Opinião

Por que os cidadãos moçambicanos estão mais despertos para queixas e reclamações?

Nos últimos anos, em Moçambique, observa-se um aumento significativo no número de denúncias públicas, reclamações nas redes sociais e exigências por melhores serviços. Isso pode ser interpretado de diferentes formas.

Uma leitura positiva é esta:
há maior consciência cívica.
Com mais acesso à informação, redes sociais e meios digitais, o cidadão está mais informado sobre os seus direitos e sente-se encorajado a exigir melhor qualidade nos serviços públicos. Nesse sentido, reclamar não é rebeldia — é exercício de cidadania.

Mas há também outra leitura.

Gozo dos direitos ou confusão de cidadania com política?

É aqui que o debate se torna mais complexo.

Alguns defendem que estamos diante de um momento saudável de participação democrática: o cidadão já não aceita silêncio, quer transparência e prestação de contas.

Outros argumentam que parte das queixas pode estar a ser instrumentalizada. Em contextos politicamente competitivos, grupos organizados podem amplificar insatisfações legítimas para fragilizar adversários ou criar narrativas de crise.

A verdade provavelmente está no meio.

Nem toda reclamação é manipulação política.
Nem toda mobilização popular é espontânea.

Há cidadãos genuinamente cansados de problemas estruturais — filas longas, serviços lentos, falta de informação clara. E há também actores políticos que sabem capitalizar esse descontentamento.

Quem realmente se beneficia com as denúncias diárias?

Depende do cenário.

Se as denúncias geram:

  • Melhoria de serviços;
  • Mais transparência;
  • Responsabilização de funcionários públicos;
  • Reformas administrativas;

Então o principal beneficiário é a população.

Mas se as queixas:

  • São exageradas ou descontextualizadas;
  • São usadas para alimentar medo ou instabilidade;
  • Servem apenas como arma de disputa política;

Então quem mais ganha são os grupos políticos que conseguem transformar insatisfação social em capital político.

Onde pode estar o equívoco?

O equívoco pode estar em dois extremos:

  1. Achar que toda crítica é manipulação política.
    Isso deslegitima o direito do cidadão de exigir melhor governação.
  2. Achar que toda mobilização é pura e neutra.
    Ignora que, em qualquer sociedade, há estratégias políticas em jogo.

Cidadania plena não é silêncio, mas também não é permanente confronto. É equilíbrio entre exigir direitos e compreender processos institucionais.

A minha opinião

O despertar para reclamações em Moçambique parece ser, antes de tudo, um sinal de maturidade social. Sociedades apáticas não reclamam — acomodam-se.

No entanto, é preciso distinguir entre:

  • Reclamação construtiva;
  • Mobilização legítima;
  • Instrumentalização política.

A chave está na consciência crítica.
Quando o cidadão reclama com base em factos e objectivos claros, fortalece a democracia.
Quando reage apenas por emoção ou influência partidária, pode tornar-se peça de um jogo maior.

No fim, a pergunta essencial não é “quem reclama?”, mas “com que intenção e com que fundamento?”

Uma sociedade forte é aquela onde o cidadão:

  • Questiona,
  • Fiscaliza,
  • Mas também analisa antes de concluir.

E talvez o verdadeiro ganho esteja justamente aí: no debate público cada vez mais activo.

Naldo Agostinho

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