PR Moçambicano em Entrevista à ONU News

Moçambique vive um momento de reflexão e projecção internacional. Pela primeira vez, o Presidente Daniel Chapo concede uma entrevista à ONU News, no contexto da sua histórica visita às Nações Unidas, coincidindo com o 50.º aniversário da independência do país e os 80 anos da ONU.

Em uma conversa franca e detalhada, o chefe de Estado aborda temas cruciais para Moçambique e para a África: o multilateralismo, a importância do Conselho de Segurança da ONU, a segurança em Cabo Delgado, o diálogo nacional inclusivo, a gestão de desastres naturais, o impacto das mudanças climáticas e o papel estratégico da língua portuguesa na CPLP e no mundo.

A entrevista revela um Presidente jovem, consciente dos desafios e oportunidades, comprometido com a paz, o desenvolvimento sustentável e a justiça climática, mas também atento ao poder e aos riscos das redes sociais na política contemporânea.

A seguir, confira a íntegra da entrevista com o Presidente Daniel Chapo.

Monica Grayley (ONU News): Olá, bem-vindos à ONU News em português. Eu sou Mônica Greile e, comigo no estúdio, está o Presidente de Moçambique, Daniel Chapo. Presidente, que alegria tê-lo aqui pela primeira vez na ONO News e também na sua primeira visita às Nações Unidas.

Presidente Daniel Chapo: Muito obrigado. Para nós, e para mim em particular, é uma honra. Realmente, é a primeira vez que estamos aqui na sede das Nações Unidas e também na ONU News.

Monica Grayley: Presidente, que mensagem o senhor traz nesta estreia no debate geral da Assembleia Geral?

Presidente Daniel Chapo: A mensagem que estamos a trazer é sobre a importância do multilateralismo. Há um debate a nível global de que algumas pessoas pensam que o multilateralismo está praticamente em decadência e dão mais importância a questões bilaterais. Mas nós, em Moçambique, acreditamos que é importante reforçar esta organização — a ONU — que este ano celebra 80 anos, num ano em que Moçambique faz 50 anos de independência. É uma coincidência feliz, e achamos fundamental trazer esta grande mensagem ao mundo: continuar a dar importância ao multilateralismo.

Monica Grayley: E o senhor, sendo um político jovem, ainda mais jovem que a média dos seus pares na África, como defenderia a importância da ONU para a sua geração e para as novas gerações?

Presidente Daniel Chapo: A importância da ONU, tanto para a minha geração como para as gerações vindouras, está naquilo que disse o Secretário-Geral das Nações Unidas, Engenheiro António Guterres, na iniciativa UN80, que é extremamente importante.

Acho que é um dos maiores legados que ele vai deixar como líder: a necessidade de alguma reforma, embora com prudência, da instituição. É crucial, por exemplo, a integração da África no Conselho de Segurança das Nações Unidas, porque são questões extremamente importantes. Não há desenvolvimento sem paz e segurança. A África precisa desenvolver, e para desenvolver precisa de paz e segurança. Não se pode desenvolver sem estar inserida nesse grande órgão que toma decisões globais.

Essa é, portanto, a grande mensagem que queria deixar para a juventude: pensarmos numa ONU do futuro. O Engenheiro António Guterres já lançou a semente; cabe a nós regá-la, acarinhá-la e fazê-la crescer, para termos uma ONU do futuro.

Monica Grayley: Quando se fala em Conselho de Segurança, Moçambique realmente fala com propriedade. O país venceu a eleição com todos os votos da casa, por unanimidade, não é verdade?

Presidente Daniel Chapo: Exactamente. Fizemos uma grande campanha no Conselho, abordando questões de paz e segurança.

Monica Grayley: Vamos falar um pouco sobre o Norte do seu país, que enfrenta um conflito violento numa região rica em recursos naturais e que está a ser alvo de ataques de extremistas islâmicos ou agentes estrangeiros. Presidente, qual a estratégia para trazer paz a essa área?

Presidente Daniel Chapo: Esta é uma pergunta muito importante, e a sua leitura é perfeita. Em Cabo Delgado, Norte da província, temos descobertas de recursos naturais, principalmente gás. Existem três projectos principais: com a ENI, italiana, temos o Coral Sul e Coral Norte, avaliados em cerca de 14 mil milhões de dólares; com a Total, francesa, cerca de 15 mil milhões; e com a Exxon, americana, cerca de 20 mil milhões. No total, são cerca de 50 mil milhões de dólares em projectos.

Infelizmente, desde 2017 temos sofrido ataques terroristas. Inicialmente, os terroristas chegaram a ocupar vilas sedes na zona Norte, como Mocímboa da Praia e Macomia. Mas com a intervenção da SAMIM, a força regional da SADC, e das Forças Armadas de Moçambique e do Ruanda, conseguimos melhorar a situação de segurança. As vilas já não estão ocupadas, mas os ataques continuam esporádicos, principalmente em aldeias próximas.

A estratégia para controlar a situação é continuar a trabalhar com forças amigas, como Ruanda e Tanzânia, sempre em coordenação connosco. Paralelamente, procuramos perceber o fenómeno: motivações, lideranças e logística. Moçambique é um país de diálogo. Após 16 anos de guerra, assinámos o Acordo Geral de Paz em 1992. Actualmente, lançámos um diálogo nacional inclusivo, iniciado em 10 de Setembro, envolvendo todos os moçambicanos — partidos políticos, academia, sociedade civil e lideranças religiosas.

Enquanto combatemos o terrorismo no terreno, procuramos também soluções através do diálogo, que é a base para a resolução de problemas em Moçambique. Não há desenvolvimento possível sem paz e segurança.

Monica Grayley: E este diálogo, como vai acontecer na prática?

Presidente Daniel Chapo: Fizemos um lançamento nacional em 10 de Setembro. Se tudo correr conforme o calendário, na primeira semana de Outubro seguirá para as províncias — Moçambique tem 11 províncias, incluindo a capital — e depois para distritos e municípios. O debate envolve mulheres e jovens, que constituem a maioria da população moçambicana.

Monica Grayley: Presidente, vamos falar agora sobre resiliência e determinação, porque não é só a questão do Norte do país. Também enfrentam desastres naturais.

Presidente Daniel Chapo: Exacto. Moçambique tem uma experiência enorme na gestão de calamidades. Fomos eleitos pela União Africana como campeões de desastres naturais, devido ao nosso sistema de aviso prévio. Comunidades locais são alertadas através de rádios comunitárias e comités de gestão de risco em línguas locais. Este sistema permite minimizar o número de mortes, mesmo em fenómenos de grande dimensão.

As mudanças climáticas são uma realidade. O Secretário-Geral António Guterres tem alertado para o aquecimento global e aumento do nível do mar. Nós, em Moçambique, sentimos na pele os efeitos todos os anos.

Monica Grayley: Como vai Moçambique chegar à COP30? Qual a proposta do país?

Presidente Daniel Chapo: Moçambique leva à COP30 a necessidade de financiamento climático. Existem países que poluem muito e afectam outros países, como Moçambique, que praticamente não polui, mas sofre as consequências. É essencial discutir esta questão e promover justiça climática global.

Monica Grayley: Muitos discursos terminam em palavras e poucas ações. Há como transformar estas reuniões em política prática?

Presidente Daniel Chapo: Concordo plenamente. Defendo a importância da ONU como um mecanismo multilateral. Sem este fórum, as decisões seriam dominadas pelos mais fortes. Devemos passar da palavra para a ação. Em Moçambique, já aprovámos uma estratégia de financiamento climático ao nível do Conselho de Ministros, mas precisamos continuar a garantir justiça global.

Monica Grayley: Por fim, o senhor é a prova da força da juventude. Há preocupação com o impacto das redes sociais no debate político?

Presidente Daniel Chapo: Sim. As redes sociais podem difundir fake news e manipular informação. Com a inteligência artificial, a situação piorou globalmente. É fundamental fortalecer meios de comunicação tradicionais, como a ONO News, para garantir que a informação é real e verificada. Precisamos trabalhar para aproveitar o lado positivo das redes sociais e combater os efeitos negativos, como a convocação de manifestações violentas.

Monica Grayley: Ano que vem a CPLP completa 30 anos. O que espera para a língua portuguesa neste contexto?

Presidente Daniel Chapo: Espero que a CPLP seja uma verdadeira comunidade, baseada em solidariedade, comunhão, convivência pacífica e livre circulação de pessoas e bens. É crucial discutir a importância da língua portuguesa e também a importância económica da CPLP, que constitui um mercado enorme que pode robustecer as economias dos países membros.

Precisamos consolidar a língua portuguesa, incluindo a diáspora, e trabalhar para que seja uma língua oficial da ONU.

Monica Grayley: Mais alguma mensagem final?

Presidente Daniel Chapo: Apenas agradecer a entrevista, endereçar os parabéns à ONU pelos 80 anos e reconhecer o trabalho da ONO News, permitindo que a língua portuguesa alcance o mundo.

Monica Grayley: Muito obrigada, senhor Presidente.

Presidente Daniel Chapo: Muito obrigado.

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