Quinta-feira, 8 de Outubro de 2026

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Banca

Metical poderá entrar no sistema de pagamentos da SADC a partir de Janeiro de 2027

O Metical poderá passar a integrar, a partir de Janeiro de 2027, as moedas utilizadas para a liquidação de pagamentos entre os países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), através do Sistema de Transferência e Liquidação Interbancária em Tempo Real (SADC-RTGS). A mudança coloca a moeda moçambicana numa nova etapa do processo de integração financeira regional e poderá reduzir a dependência de moedas de terceiros nas transacções dentro da região.

A possibilidade foi avançada pelo Governador do Banco de Moçambique, Felisberto Navalha, que explicou que Moçambique está a preparar a integração do Metical na plataforma regional.

De um sistema dominado pelo Rand a uma plataforma multimoeda

O SADC-RTGS foi lançado em 2013 como parte do projecto de integração dos sistemas de pagamento da região. Moçambique aderiu à plataforma em Outubro de 2016. O sistema é utilizado para a liquidação de transacções entre bancos e outras instituições financeiras autorizadas pelos respectivos bancos centrais.

Durante vários anos, o Rand sul-africano foi a única moeda de liquidação do sistema. Essa realidade começou a mudar em Julho de 2026, quando o Kwanza angolano passou oficialmente a integrar o SADC-RTGS, tornando-se a segunda moeda de liquidação da plataforma. A SADC indicou, na altura, que a entrada de novas moedas pretende reduzir a necessidade de conversões cambiais, diminuir custos e reforçar a utilização de moedas locais no comércio regional.

A eventual entrada do Metical insere-se, portanto, numa transformação mais ampla do sistema regional: a passagem de uma plataforma essencialmente assente numa única moeda para uma infraestrutura com capacidade de operar com várias moedas da região.

O que muda para Moçambique

Actualmente, os bancos moçambicanos já utilizam o SADC-RTGS para efectuar e receber pagamentos regionais. Dados do Banco de Moçambique mostram que, em 2023, sete instituições de crédito nacionais estavam ligadas à plataforma. Nesse ano, os bancos moçambicanos enviaram 6.869 transacções através do sistema, no valor de cerca de 4,48 mil milhões de Rand, enquanto receberam 4.073 transacções, avaliadas em aproximadamente 4,44 mil milhões de Rand.

A utilização directa do Metical poderá alterar esta dinâmica. Em vez de uma operação transfronteiriça depender necessariamente do Rand como moeda de liquidação, uma transacção elegível poderá ser iniciada em Meticais e processada dentro da infraestrutura regional.

Na prática, uma empresa moçambicana que tenha de pagar uma factura a um fornecedor de outro país da SADC poderá solicitar ao seu banco a operação em Meticais. A liquidação será processada através do SADC-RTGS, de acordo com os mecanismos cambiais e de liquidação definidos pelos bancos envolvidos.

O ganho potencial está sobretudo na eficiência da operação: menos etapas de conversão, menor exposição a determinados custos cambiais e maior rapidez na liquidação.

A própria SADC explica que a introdução de moedas adicionais permite aos participantes efectuar transacções em moedas locais, reduzir a necessidade de conversão cambial e melhorar a gestão de liquidez das empresas. O sistema processa actualmente cerca de 250,7 mil milhões de Rand em transacções por mês.

Mais do que pagamentos: uma questão de autonomia financeira

A entrada do Metical no SADC-RTGS tem também uma dimensão estratégica.

Não significa a criação de uma moeda regional nem a substituição do rand, do dólar ou de outras moedas internacionais. Significa, antes, que o Metical poderá passar a desempenhar um papel directo na infraestrutura de pagamentos regionais.

Essa diferença é importante.

Durante décadas, grande parte dos pagamentos regionais esteve dependente de moedas com maior utilização internacional ou regional. A ampliação do SADC-RTGS para várias moedas procura criar uma arquitectura em que os países possam utilizar mais as suas próprias moedas nas relações económicas entre si.

Para Moçambique, isso pode reforçar a posição do Metical nas transacções comerciais com os parceiros da SADC e reduzir, em determinadas operações, a necessidade de recorrer ao Rand como moeda intermediária.

Mas a medida, por si só, não elimina os riscos cambiais nem garante automaticamente transacções mais baratas. Os custos finais dependerão das taxas de câmbio aplicadas, das condições definidas pelos bancos comerciais, da liquidez disponível em Meticais e nas moedas dos parceiros e do volume efectivo de operações realizadas.

Uma integração que já começou

A integração do Metical surge num momento em que o próprio sistema financeiro moçambicano atravessa uma fase de modernização.

Em Março de 2026, o Banco de Moçambique lançou o METIX, sistema nacional de pagamentos instantâneos, como parte da modernização do sistema de pagamentos do país. A instituição tem apresentado a digitalização, a eficiência e a segurança das transacções como elementos centrais dessa transformação.

A nível regional, o SADC-RTGS constitui outra camada dessa arquitectura. O sistema já permite a liquidação de pagamentos entre instituições financeiras dos países participantes e conta actualmente com 15 países participantes.

A eventual entrada do Metical representa, assim, a ligação entre duas agendas: a modernização dos pagamentos dentro de Moçambique e a integração financeira com os mercados da região.

O verdadeiro teste será a utilização

O principal impacto da medida não será determinado apenas pela entrada formal do Metical na plataforma, mas pela capacidade de empresas, bancos e outros agentes económicos de utilizarem efectivamente essa possibilidade.

Para Moçambique, o desafio será transformar a nova capacidade técnica em maior comércio regional, menor custo de transacção e maior utilização do Metical nas operações económicas com os países vizinhos.

O Banco de Moçambique terá, igualmente, de assegurar que a integração ocorra de forma compatível com a estabilidade cambial e monetária, num contexto em que a própria autoridade reconhece a necessidade de melhorar a transparência e o funcionamento do mercado cambial.

Se concretizada em Janeiro de 2027, a entrada do Metical no SADC-RTGS não representará apenas uma alteração tecnológica no sistema de pagamentos. Será um passo para colocar a moeda moçambicana directamente numa das principais infraestruturas financeiras da África Austral — e o seu impacto dependerá, sobretudo, de quanto o comércio regional passar efectivamente a utilizá-la.

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