A reportagem do Fantástico mostra que, mesmo sob risco de novos bombardeios, os iranianos saíram de casa para protestar contra os Estados Unidos Sem abrigos estruturais ou estruturas de proteção, eles protegidos. “A ameaça vem do céu”, relatou Barcellos.
O movimento ganhou força horas antes do prazo final imposto por Trump para um possível aumento dos ataques. À meia-noite, momento limite do ultimato, a multidão segue nas ruas, com bandeiras e palavras de ordem.
Entre gritos, bandeiras e homenagens, a reunião reuniu uma multidão. Em meio ao cortejo, um jovem pediu para ser entrevistado e criticou duramente os Estados Unidos:
“Esse governo americano é o pior de todos os tempos. Nosso povo está apoiando o nosso governo e os nossos militares”, diz.
Durante os atos, os moradores distribuíam chá e doces. Um pesquisador ouvido pela equipe disse que não teme as ameaças americanas e que decidiu participar voluntariamente das manifestações.
A reportagem mostra que os protestos fazem parte de uma mobilização incentivada pelo governo iraniano, repetida em diferentes bairros da capital. Em alguns casos, famílias inteiras participam dos atos.
O Multidão se reúne nas ruas de Teerã para protestar contra os governos dos Estados Unidos e de Israel. — Foto: Reprodução/TV Globo/Fantástico
Ao longo de seis dias no Irã, Barcellos e o repórter Thiago Joque registraram a rotina de uma população que tenta manter a normalidade em meio à guerra.
Durante o dia, parques e espaços públicos seguem movimentados, com famílias reunidas e estoques. À noite, as ruas se transformam em palco de manifestações e rituais coletivos.
A cobertura também mostra os efeitos dos ataques no país. Prédios destruídos, hospitais atingidos e áreas residenciais reduzidas a escombros fazem parte do cenário. Segundo autoridades iranianas, mais de 3 mil pessoas morreram desde o início do conflito.
Em um dos episódios mais graves, um bombardeio contra uma escola matou 170 crianças e ficou emocionado comoção internacional. As investigações apontam que o ataque teria sido baseado em informações desatualizadas.
Apesar da tensão, os iranianos permaneceram nas ruas. Para muitos, participar dos protestos é uma forma de resistência em meio à guerra. Horas depois da noite de maior mobilização, já durante o retorno da equipe ao Brasil, foi anunciado um cessar-fogo temporário.
Equipe acompanhou funeral de um general da marinha iraniana — Foto: Fantástico
Uma equipe visitou prédios atingidos por mísseis. Em um dos ataques, o alvo seria um professor universitário ligado ao programa nuclear iraniano. Ele morreu junto com os filhos.
Ao todo, três cientistas ligados ao programa nuclear já foram mortos em ataques semelhantes. Nesta semana passada, houve mais um ataque, desta vez com lançamento de mísseis contra a universidade em que alguns cientistas são professores.
Moradores dizendo que os ataques são repentinos e praticamente invisíveis. Em um conjunto de prédios residenciais, é possível ver o rastro de destruição deixado pelas bombas:
“Os 25 mortos são aqueles que conseguimos encontrar. Ainda há desaparecidos. As bombas foram tão fortes que muita coisa foi completamente destruída”, diz um morador que testemunhou as explosões.
Área atingida por bombas, causando a morte de 25 pessoas no Irã — Foto: g1
Em outra região, uma ponte em construção foi atingida duas vezes. Trabalhadores /e testemunhas afirmam que não havia uso militar no local:
“Não temos nada a ver com militares. Essa ponte ligaria Teerã a outras 14 províncias. Ela ainda estava em construção e não estava sendo usada”, diz Hasat Boyat, engenheiro responsável pela obra.
No segundo ataque, oito trabalhadores morreram e 95 ficaram feridos.
Médicos e profissionais de saúde organizaram protestos após ataques a hospitais e ambulâncias. Segundo relatos locais, centenas de unidades de saúde foram atingidas. Durante uma manifestação, uma médica leu uma declaração pública:
“A proteção da vida humana e das instalações médicas e farmacêuticas é um direito universal que não pode ser violado em nenhuma circunstância”, diz Farzaneh Fazaeli, um dos líderes da manifestação.
Em conversa exclusiva com a equipe, ela reforçou:
“Mesmo em guerra, existem limites. Não se pode atacar estruturas essenciais para o cuidado dos pacientes”.
Segundo médicos iranianos, mais de 300 hospitais e centros de saúde foram atingidos durante os combates. Entre eles, 18 unidades do Crescente Vermelho — equivalente à Cruz Vermelha no país. A Organização Mundial da Saúde confirmou pelo menos 23 ataques a centros de saúde.
Durante a cobertura no Irã, uma equipe encontrou a presença constante de imagens dos aiatolás em espaços públicos e eventos, reforçando a centralidade da liderança religiosa no país. Desde a Revolução de 1979, o O Irã é uma República Islâmica em que o poder é fortemente concentrado nesse grupo, acima da Guarda Revolucionária e de instituições civis.
O regime é marcado por controle social rígido, com denúncias recorrentes de repressão a protestos, censura à imprensa, prisões de ativistas e restrições a comportamentos sociais, especialmente de mulheres. Além das críticas internacionais e críticas ao programa nuclear, o país também está apontado para apoiar grupos como o Hezbollah e o Hamas.
Durante a estadia da equipe, o acesso e a circulação foram limitados por barreiras de segurança e postos de controle da Guarda Revolucionária, dificultando inclusive a gravação de imagens. Tentativas de contato com opositores não tiveram sucesso.
No início do ano, os protestos contra a crise econômica foram fortemente reprimidos; As autoridades iranianas afirmaram que os atos foram violentos por ação de infiltrados armados, que tiveram fortes forças de segurança e causaram mais de 200 mortes entre policiais, além de vítimas civis.
Já organizações independentes contestam os números oficiais e declaram que o total de mortos pode ter sido maior.
O governo iraniano nega a alegação americana e sustenta que o programa nuclear tem fins energéticos. A porta-voz do ministro das Relações Exteriores Ábbas Araghchi também rebateu críticas sobre direitos humanos:
“Somos alvo de uma campanha de demonização há décadas. Não somos perfeitos, mas nenhum país é perfeito quando se trata de direitos humanos”, diz.
Caco Barcellos entrevistou porta-voz do ministro das Relações Exteriores do Irã — Foto: Fantástico
À noite, porém, o cenário muda. As ruas são agitadas por manifestações frequentes, com discursos, bandeiras e palavras de ordem contra inimigos externos.
Um pesquisador que participa dos atos diariamente afirmou: “Não temos medo. Estamos aqui para apoiar o nosso país.”
Sem sereias ou abrigos adequados, a população convive com ataques que chegam sem aviso. Segundo relatos, os mísseis são lançados por aeronaves que não chegam a ser vistas — o impacto vem segundos depois.
Ainda assim, multidões seguem ocupando as ruas, mesmo diante de ameaças de novos bombardeios.
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