«No atual Vitória de Setúbal, há nomes e egos em vez de trabalho e humildade»

No atual Vitória de Setúbal, há nomes e egos em vez de trabalho e humildade


José Rachão e Sandro Mendes são duas lendas do maior clube de Setúbal. O primeiro fora e o segundo dentro das quatro linhas levaram os sadinos à conquista da última das três Taças de Portugal do clube (em 2005). 21 anos depois, o que é feito, afinal, desse glorioso Vitória?

O treinador e capitão daquela temporada analisam, com uma certa mágoa na voz, a situação de um emblema tão querido e… não auguram nada de bom para o atual caminho. «O Vitória acabou de subir da segunda distrital para a primeira e depois para o Campeonato Português, em dois anos, mas agora já estão havendo problemas. São os nomes, as pessoas, os egos… Em vez de trabalho, humildade… Tem que ter líderes, pessoas mais sérias e que sintam que têm possibilidades de mudar o rumo», acusa José Rachão.

Sandro Mendes, por seu turno, também aponta falhas à atual gestão: «Mais uma vez, acho que o Vitória, neste ano, já está a começar mal. Está à procura de estrutura, mas contrata um treinador que também vai ser o diretor desportivo. Falta organização, gente competente e acho que essa foi a grande causa do Vitória estar onde está. Muita gente que, em vez de ir servir o clube, foi servir-se do clube e resultado, infelizmente, é visível.»

Sandro Mendes, ex-capitão do Vitória de Setúbal. Ergueu a Taça de Portugal em 2005, treinado por José Rachão

«O lugar do Vitória de Setúbal é na Liga [de lá arredado desde 2019/20]mas, para isso, tem de haver identidade e respeito, novamente. Muita coisa tem de mudar. Os próprios políticos têm de ajudar e não utilizarem os clubes só para quando precisam, para serem eleitos ou ganhar votos. Enquanto isso não mudar, não há dúvidas de que o Vitória vai ter dificuldades para regressar à Liga», entende o mais velho.
O povo diz (mais ou menos) assim: quem se rodeia dos bons será como eles; por outro lado, quem se ladeia dos maus será pior do que eles. Essa é uma máxima que se pode aplicar à atual realidade do futebol setubalense, segundo a visão de José Rachão. Enquanto o gigante do distrito, Vitória, não passar esta má fase, dificilmente, os clubes que o rodeiam conseguirão reerguer-se também.

«Quem está à frente dos cargos associativos, câmaras e federação tem que se juntar e refletir sobre tudo isso. Não há dúvida de que Setúbal é um distrito com muitas condições e que tem muito a dar. Porém, enquanto não se fizer uma reflexão total – e não é para apurar culpados, porque culpados são todos, ninguém pode tirar o rabo de fora – não se vai resolver isto», aponta José Rachão, alertando que «é importante que os clubes do distrito voltem outra vez a entrar na grande roda do desporto em Portugal, para que a região seja mais dignificada do que ultimamente tem sido.»

O treinador, de 73 anos, diz não saber quantos anos de vida lhe restam, mas ainda tem sonhos a cumprir: «Queria ver se não partia sem ver o problema do Vitória resolvido e sem vê-lo a disputar outra vez aqueles grandes jogos com Benfica, Sporting, Porto… Além disso, gostava de vê-lo outra vez a jogar na Liga, no Montijo, no Seixal, no Barreiro… Grandes jogos, estádios sempre cheios… Enfim, voltar a ver o que desapareceu.»

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