro dos agregados familiares. (WLSA Moçambique)
E por que razão alguns homens sentem que o casamento os empobrece?
A resposta está, em grande medida, nas expectativas sociais.
Em muitas comunidades moçambicanas, ainda existe a ideia de que o homem deve ser o principal provedor da família.
Quando casa, o homem deixa de responder apenas pelas suas necessidades.
Passa a ter despesas relacionadas com a esposa, filhos, habitação, alimentação, escola, saúde, transporte e apoio às famílias de origem.
Em determinadas famílias, surgem ainda despesas associadas ao lobolo, cerimónias matrimoniais, construção da casa e outros compromissos sociais.
O problema não está necessariamente no casamento.
Está na concentração das responsabilidades económicas numa única pessoa.
Quando o rendimento do homem é baixo e todas as despesas familiares recaem sobre ele, o casamento pode efectivamente reduzir a sua capacidade de poupança e investimento.
Mas isso é diferente de dizer que “a mulher enriquece e o homem empobrece”.
O outro lado da história: mulheres casadas também trabalham
Existe uma dimensão frequentemente esquecida neste debate.
Em muitas famílias moçambicanas, as mulheres contribuem para o rendimento familiar através do comércio informal, agricultura, pequenos negócios, trabalho assalariado e outras actividades económicas.
Além disso, realizam grande parte do trabalho doméstico e dos cuidados familiares.
Um estudo sobre a pobreza de tempo em zonas rurais de Moçambique concluiu que a participação de mulheres e homens em actividades económicas pode ser semelhante, mas as tarefas domésticas e os cuidados recaem quase inteiramente sobre as mulheres, tornando-as significativamente mais pobres em tempo. (Tandfonline)
Ou seja, quando se pergunta quanto dinheiro cada membro coloca em casa, pode parecer que o homem contribui mais.
Mas quando se contabilizam trabalho doméstico, cuidados dos filhos, preparação de alimentos, procura de água, limpeza e outras actividades não remuneradas, a fotografia económica muda.
A mulher pode não entregar o mesmo valor em dinheiro, mas pode estar a produzir um volume considerável de trabalho não remunerado.
O fenómeno do lobolo também entra na equação
No contexto moçambicano, não se pode discutir casamento e economia ignorando o lobolo.
Historicamente, o pagamento de bens ou dinheiro à família da mulher esteve associado à formalização da união em várias comunidades.
Estudos realizados em Moçambique mostram que o lobolo sofreu transformações e passou, em muitos contextos, de pagamentos em gado e outros bens para formas predominantemente monetárias. (PubMed Central (PMC))
Em comunidades pobres, porém, a lógica pode ser ainda mais complexa.
Há pesquisas que documentam situações em que o casamento de filhas muito jovens é relacionado com a redução das despesas familiares e com a obtenção de recursos através do lobolo. (ScienceDirect)
Isso revela uma realidade desconfortável: em determinados contextos, o casamento pode ser utilizado como mecanismo económico de sobrevivência familiar.
Mas não se deve confundir essa prática com emancipação económica da mulher.
Casar não é necessariamente enriquecer
O casamento transforma duas economias individuais numa economia familiar.
Se dois adultos ganham pouco, o casamento não cria automaticamente riqueza.
Pode até aumentar as despesas, sobretudo quando chegam os filhos.
Imagine um homem que ganha 20 mil meticais por mês e uma mulher que não possui rendimento fixo.
Antes do casamento, ele pode conseguir controlar quase todo o seu rendimento.
Depois, surgem alimentação, renda ou construção da casa, transporte, saúde, roupa e outras despesas.
Com o nascimento de uma criança, entram novas necessidades.
Se nascerem três ou quatro filhos, a pressão financeira aumenta consideravelmente.
O mesmo acontece quando ambos trabalham.
Um casal com dois rendimentos pode ter maior capacidade económica, mas também pode enfrentar despesas maiores com filhos, habitação, educação, transporte e cuidados.
Portanto, o casamento não é uma máquina de produzir riqueza.
É uma instituição que organiza pessoas, responsabilidades, recursos e património.
Quando o casamento pode beneficiar os dois
O casamento pode ser economicamente vantajoso quando existe cooperação.
Por exemplo, quando marido e mulher:
partilham responsabilidades;
planeiam o orçamento familiar;
investem parte dos rendimentos;
evitam endividamento desnecessário;
desenvolvem actividades económicas;
educam financeiramente os filhos;
tomam decisões importantes conjuntamente;
e constroem património familiar.
Nessas condições, dois rendimentos podem produzir mais segurança do que um.
Uma pequena banca, machamba, oficina, salão de beleza, actividade comercial, negócio digital ou emprego formal pode contribuir para uma economia familiar mais sólida quando existe organização.
Mas há situações em que o casamento pode aumentar a vulnerabilidade da mulher
Também seria errado romantizar o casamento.
Uma mulher pode casar com um homem economicamente mais forte e, ainda assim, perder autonomia financeira.
Pode deixar de trabalhar.
Pode abandonar os estudos.
Pode ficar dependente economicamente do marido.
Pode não possuir bens registados em seu nome.
Pode trabalhar diariamente no negócio familiar sem receber rendimento próprio.
Pode ainda enfrentar restrições sobre a utilização do dinheiro ou sobre decisões relacionadas com património.
O Banco Mundial destaca que a igualdade de género pode contribuir para ganhos de produtividade, redução da pobreza e maior prosperidade partilhada em Moçambique. (World Bank)
Por isso, discutir casamento apenas como uma relação entre “homem provedor” e “mulher beneficiária” é insuficiente para compreender a economia das famílias moçambicanas.
E quando o casamento termina?
É neste ponto que a questão económica se torna ainda mais séria.
Uma mulher que passou anos fora do mercado de trabalho pode encontrar dificuldades para reconstruir a sua vida económica depois de uma separação.
O mesmo pode acontecer com um homem que assumiu sozinho grandes compromissos financeiros durante o casamento.
A distribuição de património, responsabilidades parentais, habitação e despesas com os filhos pode tornar-se uma questão económica central.
No caso do lobolo, estudos também apontam para situações em que a expectativa de devolução do pagamento em caso de divórcio pode dificultar a saída da mulher de uma relação insatisfatória ou abusiva. (PubMed Central (PMC))
Então, quem ganha e quem perde?
A resposta depende da família.
Uma mulher pobre pode casar com um homem pobre e continuarem ambos pobres.
Uma mulher pobre pode casar com um homem economicamente estável e melhorar significativamente as suas condições materiais.
Um homem economicamente estável pode casar e aumentar as suas responsabilidades até enfrentar dificuldades financeiras.
Mas também pode acontecer o contrário: uma mulher com negócio próprio pode casar com um homem desempregado e passar a sustentar grande parte da família.
Por isso, o estado civil, por si só, não determina riqueza ou pobreza.
O rendimento, a educação, o emprego, o património, o número de dependentes, a localização, as oportunidades económicas e a forma como o casal administra os recursos têm um peso muito maior.
A verdadeira questão não é “quem empobrece?”
A pergunta mais importante para Moçambique talvez seja outra:
Como transformar o casamento numa parceria económica, em vez de numa relação de dependência financeira?
Isso passa por homens e mulheres terem capacidade de gerar rendimento.
Passa por educação financeira.
Passa por acesso ao crédito responsável.
Passa por formação profissional.
Passa pela participação das mulheres na economia.
Passa por homens compreenderem que prover não significa necessariamente suportar todas as despesas sozinho.
E passa por mulheres compreenderem que contribuir para a família não significa apenas colocar dinheiro em casa.
Há também trabalho doméstico, cuidado dos filhos e construção diária do bem-estar familiar.
Conclusão
A ideia de que “o casamento tira as mulheres da pobreza e empobrece os homens” pode funcionar como provocação para uma discussão social, mas não descreve a realidade económica de Moçambique.
Em muitos casos, o casamento redistribui recursos dentro do agregado familiar. Noutros, aumenta as despesas e as responsabilidades.
Para algumas mulheres, pode representar maior segurança económica. Para outras, pode significar dependência e perda de autonomia.
Para alguns homens, pode aumentar a pressão financeira. Para outros, pode representar uma parceria que melhora a capacidade de acumular património.
Num país onde a pobreza continua a afectar uma parcela muito elevada da população, a questão central não deve ser descobrir se “homens ou mulheres ganham” com o casamento.
A verdadeira questão é saber se marido e mulher conseguem construir uma família na qual o dinheiro seja administrado conjuntamente, o trabalho seja valorizado e a responsabilidade económica seja partilhada.
Porque, no fim, um casamento saudável não deveria transformar um dos cônjuges em provedor permanente e o outro em dependente permanente.
Deveria permitir que ambos fossem parceiros na construção da sua própria segurança económica. (World Bank Open Data)
Fontes de referência
Banco Mundial, Mozambique Gender Landscape; Banco Mundial, dados sobre pobreza e desenvolvimento de Moçambique; estudos académicos sobre casamento, lobolo, pobreza e desigualdade de género em Moçambique. (World Bank)