Quarta-feira, 28 de Outubro de 2026

"Não escolhemos a notícia, escolhemos te informar"

Sociedade

Cabo Delgado: “Não ficamos calados”, diz bispo de…

Cabo Delgado: “Não ficamos calados”, diz o bispo de...


“Nós, como Igreja, não ficamos calados. Não podemos ser coniventes com o que está a acontecer aqui em Cabo Delgado. Neste ano, cerca de 12 cristãos foram decapitados. Esta é uma terra de mártires”, revela D. António Juliasse.

Rui Saraiva – Portugal

Já se passaram nove anos desde o início dos ataques terroristas em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, mas a insegurança continua. Foi no dia 5 de outubro de 2017 que ocorreram os primeiros incidentes naquela região e a lista de mortos e deslocados está aumentando. As estimativas mais recentes apontam para mais de 6600 vítimas fatais e mais de 1 milhão de pessoas deslocadas.

Em entrevista conjunta aos jornalistas Henrique Cunha da Renascença e Octávio Carmo da Agência Ecclesia, Dom António Juliasse, bispo de Pemba, faz um ponto da situação.

P: Têm surgido novas vagas de violência. Julga que não há um fim à vista para esta realidade?

R: Não vejo, ainda, um horizonte para o fim disso em pouco tempo. Espero que apareça. Estamos rezando para que apareça. Não temos nenhuma informação, e o que está acontecendo aqui em campo não nos oferece dados objetivos de que isso esteja chegando ao fim.

P: Olhando para o terreno, quais são as necessidades mais urgentes? Percebe que há sinais de fome ou de piora da desnutrição?

R: Há focos de desnutrição, especialmente entre as crianças, em várias aldeias e também nos campos de reassentamento. Nós, como Igreja, estamos tentando ajudar nos lugares onde estamos, mas há vários problemas, e eles são complexos. Estivemos há pouco tempo, com os bispos da IMBISA, a Reunião Inter-Regional dos Bispos da África Austral, visitando um campo de reassentamento e encontramos uma família de um senhor com dez filhos. A mulher morreu e ele ficou com as crianças. Diz que não tem como alimentá-las ou como dar a elas a possibilidade de irem à escola, porque não tem trabalho nem campo para cultivar. Não consegue mobilizar nada estando em terra alheia e, como nesse caso, o mesmo acontece com muitas outras famílias.

P: É sobretudo à Igreja que as populações mais recorrem. Pergunto-lhe se há áreas de Cabo Delgado às quais a Igreja e as próprias organizações humanitárias já não conseguem chegar.

R: Muitas organizações humanitárias estão impedidas de ir a zonas onde o risco de segurança é considerado muito elevado, sobretudo nestes últimos dias. Muitas estão confinadas às grandes vilas e à cidade de Pemba por causa dos raptos. Houve, pela primeira vez no ano passado, o sequestro de algumas pessoas de organizações não-governamentais e, por causa desse histórico, existe essa interdição. Nestes últimos tempos há muitos raptos para obtenção de resgate e são exigidos valores muito elevados. Por isso, várias organizações não-governamentais já não têm atividades nesses lugares.

P: Sabemos que, na verdade, a situação tende a se complicar. A Conferência Episcopal de Moçambique publicou, em maio, uma nota manifestando solidariedade à Diocese de Pemba e lembrando que o Governo deve garantir dignidade e segurança. Essa nota veio na sequência de um ataque terrorista que reduziu a escombros a missão de São Luís de Monforte. Pergunto se os responsáveis ​​da Igreja Católica sentem que são ouvidos pelo Governo.

R: A Igreja Católica tem emitido alertas desde o início desse conflito, já na época de D. Luís Lisboa, e isso continuou até agora, fazendo ouvir sua voz de tempos em tempos. Até que ponto ela é ouvida, é muito difícil avaliar. Mas a Igreja vai continuar, e tem que continuar, fazendo presente sua voz profética diante dessa situação.

Temos agradecido bastante porque há uma proximidade muito grande da Igreja local de Moçambique com a situação de Cabo Delgado. De tempos a tempos há visitas e encorajamento ao bispo da Diocese de Pemba. Também temos tido uma presença de muita proximidade da Igreja universal, através do Vaticano, do Papa e dos enviados do Papa.

P: Tem dito que a diminuição da atenção mediática não significa uma diminuição do problema. O que está a acontecer hoje em Cabo Delgado que o mundo não está a ver?

R: O país vive um dilema. Precisa de investimentos para fazer face às dificuldades económicas, e falar muito de terrorismo seria fechar as portas ao investimento nas províncias onde não há terrorismo.

Mas, ao mesmo tempo, há aqui um problema muito sério. As pessoas estão a morrer, e ficar calado diante desta situação é ser conivente com as mortes que estão a acontecer e com este sofrimento. É um dilema que deve ser tratado com muita ponderação.

Nós, como Igreja, não ficamos calados. Não podemos ser coniventes com o que está a acontecer aqui em Cabo Delgado. Neste ano, cerca de 12 cristãos foram decapitados. Esta é uma terra de mártires. Tivemos a igreja de São Luís de Monforte destruída. Mas também tem havido muitas crianças raptadas e muitas pessoas raptadas para obtenção de resgate, pelas quais são pagas somas avultadas. Está aqui a acontecer uma situação de que é muito difícil não falar.

P: Diante de tudo que nos relata, o senhor teme que essa guerra venha a cair no esquecimento?

R: Sim. Parece que as pessoas querem novidades. Esta guerra já não é novidade. Já não se fala dela. Foi assim quando começou a guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Quando era novidade, toda a gente falava dela. Agora já está a diminuir a intensidade da informação sobre o que se passa naquela região.

Mas a guerra continua aqui. Devemos nos perguntar sobre a necessidade de um esforço de mobilização de informações, para que as pessoas percebam que a violência continua. É uma violência muito forte. Se não houver essa mobilização, pode facilmente cair no esquecimento.

P: Gostaríamos de falar um pouco sobre a investigação do assassinato de D. Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane. A Conferência Episcopal de Moçambique já cobrou explicações das autoridades. O próprio Papa Leão XIV também falou nesse sentido. Pergunto a ele se houve alguma evolução concreta nos últimos tempos, desde a Assembleia Extraordinária da Conferência Episcopal, e se o crime mudou a sensação de segurança dos padres, bispos e comunidades católicas.

R: Sem dúvida. Na nossa última plenária tivemos de responder à questão da segurança dos bispos em todo o país. Altera, e de que forma. A morte de D. Osório por assassinato é um acontecimento a que nunca tínhamos assistido neste país. Como as razões não estão explicadas e a causa do crime não está esclarecida, isso preocupa-nos cada vez mais.

Não sabemos de onde vem esse mal, se vai afetar mais bispos ou se foi apenas um caso isolado. Isso nos preocupa bastante, assim como a falta de esclarecimento. Temos dito sempre que a verdade deve ser encontrada. O povo, todo o povo moçambicano, e nós cristãos precisamos ser esclarecidos sobre as circunstâncias da morte de D. Osório.

Jesus Cristo seja louvado

Ouça qui a reportagem e compartilhe

Obrigado por ler este artigo. Se você quiser se manter atualizado, assine nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.



“Nós, como Igreja, não ficamos calados. Não podemos ser coniventes com o que está a acontecer aqui em Cabo Delgado. Neste ano, cerca de 12 cristãos foram decapitados. Esta é uma terra de mártires”, revela D. António Juliasse.

Rui Saraiva – Portugal

Já se passaram nove anos desde o início dos ataques terroristas em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, mas a insegurança continua. Foi no dia 5 de outubro de 2017 que ocorreram os primeiros incidentes naquela região e a lista de mortos e deslocados está aumentando. As estimativas mais recentes apontam para mais de 6600 vítimas fatais e mais de 1 milhão de pessoas deslocadas.

Em entrevista conjunta aos jornalistas Henrique Cunha da Renascença e Octávio Carmo da Agência Ecclesia, Dom António Juliasse, bispo de Pemba, faz um ponto da situação.

P: Têm surgido novas vagas de violência. Julga que não há um fim à vista para esta realidade?

R: Não vejo, ainda, um horizonte para o fim disso em pouco tempo. Espero que apareça. Estamos rezando para que apareça. Não temos nenhuma informação, e o que está acontecendo aqui em campo não nos oferece dados objetivos de que isso esteja chegando ao fim.

P: Olhando para o terreno, quais são as necessidades mais urgentes? Percebe que há sinais de fome ou de piora da desnutrição?

R: Há focos de desnutrição, especialmente entre as crianças, em várias aldeias e também nos campos de reassentamento. Nós, como Igreja, estamos tentando ajudar nos lugares onde estamos, mas há vários problemas, e eles são complexos. Estivemos há pouco tempo, com os bispos da IMBISA, a Reunião Inter-Regional dos Bispos da África Austral, visitando um campo de reassentamento e encontramos uma família de um senhor com dez filhos. A mulher morreu e ele ficou com as crianças. Diz que não tem como alimentá-las ou como dar a elas a possibilidade de irem à escola, porque não tem trabalho nem campo para cultivar. Não consegue mobilizar nada estando em terra alheia e, como nesse caso, o mesmo acontece com muitas outras famílias.

P: É sobretudo à Igreja que as populações mais recorrem. Pergunto-lhe se há áreas de Cabo Delgado às quais a Igreja e as próprias organizações humanitárias já não conseguem chegar.

R: Muitas organizações humanitárias estão impedidas de ir a zonas onde o risco de segurança é considerado muito elevado, sobretudo nestes últimos dias. Muitas estão confinadas às grandes vilas e à cidade de Pemba por causa dos raptos. Houve, pela primeira vez no ano passado, o sequestro de algumas pessoas de organizações não-governamentais e, por causa desse histórico, existe essa interdição. Nestes últimos tempos há muitos raptos para obtenção de resgate e são exigidos valores muito elevados. Por isso, várias organizações não-governamentais já não têm atividades nesses lugares.

P: Sabemos que, na verdade, a situação tende a se complicar. A Conferência Episcopal de Moçambique publicou, em maio, uma nota manifestando solidariedade à Diocese de Pemba e lembrando que o Governo deve garantir dignidade e segurança. Essa nota veio na sequência de um ataque terrorista que reduziu a escombros a missão de São Luís de Monforte. Pergunto se os responsáveis ​​da Igreja Católica sentem que são ouvidos pelo Governo.

R: A Igreja Católica tem emitido alertas desde o início desse conflito, já na época de D. Luís Lisboa, e isso continuou até agora, fazendo ouvir sua voz de tempos em tempos. Até que ponto ela é ouvida, é muito difícil avaliar. Mas a Igreja vai continuar, e tem que continuar, fazendo presente sua voz profética diante dessa situação.

Temos agradecido bastante porque há uma proximidade muito grande da Igreja local de Moçambique com a situação de Cabo Delgado. De tempos a tempos há visitas e encorajamento ao bispo da Diocese de Pemba. Também temos tido uma presença de muita proximidade da Igreja universal, através do Vaticano, do Papa e dos enviados do Papa.

P: Tem dito que a diminuição da atenção mediática não significa uma diminuição do problema. O que está a acontecer hoje em Cabo Delgado que o mundo não está a ver?

R: O país vive um dilema. Precisa de investimentos para fazer face às dificuldades económicas, e falar muito de terrorismo seria fechar as portas ao investimento nas províncias onde não há terrorismo.

Mas, ao mesmo tempo, há aqui um problema muito sério. As pessoas estão a morrer, e ficar calado diante desta situação é ser conivente com as mortes que estão a acontecer e com este sofrimento. É um dilema que deve ser tratado com muita ponderação.

Nós, como Igreja, não ficamos calados. Não podemos ser coniventes com o que está a acontecer aqui em Cabo Delgado. Neste ano, cerca de 12 cristãos foram decapitados. Esta é uma terra de mártires. Tivemos a igreja de São Luís de Monforte destruída. Mas também tem havido muitas crianças raptadas e muitas pessoas raptadas para obtenção de resgate, pelas quais são pagas somas avultadas. Está aqui a acontecer uma situação de que é muito difícil não falar.

P: Diante de tudo que nos relata, o senhor teme que essa guerra venha a cair no esquecimento?

R: Sim. Parece que as pessoas querem novidades. Esta guerra já não é novidade. Já não se fala dela. Foi assim quando começou a guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Quando era novidade, toda a gente falava dela. Agora já está a diminuir a intensidade da informação sobre o que se passa naquela região.

Mas a guerra continua aqui. Devemos nos perguntar sobre a necessidade de um esforço de mobilização de informações, para que as pessoas percebam que a violência continua. É uma violência muito forte. Se não houver essa mobilização, pode facilmente cair no esquecimento.

P: Gostaríamos de falar um pouco sobre a investigação do assassinato de D. Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane. A Conferência Episcopal de Moçambique já cobrou explicações das autoridades. O próprio Papa Leão XIV também falou nesse sentido. Pergunto a ele se houve alguma evolução concreta nos últimos tempos, desde a Assembleia Extraordinária da Conferência Episcopal, e se o crime mudou a sensação de segurança dos padres, bispos e comunidades católicas.

R: Sem dúvida. Na nossa última plenária tivemos de responder à questão da segurança dos bispos em todo o país. Altera, e de que forma. A morte de D. Osório por assassinato é um acontecimento a que nunca tínhamos assistido neste país. Como as razões não estão explicadas e a causa do crime não está esclarecida, isso preocupa-nos cada vez mais.

Não sabemos de onde vem esse mal, se vai afetar mais bispos ou se foi apenas um caso isolado. Isso nos preocupa bastante, assim como a falta de esclarecimento. Temos dito sempre que a verdade deve ser encontrada. O povo, todo o povo moçambicano, e nós cristãos precisamos ser esclarecidos sobre as circunstâncias da morte de D. Osório.

Jesus Cristo seja louvado

Ouça qui a reportagem e compartilhe

Obrigado por ler este artigo. Se você quiser se manter atualizado, assine nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.

Accessibility