Roberto Cabrini entra na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro e revela os bastidores da operação militar, o silêncio da oposição e o clima de medo em Caracas.

Queda de Maduro: Roberto Cabrini revela bastidores da operação e o clima de medo na Venezuela

A Venezuela atravessa um dos períodos mais críticos da sua história contemporânea. Dias após a captura do presidente Nicolás Maduro, o jornalista brasileiro Roberto Cabrini tornou-se o único repórter do Brasil a entrar no país para documentar, no terreno, o ambiente político, social e militar que se instalou em Caracas após o colapso do regime.

Durante quatro dias, Cabrini percorreu zonas estratégicas da capital e regiões fronteiriças, recolhendo testemunhos de civis, autoridades locais e fontes directas ligadas à operação militar que resultou na detenção de Maduro. O retracto apresentado revela um país dominado pelo silêncio, pelo medo e pela incerteza.

A incursão teve início em Cúcuta, na Colômbia, onde dezenas de jornalistas internacionais permaneciam impedidos de atravessar a fronteira. Após seis horas de interrogatórios e verificações rigorosas, Roberto Cabrini e o cinegrafista Lumes Única obtiveram autorização para entrar em território venezuelano.

Segundo o jornalista, a decisão de avançar teve como objectivo responder a questões fundamentais sobre o novo momento político do país.
“Existem perguntas que precisam de respostas: qual é a situação da oposição neste momento? Ela consegue manifestar-se? Quem ainda apoia Nicolás Maduro?”, afirmou.

A primeira paragem foi San Antonio del Táchira, onde o ambiente era marcado por conversas discretas e pelo choque colectivo diante da queda de um líder que governou a Venezuela durante quase 13 anos. A equipa seguiu depois para Caracas, uma cidade de cerca de três milhões de habitantes, agora sob vigilância constante.

A reportagem reconstituiu os 47 segundos que mudaram o curso da história venezuelana. A operação militar, denominada “Determinação Absoluta”, ocorreu na madrugada de 3 de Janeiro e teve como alvo principal o complexo militar de Fuerte Tiuna.

Às 03h30, forças especiais norte-americanas capturaram Nicolás Maduro e a sua esposa, Cília Flores, numa residência fortificada. Cabrini revelou detalhes do momento da captura:
“No momento do ataque americano, Nicolás Maduro estava a ser protegido por 32 soldados cubanos. Todos morreram”, relatou.

De acordo com a investigação jornalística, o casal tentou refugiar-se num bunker subterrâneo, mas foi interceptado. Maduro e Cília Flores foram levados de helicóptero para o navio USS Iwo Jima e, posteriormente, transferidos para um avião Boeing 757, com destino ao Centro de Detenção do Brooklyn, em Nova Iorque.

A ofensiva militar estendeu-se a outras infra-estruturas estratégicas. A Base Aérea de La Carlota foi atingida, resultando na destruição de sistemas antiaéreos, aeronaves e helicópteros. No entanto, os ataques também causaram danos graves à população civil.

No Porto de La Guaira, um edifício residencial de três andares foi completamente destruído, causando a morte de Rosa González, de 80 anos. O chefe local dos bombeiros, que residia na área, descreveu o cenário vivido pela comunidade.
“Foi um momento extremamente difícil. Nunca enfrentámos uma situação como esta”, afirmou.

Outro morador, José Rodríguez, relatou o impacto psicológico do ataque.
“Ouvi uma explosão forte e depois outra. Não estávamos preparados”, disse.

A reportagem expôs ainda os profundos contrastes sociais de Caracas. Enquanto bairros como Las Mercedes e Lagunita mantêm mansões de luxo e restaurantes de alto padrão, cerca de metade da população vive em zonas precárias espalhadas pelas colinas da cidade.

No bairro 23 de Janeiro, tradicional bastião do chavismo e base dos chamados “colectivos”, ainda se observam manifestações de apoio ao antigo regime, sustentadas por programas sociais herdados dos governos anteriores.

Apesar da captura de Maduro, a oposição permanece praticamente ausente do espaço público. Manifestações são proibidas e qualquer tentativa de contestação pode resultar em detenção imediata.

O prefeito de La Guaira, José Manuel Soares, um dos apoiantes remanescentes do chavismo, declarou:
“Há democracia na Venezuela. O nosso presidente é democrático.”

Actualmente, o país vive sob um estado de comoção, regime que restringe direitos fundamentais e impede protestos. Na prisão de El Helicoide, mais de 800 presos políticos continuam detidos, com libertações pontuais anunciadas apenas como gesto diplomático.

Ao final da tarde, por volta das 17 horas, Caracas esvazia-se rapidamente e a presença policial torna-se dominante.
“O nosso trabalho aqui é filmar e sair. Nunca podemos ficar muito tempo no mesmo lugar”, relatou Cabrini.

A equipa deixou a Venezuela em direcção ao Panamá, encerrando uma cobertura que expõe um país dividido, onde a queda do poder central ainda não significou o fim da repressão nem do medo.

Venezuela após Maduro: a queda do regime não significa o fim do medo

A captura de Nicolás Maduro marca o fim formal de um ciclo político na Venezuela, mas está longe de representar uma ruptura imediata com as estruturas que sustentaram o regime durante mais de uma década. A reportagem de Roberto Cabrini deixa claro que o poder não desapareceu; apenas mudou de forma.

O silêncio imposto à oposição, a manutenção do estado de exceção e a presença constante das forças de segurança indicam que a transição venezuelana ocorre sob forte controlo militar e político. A ausência de manifestações públicas não traduz estabilidade, mas sim receio.

Outro aspecto revelador é a permanência do chavismo em territórios simbólicos como o bairro 23 de Janeiro. Mesmo com o colapso da liderança central, a base social do regime continua activa, alimentada por dependência económica e por uma narrativa política que ainda encontra eco em sectores da população.

A operação militar estrangeira, embora decisiva, deixou marcas profundas, sobretudo entre civis. A morte de inocentes e a destruição de infra-estruturas residenciais levantam questões sobre os custos humanos das intervenções armadas, mesmo quando justificadas por objectivos políticos maiores.

A Venezuela de hoje é um país suspenso entre o passado autoritário e um futuro ainda indefinido. A queda de Maduro não encerra a crise. Apenas inaugura uma nova fase, mais silenciosa, mais tensa e potencialmente mais perigosa.

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