É nesse contexto que se insere a Tok&Stok, com dívidas que superam R$ 1,1 bilhão e dificuldade para renegociar passivos que vinham se acumulando desde 2024, quando a companhia entrou em recuperação extrajudicial.
Após não conseguir equacionar suas contas, a companhia voltou ao Judiciário para administrar uma dívida que dobrou em tamanho. Sem conseguir respiro na operação diária e sem condições de honrar seus compromissos, o grupo afirma que a recuperação é a única forma de manter suas atividades.
Unidade da Tok&Stok em São Paulo
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Felipe Gabriel/Folhapress
Atualmente, mais de 5.931 empresas estão em alguma fase de recuperação judicial no país, segundo dados do Monitor RGF. Em 2025, o Brasil registrou, pelo segundo ano consecutivo, recorde no número de pedidos, com 977 empresas recorrendo ao Judiciário. Apenas no primeiro trimestre de 2026, foram deferidos 319 processos.
Especialista em reestruturação de empresas, Max Mustrangi, CEO da consultoria Excellance, avalia que o componente principal da crise começou no período que antecede a escassez do mercado de crédito, justamente quando as empresas alavancaram suas operações em um cenário de juros mais baixos.
Com o fim do governo Dilma e um ciclo de juros em queda, cujas mínimas históricas ocorreram entre 2020 e 2021, tomar empréstimos no mercado de crédito ficou barato. As empresas utilizaram esse dinheiro para promover expansões, montar novas unidades de negócio, melhorar tecnologia interna e realizar aquisições para, mais adiante, ter retorno.
Esse cenário foi drasticamente revertido com o aumento da inflação durante a pandemia da Covid-19, as mudanças na política fiscal e o ciclo de alta da taxa de juros no final de 2021.
Nesse meio tempo, o Brasil ainda lidou com escândalos como a crise das Lojas Americanasque fez com que os bancos mudassem de postura em relação a diversos setores —principalmente o varejista.
“O custo do capital fica muito caro, começa a cobrar sua conta através de juros, comendo mais fluxo de caixa. E como os negócios não dão resultados, são prejuízos acumulados, os novos pontos são deficitários e acabam tomando o lucro do que sobra”, afirma Mustrangi.
Ele critica empresas que fizeram expansões de mercado “comprando market share”, ou seja, apostando todas as fichas em publicidade e preços baixos para conquistar mercado sem obter lucratividade. Parte da crise de alavancagem das empresas em crise, avalia Mustrangi, decorre dessa tentativa de crescer sem criar valor de marca.
A TRÍADE DA CRISE
O advogado Bruno Tanus, do Andrade Maia Advogados, afirma que a nova fase da Tok&Stok, iniciada na fusão com a Moblyem 2024, já nasceu como uma tentativa de gerar ganhos operacionais e reequilibrar o endividamento da companhia. Segundo ele, a operação surgiu com um “viés de turnaround”, ou seja, voltada a conter a crise e reestruturar os negócios —o que acabou não ocorrendo.
na época, às TokStok obteve na Justiça aval para uma recuperação extrajudicialcom dívidas de R$ 641,6 milhões. Na extrajudicial, a empresa renegocia um acordo direto com credores e pede homologação do plano ao Judiciário.
A recuperação judicial neste momento do Brasil, afirma o advogado, acaba evidenciando problemas mais profundos do atual ciclo econômico, como o enfraquecimento do consumo, os juros elevados e a dificuldade de acesso ao crédito.
Folha Mercado
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“Essa tríade vem testando fortemente o mercado brasileiro nos últimos tempos e causando a avalanche de pedidos de recuperações judiciais que acompanhamos em diversos segmentos da economia. Com menos dinheiro circulando, o consumidor entra em modo de segurança. Sem geração de caixa e com dificuldade no acesso ao crédito e/ou na rolagem de dívidas, empresas que até podem ser operacionalmente saudáveis vem pedindo recuperação pelo estrangulamento da sua estrutura de capital”, diz Tanus.
Para o advogado Fábio Percegoni, do BVZ Advogados, a recuperação da Tok&Stok tem um peso simbólico “difícil de ignorar”, por se tratar de uma marca que representou o varejo de móveis aspiracional da classe média brasileira.
Em sua leitura, além dos problemas que decorrem das decisões da política monetária aplicada pelo Banco Centralo próprio comportamento do sistema financeiro acaba empurrando as empresas para o calabouço.
Com o aumento da inadimplênciaos bancos ficaram mais seletivos, elevando garantias, encurtando prazos e olhando com desconfiança sobre empresas que apresentam condições de estresse.
Percegoni observa que a reforma da Lei de Recuperações, em 2020, foi um avanço importante porque previu o financiamento de empresas em crise e atribuiu a quem aporta recursos uma posição privilegiada de recebimento —a chamada superprioridade.
No mundo real, diz o advogado, esse instrumento ainda não tem a mesma profundidade de jurisdições maduras. Faltam linhas estruturadas dos bancos de varejo, sobra insegurança jurídica, e falta a criação de um mercado de fundos especializados em ativos estressados.
“A consequência é que muitas empresas chegam à recuperação judicial apresentando um plano que, na prática, não tem como ser executado —porque executar uma reestruturação custa dinheiro, e esse dinheiro precisa vir de algum lugar. Quando não vem, a RJ acaba operando como antessala da falência, e perde-se o valor que o instituto foi desenhado para preservar: emprego, cadeia de fornecedores, recuperação maior aos credores do que numa liquidação.”
Sócia da Tahech Advogados, a advogada Laura Nogarolli diz que a recuperação servirá como um “escudo” para a companhia criar condições de negociar uma saída e implementar a solução adequada para honrar seus compromissos. O instrumento da recuperação judicial, explica ela, é o fôlego para que empresas economicamente viáveis superem crises de liquidez severas e evitem a falência.
“Diante dos fatos expostos pela Companhia e da situação do mercado atual, conclui-se que o ajuizamento da recuperação judicial pelo Grupo Toky é um instrumento jurídico não apenas adequado, mas imperativo frente ao exaurimento das vias negociais extrajudiciais e ao estrangulamento do caixa operacional.”