«Em Setúbal, tudo se foi destruindo como um baralho de cartas»

Em Setúbal, tudo se foi destruindo como um baralho de cartas


Portugal tem grandes, além dos chamados três grandes. O Vitória de Setúbal é um deles. A formação do Sado é a sexta com mais participações na Liga (72). Além disso, levando em conta as competições nacionais vigentes – campeonato, Taça de Portugal, Taça da Liga e Supertaça -, é também a sexta com mais troféus conquistadas (em igualdade com o Belenenses): são quatro (três Taças de Portugal e uma Taça da Liga), ficando atrás apenas de Benfica (82), FC Porto (76), Sporting (52), Boavista (nove), SC Braga (seis).

O Barreiro, por sua vez, por muito tempo, foi palco de uma das rivalidades primodivisionárias mais emblemáticas do futebol português: Barreirense contra Fabril (antiga CUF). O primeiro clube citado tem 24 participações (a última em 1978/79) no principal escalão do futebol português, enquanto o segundo soma 23 (de onde está arredado desde 1975/76). Por aquelas bandas, há ainda mais dois conjuntos que já se bateram na primeira divisão: Montijo (nas temporadas 1972/73, 1973/74 e 1976/77) e Seixal (1963/64 e 1964/65).

«Quando estava no Montijo, cheguei a jogar o campeonato com quatro equipes do distrito de Setúbal [1972/73 e 1973/74, em campeonatos de 16 equipas que contaram com Vitória, Barreirense, Fabril, Montijo]com os campos completamente lotados e uma grande rivalidade entre os clubes aqui do distrito», lembra, ao nosso jornal, José Rachão, que vê com preocupação como, «ano após ano, tudo foi se degradando» na região.

Além das temporadas citadas, houve ainda uma terceira em que o distrito setubalense teve quatro emblemas na Liga: em 1963/64 Vitória de Setúbal, Barreirense, Fabril, e Seixal, numa contenda de 14 equipas.
«Neste momento, lamento e é uma pena ter de estar a falar sobre isto, mas o que é certo é que o distrito de Setúbal não consegue ter uma equipa na Liga, nem na Liga 2, nem sequer na Liga 3 e tem só três equipas no Campeonato de Portugal, que são o Vitória de Setúbal, o Amora e o Alcochetense», lembra o ex-jogador, apelando a «que se estude o fenómeno» de degradação de um «distrito que sempre respirou futebol».

Apesar de ter nascido em Peniche (em 15 de setembro de 1952), o ex-jogador de futebol tem muito mais ligação com a Extremadura: «Peniche é minha terra natal, uma terra que amo muito. Mas cedo, aos 20 anos, depois de sair do Benfica, onde fiz toda a formação, fui jogar no Montijo. Foi lá que conheci minha esposa e, independentemente de ter viajado o mundo como jogador e treinador, assentei os acampamentos. Tenho lá minhas filhas e meus netinhos.»
José Rachão jogou no Montijo (1972 a 1976) e Vitória de Setúbal (1977/78). Em seguida, treinou os mesmos emblemas, respectivamente, em 2019/20 (embora tenha sido na nova Era do herdeiro Olímpico do Montijo) e 2004/05, tendo vencido, naquele ano, a Taça de Portugal contra o Benfica (2-1). O técnico também treinou, no mesmo distrito, Amora (1994/95), Barreirense (1996 a 2000 e 2002/03) e Seixal (2001/02).


José Rachão, após levar o Vitória de Setúbal à conquista da Taça de Portugal, diante do Benfica, a 29 de maio de 2005 – Foto: A BOLA

José Rachão admite que «teria de perder muito tempo» para falar do estado atual do futebol na região que o adotou, «há mais de 50 anos», mas reconhece-se capacitado para tal: «Para falar disto e bem, só quem conseguiu viver o passado e consegue perspetivar o futuro. Só esses estão habilitados a falar sobre isso, porque há muitas pessoas que opinam e não estão minimamente informadas sobre o que foi o distrito de Setúbal em termos de futebol e desporto.»
«Têm que se criar condições para que voltem os valores que perdemos, como, por exemplo, dos grandes jogadores, que foram campeões europeus nascidos no Barreiro, no Montijo, em Setúbal, e que passearam o seu futebol pelo mundo», analisa. O atual vice-presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol recorda, então, os tempos em que «os clubes grandes abasteciam as suas primeiras equipas ao distrito de Setúbal, em que havia cinco ou seis árbitros de nível nacional e internacional, em que havia treinadores de referência, entretanto perdidas, em que havia dirigentes com muita capacidade». Havia «gente com muito valor, homens que eram autênticos líderes, aqui no distrito. De repente, tudo isso foi se desfazendo como um baralho de cartas», acrescenta, com lamento.


Descubra mais sobre Hora Certa News MZ

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Álvaro Zamora: «O Académico de Viseu tem a equipa perfeita…»

Álvaro Zamora: O Académico de Viseu tem a equipa perfeita…

Tribunal absolve Varandas no processo movido por Pinto da Costa e FC Porto

Tribunal absolve Varandas no processo movido por Pinto da Costa e FC Porto