Por Redacção Hora Certa News
Um intenso debate moderado por Raúl Massingue reuniu o investigador Joseph Hanlon, o jornalista Fernando Lima e o director executivo do CIP, Edson Cortez, para discutir o livro “Moçambique Recolonizado Através da Corrupção”, uma obra que mergulha nas entranhas da história recente do país, expondo a teia de corrupção, influência externa e cumplicidade interna que definem a economia e a política moçambicanas.
Segundo Joseph Hanlon, conhecido investigador da política moçambicana, a crise actual não surgiu do nada.
“O processo da Guerra Fria e a guerra de 16 anos levaram às reuniões com o FMI e o Banco Mundial nos Estados Unidos. O plano de privatização e mercado livre criado nos anos 1990 gerou pobreza e corrupção em Moçambique”, declarou Hanlon, explicando que o objectivo das instituições internacionais “foi sempre o de fazer com que os recursos moçambicanos servissem empresas e países estrangeiros, e não o povo moçambicano”.
Hanlon afirma que, nesse processo, nasceu uma nova classe dominante: os “oligarcas”, administradores locais do novo colonialismo económico.
O moderador Raúl Massingue apresentou em seguida Fernando Lima, veterano jornalista e analista, lembrando que ele “cobriu muitos dos factos relatados no livro – assassinatos, atentados e as intervenções do FMI e Banco Mundial”.
Lima começou por elogiar a obra de Hanlon:
“É uma leitura fascinante. Todo moçambicano devia ler para compreender melhor o que realmente aconteceu nas últimas décadas.”
Contudo, o jornalista fez uma ressalva:
“Discordo profundamente da parte conceptual e opinativa. O Joe tem uma forma de ver o país que desresponsabiliza os moçambicanos. Não foi só o FMI e o Banco Mundial que criaram esta crise. Nós participámos nela.”
Lima comparou a riqueza de fontes de Hanlon à do falecido jornalista Carlos Cardoso, mas frisou que “há um risco em pintar o FMI e o Banco Mundial como uma organização gangster com pistolas apontadas ao governo”.
O director executivo do CIP, Edson Cortez, concordou que o livro é essencial para compreender o presente:
“É uma obra importante, porque mostra as causas estruturais da nossa dependência. Mas é preciso sublinhar que as elites moçambicanas não são vítimas. São protagonistas.”
Cortez acusou as elites de manipular discursos conforme a conveniência:
“Usam o argumento da mão externa quando lhes convém, e o orgulho nacional quando querem proteger os seus privilégios.”
O ponto mais tenso do debate surgiu quando se abordou o papel do FMI e do Banco Mundial na privatização dos bancos moçambicanos.
Fernando Lima afirmou com convicção:
“Sou totalmente a favor da privatização da banca. O BPD e o BCM eram um horror. Havia escândalos de roubalheira em série, e os Caminhos de Ferro eram um grande saco azul da Frelimo.”
Hanlon respondeu prontamente:
“Não foi uma escolha livre. Em 1995, o FMI e o Banco Mundial ameaçaram cortar toda a ajuda se Moçambique não privatizasse rapidamente o BPD. Isso é ter uma pistola apontada à cabeça. Se não obedecessem, haveria fome nas aldeias.”
Hanlon revelou que relatórios internos do Banco Mundial forçaram os bancos a emprestar dinheiro a antigos dirigentes da Frelimo, e que “até a demissão de 10 mil trabalhadores da Caju foi exigência externa”.
Cortez completou:
“As elites da Frelimo foram espertas. Viram que, se a pressão era pela privatização, podiam criar empresas e tornarem-se os beneficiários. Foi o nascimento da oligarquia.”
O moderador perguntou se as instituições financeiras internacionais não teriam feito “vista grossa” à corrupção e ao crime organizado.
Hanlon foi claro:
“O objectivo era criar uma elite rica que servisse os interesses das multinacionais. O FMI e os doadores fecharam os olhos quando Moçambique se tornou corredor de heroína sob Chissano. Nenhum deles protestou.”
Lima, contudo, contrapôs:
“Moçambique não foi obrigado a assinar nada. Havia desilusão com a economia planificada, e o campo socialista abandonou-nos. A Rússia continuou a exigir o pagamento da dívida militar.”
O jornalista lembrou ainda que o Ocidente reagiu em momentos críticos, como o julgamento de Carlos Cardoso e o das dívidas ocultas.
“Esses julgamentos só avançaram porque o FMI e os parceiros internacionais disseram basta.”
Lima associou o tráfico de drogas ao boom imobiliário:
“Os prédios que vemos em Maputo e Nampula não combinam com o nosso PIB. Atrás de cada chinês há um moçambicano.”
Na fase final do debate, Hanlon resumiu a sua tese:
“Os novos colonizadores são as grandes empresas internacionais. Os administradores dessa colonização são os oligarcas moçambicanos. É preciso uma nova luta pela independência.”
Propôs um exemplo concreto:
“Se temos grafite, devemos produzir baterias aqui, e não exportar matéria-prima crua.”
Cortez, por sua vez, apontou o fracasso do governo em preparar o país para a exploração dos seus recursos:
“Em 2010, os parceiros nórdicos sugeriram formar 500 jovens em indústrias extrativas antes de iniciar a exploração. O governo recusou. Disseram: queremos avançar agora, porque a elite queria comer.”
O resultado, segundo ele, foi “um setor sem fiscalização — temos apenas quatro auditores para todo o setor extrativo”.
Fernando Lima alertou para a deterioração do sistema político e económico:
“A economia funciona a meio gás. Se o diálogo político continuar a ser uma mistificação, este sistema vai cair como um castelo de cartas.”
Hanlon reforçou que o verdadeiro problema é o desemprego e a falta de poder popular:
“O que pedem os insurgentes em Cabo Delgado e os jovens nas ruas é o mesmo: trabalho.”
Cortez fez o alerta mais duro da noite:
“Estamos muito próximos de nos tornar um Haiti. As pessoas estão desesperadas. Só não houve uma rebelião porque não há acesso a armas.”
Questionado sobre a libertação de Anibalzinho, condenado pelo assassinato de Carlos Cardoso, Lima respondeu:
“Ele cumpriu mais de 20 anos de prisão. Moçambique não tem prisão perpétua. Foi uma vítima das circunstâncias — os verdadeiros mandantes ficaram impunes.”
Cortez comparou o caso às dívidas ocultas:
“Anibalzinho cumpriu a pena. Mas os responsáveis pelas dívidas ocultas, que empurraram mais de dois milhões de moçambicanos para a pobreza, saíram em pouco tempo.”
Encerrando o debate, Joseph Hanlon deixou um apelo direto:
“Moçambique precisa de uma nova independência. Uma luta menos sectária, menos formal. Ou organizamos essa mudança, ou caímos num colapso como Nepal, Madagascar ou Bangladesh.”
O moderador, Raúl Massingue, agradeceu aos participantes e convidou o público a ler o livro, disponível gratuitamente no site do CIP e na editora.
📘 O livro “Moçambique Recolonizado Através da Corrupção” é um retrato contundente da história recente do país — uma leitura obrigatória para quem quer compreender como a corrupção, a dependência externa e o fracasso político moldaram a Moçambique contemporânea.
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