Sociólogo critica lealdade cega ao sistema e questiona sentido das celebrações dos 50 anos da Independência

As celebrações dos 50 anos da independência de Moçambique, realizadas a 25 de Junho, continuam a suscitar olhares críticos de vários sectores da sociedade. Num vídeo recentemente publicado no YouTube, um sociólogo moçambicano — cuja identidade não foi revelada na plataforma — fez uma análise profunda sobre o actual estado político e social do país, traçando paralelos entre a geração da luta armada e a juventude contemporânea. A sua intervenção levanta questões estruturais sobre a lealdade ao sistema político instaurado desde 1975.

“Estas não foram as melhores celebrações possíveis”, afirmou o sociólogo, apontando críticas directas ao partido no poder. “A Frelimo privatizou a efeméride, preferindo usar o momento para celebrar a entrada triunfal, em veículo aberto ao estilo do Papa, do presidente da República”.

Segundo o analista, esse tipo de encenação contrasta com o espírito inclusivo que devia caracterizar a celebração de meio século de independência nacional.

“Ficou mal aos olhos de muitos. Foi uma cerimónia completamente desfasada de uma festa que devia ter sido de todos.”

Desilusão juvenil e a ironia do 25 de Junho

O discurso do sociólogo ecoa o sentimento de frustração generalizada entre a juventude moçambicana, que, passados 50 anos, ainda vive sob o peso de desafios históricos como pobreza, exclusão social e desigualdade económica.

“Para muitos jovens, o 25 de Junho soa a uma ironia. Sentem-se traídos por uma promessa que acham não ter sido cumprida”, declarou.

De forma ilustrativa, partilhou o testemunho de um jovem angolano que, ao felicitar amigos moçambicanos pelo Dia da Independência, recebeu como resposta um meme com os dizeres:

“Feliz dia da substituição do colono.”

Protesto juvenil e a herança da violência

O sociólogo ligou a frustração da juventude às manifestações pós-eleitorais de 2023, nas quais a violência estatal foi amplamente documentada.

“Uma das maiores vitórias da Frelimo foi convencer esta geração de que a mudança só é possível com a violência”, acusou.

O discurso oficial, segundo ele, promove a ideia de que “ninguém deve nada a ninguém”, que “quem pensa diferente é inimigo do povo”, e que “a construção só se pode fazer a partir dos escombros do presente”.

“Isso é a Frelimo no seu pior. Não é a Frelimo da luta anticolonial. Não é a gloriosa de 1975 e, sobretudo, de 1977”, sublinhou, distinguindo a actual governação do passado revolucionário.

Nova geração repete vícios da velha ordem

Apesar do discurso de ruptura, o sociólogo acredita que a juventude moçambicana está a reproduzir os mesmos comportamentos que critica nas elites políticas.

“Há um ruído de desacordo que acompanhou a festa da independência, mas muitos jovens que gritam contra os velhos imitam os seus gestos, repetem os seus vícios, copiam a sua forma de mandar e de excluir.”

Segundo ele, a herança deixada não foi apenas discursiva:

“A nova geração herdou os seus silêncios, os seus tabus e as suas obediências.”

O sociólogo denuncia ainda uma inversão de valores na forma como a sociedade reconhece autoridade e legitimidade.

“Em 1975, dez anos de luta armada valiam mais que um diploma universitário, independentemente do assunto em discussão. Hoje, a indignação também vale mais do que anos de estudo e pesquisa.”

De modo irónico, criticou a pressão sobre os académicos:

“Um professor associado que não grite ‘Anamalala’ passa a ser considerado um académico menor aos olhos dos seus próprios estudantes.”

Sistema acima dos ideais: a armadilha da lealdade institucional

Num dos trechos mais contundentes, o sociólogo alerta que o sistema político montado pela Frelimo para proteger a liberdade acabou por tornar-se um obstáculo aos próprios ideais fundadores.

“Criou-se um ambiente político em que a lealdade ao sistema passou a ser mais importante do que a lealdade aos ideais que ele devia proteger.”

Segundo ele, grande parte da juventude dentro do partido é hoje “mais fiel ao aparelho do poder do que àquilo pelo qual se lutou no passado”.

Essa fidelidade institucional teria impacto directo no desempenho do actual Chefe de Estado, limitando as suas possibilidades de reforma.

“É essa lealdade ao aparelho que impede o actual presidente de elaborar um projecto verdadeiramente transformador. Isso exigiria uma reforma profunda da própria Frelimo.”

Venâncio Mondlane e a política messiânica

O sociólogo invocou o nome do político Venâncio Mondlane como expressão de uma visão trágica da política moçambicana contemporânea.

“Com a sua visão messiânica da política, Venâncio Mondlane acredita que só ele ou só quem pensa como ele está verdadeiramente comprometido com o bem comum.”

Durante as manifestações violentas, acrescenta, Venâncio Mondlane terá demonstrado que: “os fins estão acima dos meios” — um comportamento que o sociólogo descreve como parte da “lealdade ao aparelho, e não aos ideais”.

“Ele representa a Frelimo na sua versão trágica.”

Independência como ponto de partida

No fecho da sua intervenção, o sociólogo convidou à reflexão sobre o verdadeiro sentido da independência.

“A independência foi um começo, não uma conclusão. Para que se torne real, cada geração tem de assumi-la como sua.”

Esse processo, afirmou, exige coragem intelectual e política:

“É preciso coragem para pensar de outro modo, para imaginar novos caminhos, para romper até com os hábitos que nos fazem sentir rebeldes.”

Concluiu com uma frase emblemática sobre o uso da liberdade:

“A liberdade não está apenas em levantar a voz. A liberdade está, sobretudo, em saber o que se quer dizer.”

Mais do autor

Bernardino Rafael ouvido na PGR por alegadas ordens de repressão violenta nas manifestações pós-eleitorais

Como Candidatar-se a uma Vaga na Electricidade de Moçambique (EDM)