A química orgânica ensina-nos que, por vezes, as reacções seguem caminhos previsíveis. Vladimir Vasilyevich Markovnikov, químico russo do século XIX, formulou uma regra simples, mas profundamente lógica: quando se adiciona um composto HX a um alceno, o hidrogénio (H) liga-se ao carbono que já tem mais hidrogénios, enquanto o outro elemento (X) se prende ao carbono menos saturado.
Em termos simples, o “rico em H” recebe ainda mais H. A estabilidade da molécula dita o rumo da reacção.
Na política, porém, as leis da estabilidade raramente seguem a lógica da ciência. E é aqui que a Tanzânia entra em cena, transformando a regra de Markovnikov num retracto ácido da concentração de poder.
A Tanzânia realizou as suas eleições gerais a 29 de Outubro de 2025, sob um clima de tensão e desigualdade política. O partido no poder, Chama Cha Mapinduzi (CCM), liderado pela Presidente Samia Suluhu Hassan, partiu para o pleito com uma vantagem estrutural esmagadora.
A oposição foi limitada, muitos candidatos foram impedidos de concorrer e as restrições sobre a imprensa e a internet tornaram-se rotina nos dias que antecederam o voto.
Relatórios internacionais descrevem o processo como “sem oposição real” e “marcado por repressão”. A Al Jazeera e o Le Monde Afrique confirmam que protestos populares eclodiram em Dar es Salaam e Dodoma, sendo dispersos com violência pelas forças de segurança. A Reuters fala em dezenas de mortos e centenas de detidos após o anúncio da vitória esmagadora do CCM.
Se a democracia fosse uma reacção química, as eleições seriam o momento da adição: forças sociais, partidos e instituições tentando ligar-se para formar um composto mais estável – um país mais justo.
No entanto, a regra de Markovnikov ajuda-nos a entender o desequilíbrio:
“O hidrogénio (o símbolo da participação popular) deveria unir-se ao carbono mais saturado (o povo com mais votos e voz). Mas, na Tanzânia, o H foi para o lado errado.”
O que se esperava era que a vontade popular reforçasse o lado mais “carregado” de participação – as comunidades, os jovens, a sociedade civil. Em vez disso, o poder político concentrou-se novamente no carbono menos saturado: a elite dirigente, o aparelho estatal, o partido histórico.
Assim, tal como nas reacções químicas que seguem o caminho mais estável, o sistema político tanzaniano escolheu o rumo mais previsível – o da continuidade do poder.
Na química, o motivo da regra de Markovnikov é simples: o intermediário mais estável (o carbocátion) decide o destino da reacção.
Na Tanzânia, o “carbocátion político” é a estrutura institucional criada ao longo de décadas de domínio do CCM. Este sistema oferece estabilidade, mas uma estabilidade que sufoca a alternância de poder.
“As instituições continuam fiéis ao mesmo centro de gravidade. O país mantém-se aparentemente calmo, mas sem a diversidade que dá vida à democracia”, observa um analista tanzaniano ouvido pelo Hora Certa News sob anonimato.
O paradoxo é claro: quanto mais o regime procura estabilidade, menos espaço sobra para o movimento político orgânico. O resultado é um sistema que se auto-sustenta, mas que se afasta gradualmente da sua base popular.
Nos dias que se seguiram às eleições, as manifestações populares foram reprimidas com força, mas a agitação permanece. Universidades e movimentos cívicos começam a questionar se a estabilidade é suficiente para garantir desenvolvimento sem liberdade.
Enquanto a Presidente Samia Hassan tenta reforçar a imagem internacional do seu Governo como “moderado e pró-reformas”, cresce internamente a sensação de que o país precisa de uma nova reacção política – talvez uma que quebre a regra de Markovnikov.
Porque, se a ciência ensina que o hidrogénio vai sempre para o carbono mais rico, a democracia, quando verdadeira, ensina o contrário: é o lado com menos voz que deve receber mais atenção.
A lição é amarga, mas precisa. Na Tanzânia, a reacção eleitoral de 2025 mostrou que o poder continua a ser adicionado onde ele já existe. A regra de Markovnikov explica, de forma quase poética, esta tendência de perpetuação: quem tem mais, ganha mais.
Mas, diferentemente da química, a política pode inverter essa regra – se o povo decidir reagir novamente.
Autor: Redacção Hora Certa News
Edição: AM
Créditos de fonte: Al Jazeera, Le Monde Afrique, Reuters, Standard Media Kenya
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