— Quem é o aventureiro Jota Lopes?
— Dentro e fora do futebol, sou tranquilo, alegre, trabalhador e sonho em grande.
— Como começou sua trajetória no futebol?
— Comecei a jogar com cinco anos no Gil Vicente e fiquei até os nove. Seguiram-se três anos nas escolas do Benfica, em Braga, até ir para o SC Braga, onde fiz a maior parte da minha formação e joguei contra jogadores que hoje jogam na elite do futebol mundial, como Vitinha, Gonçalo Ramos, Alexandre Penetra, que depois acabou jogando comigo no Famalicão…
— No Famalicão fez a transição para o sênior, jogou na Liga Revelação e depois foi para o Maria da Fonte. Como foi o percurso, a partir daí?
— No último ano de contrato com o Famalicão, depois de ter feito duas pré-temporadas com a equipe principal, deixei de fazer parte do projeto do clube e busquei novas oportunidades. Maria da Fonte confiou em mim e era o que eu precisava. Consegui fazer uma boa meia temporada e surgiu a oportunidade do Fontinhas na Liga 3, em fevereiro de 2023, no final do mercado. Depois de quatro jogos, tive o momento mais difícil da carreira: estava muito bem, cheguei e fiz logo com uma assistência, no segundo jogo fiz gol, ganhei a titularidade, até que, antes de uma partida em que seria titular novamente, rompi o menisco e os ligamentos, no último lance do treino. Foi duro, pensei em desistir do futebol. Fiquei nove meses parado. Psicologicamente, eu desci, mas ainda tinha o sonho de fazer algo a mais e consegui superar.
— Depois no Salgueiros recuperou a forma…
— Sim, faço duas temporadas boas no Salgueiros e, no início de 2025/26, surgiu o Vila Meã, numa história engraçada, em que antes tinha tido várias propostas do Campeonato de Portugal e até algumas abordagens da Liga 3… No entanto, tinha ido para uma experiência na Romênia. Eu ia entrar no futebol romeno, mas as coisas não correram bem e voltei…
Jota Lopes teve passagem curta, mas marcante pelo Vila Meã
— Para que clube ia, na Roménia?
— Fiz teste para vários clubes e tinha interessados da segunda e primeira divisão. Porém, como nada estava definido, decidi voltar para Portugal. Podia ainda surgir qualquer coisa lá, mas decidi não aguardar e fui para o Vila Meã. Tem uma pessoa que me marca muito nessa fase, que é o mister Pedro Campos. Ele me ligou por três semanas seguidas, senti muita vontade de me ter no clube e arrisquei. Foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado.
— Como surge, então, a oportunidade de ir para a Bulgária?
— No Vila Meã, foi muito bom, consegui ter o destaque que precisava. Fizemos uma boa campanha na Taça de Portugal, estávamos em terceiro lugar, com um time que tinha acabado de ser repescado das distritais da AF Porto. Meu empresário já tinha um jogador na Bulgária, o Berna Couto… Ele também estava no Spartak Varna, mas se transferiu em janeiro para o CSKA 1948. O clube estava procurando novos jogadores, o empresário me indicou, eles gostaram e me contrataram. No dia 31 de dezembro, quase na virada do ano, recebi a ligação e resolvi fazer as malas para a Bulgária. Cheguei no dia 5 de janeiro, na pior época, do frio [risos].
— Hesitou em ir?
— Não. Eu sabia que, provavelmente, com a temporada que estava fazendo no Vila Meã, poderia dar o salto dentro de Portugal. No entanto, sinto que se dão poucas oportunidades aos jovens portugueses. Deveriam jogar mais, por exemplo, na Liga 2, que tem poucos jovens portugueses e muitos estrangeiros. Acho que temos bastante qualidade, já provamos isso. Já estava mentalizado que era melhor buscar uma oportunidade fora, por ser mais vantajoso nessa fase da minha carreira. Além disso, jogar em uma primeira liga é sempre diferente do que jogar na Liga 3.
— Vai para o Spartak Varna, uma equipa que já foi campeã na Bulgária [1932]. Como foi recebido?
— Foi melhor do que estava à espera, o clube recebeu-me super bem. Havia três brasileiros e é muito mais fácil quando tens pessoas da tua língua a ajudar-te. Mas mesmo as pessoas do clube acarinharam-me bastante. Até tenho uma história engraçada, em que o roupeiro, quando cheguei, simpatizou comigo e entregou-me a camisola 10, dizendo-me que eu tinha de ser o número 10.
— Foi o roupeiro que escolheu a sua camisola 10?
— Eu ia escolher o número e ele disse que a camisola 10 estava livre e que tinha de ser eu.
— Já tinha falado com ele ou foi simpatia à primeira vista?
— Não, nunca tinha falado com ele. Foi do nada.
— Saltando uns meses, teve visitas especiais num jogo de máxima importância…
— Sim, dois amigos vieram ver o jogo em que garantimos a manutenção e dizem que é uma experiência que nunca vão esquecer na vida.
O histórico Spartak Varna logrou manutenção no último jogo da liga. Jota Lopes viveu um momento para nunca mais esquecer – Foto: DR
— Como foi esse jogo? Conseguiram a manutenção já depois do apito final, a depender de outros jogos…
— Antes do jogo, dava para sentir aquela tensão… Eu achava que, pelo menos, no mata-mata a gente ia chegar, porque acreditava que um dos outros times ia perder pontos. Porém, nunca pensei que as duas fossem perdê-los. O jogo começou, marcamos um gol cedo, mas a torcida não parava de comemorar e percebemos que estavam comemorando gols de outros jogos. Foi uma sensação inexplicável, porque eu não sabia o que exatamente está acontecendo. Septemvri conseguiu permanecer no play-off, mas no intervalo estava vencendo Dobrudja por 1 a 0 e permaneceu na primeira liga e estávamos indo para o play-off porque Beroe estava perdendo para Botev Vratsa. Nisso, o Septemvri Sofia sofreu o 1 a 1 e depois teve um pênalti para acabar e o jogador, na recarga, falhou de gol aberto.
— E vocês estavam a ver isso?
— Esse momento não, ainda foi durante nosso jogo, mas entendemos qualquer coisa pela reação da torcida. Conseguimos ver os últimos cinco minutos, quando achei que meu coração fosse parar… A torcida se juntou ao campo e estávamos todos assistindo ao outro jogo pelo celular.
Jota Lopes se destacou na Bulgária e ganhou carinho da torcida – Foto: Spartak Varna
— Desde que chegou, fez 18 jogos, 17 deles a titular. Que importância teve nesse objetivo da manutenção?
— Fui importante para o time. Me adaptei fácil e consegui ser titular logo. Eu não esperava, mas a pré-temporada de inverno correu bem e tive a oportunidade. Consegui fazer um primeiro jogo bastante bom. Foi uma experiência incrível, jogamos para cinco ou seis mil torcedores contra nosso maior rival na cidade, o Cherno More. Logo vivi essa experiência intensa no primeiro jogo. No segundo, fiz meu primeiro gol. No terceiro, voltei a marcar e dar pontos importantes. Mas não foi só pela parte dos gols, acho que consegui ajudar o time, no geral.
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