A entrada de Venâncio Mondlane no Conselho de Estado reacendeu debates intensos sobre o real papel deste órgão em Moçambique e sobre a postura política do recém-nomeado membro.
De um lado, Mondlane apresenta-se como voz da oposição e defensor dos interesses do povo. Do outro, críticos levantam dúvidas sobre se a sua presença não se resume a uma estratégia de sobrevivência política, em vez de um verdadeiro exercício de representação popular.
O Papel do Conselho de Estado
O Conselho de Estado é, por definição constitucional, um órgão consultivo do Presidente da República. A sua missão principal não é legislar nem fiscalizar, mas aconselhar o Chefe de Estado em decisões de grande relevância nacional. Nessa perspectiva, o espaço de ação de qualquer conselheiro é limitado e mediado pela figura presidencial.
É neste contexto que surge a afirmação do jornalista e analista político Salomão Moyana, que sintetiza uma visão crítica:
“O Conselho de Estado não defende o povo, defende o Presidente.”
Esta leitura coloca em causa a narrativa de Mondlane, que tem repetidamente declarado que está neste órgão para defender o povo.
Defender o povo ou defender-se?
A contradição instala-se justamente aqui. Se, por um lado, Mondlane afirma que a sua presença é uma extensão da luta pelo interesse público, por outro, a estrutura legal do Conselho limita-o a uma posição essencialmente consultiva e não vinculativa.
Deste modo, levantam-se questões legítimas:
- Será que Mondlane conseguirá usar a sua presença para influenciar decisões presidenciais em benefício do povo?
- Ou será que a sua participação funciona mais como um escudo político e simbólico, garantindo-lhe visibilidade, protecção institucional e legitimidade enquanto Presidente Interino do Partido ANAMOLA?
O dilema da representatividade
Há ainda um dilema maior: representatividade versus utilidade prática. Mesmo que Mondlane leve a voz crítica da oposição para dentro do Conselho, o impacto real das suas intervenções pode ser reduzido pelo carácter não deliberativo do órgão.
Assim, corre-se o risco de o seu papel ser mais simbólico do que transformador.
A análise de Moyana não pode ser descartada: o Conselho de Estado, de facto, não é uma arena popular, mas um espaço de aconselhamento presidencial. Mondlane, ao afirmar que está lá para defender o povo, confronta-se com um paradoxo.
Na prática, o que pode acontecer é que ele esteja antes a defender a sua posição política, a sua imagem de opositor relevante e a sobrevivência estratégica do ANAMOLA.
Resta acompanhar os próximos meses para perceber se Mondlane será capaz de romper com a lógica habitual do Conselho de Estado e transformar a sua presença num megafone simbólico em favor da população, ou se confirmará as previsões de que está lá sobretudo para se defender e reforçar o seu próprio capital político.





