Nos últimos dez anos, Moçambique enfrentou um conjunto de riscos alimentares e sanitários que resultaram não apenas na sobrecarga dos serviços de saúde, mas também em elevado sofrimento e mortalidade em grupos vulneráveis. Esta reportagem investigativa cruza dados de portais governamentais, institutos de saúde e meios de comunicação social para mapear a evolução dos principais perigos – incluindo doenças negligenciadas, factores alimentares de risco e lacunas no tratamento nacional – entre 2015 e 2026.
Em 9 de janeiro de 2015, um episódio trágico expôs fragilidades graves no controlo de perigos alimentares tradicionais: pelo menos 75 pessoas morreram e mais de 230 foram hospitalizadas depois de beberem pombe (cerveja artesanal) contaminada em um funeral na província de Tete. A contaminação foi atribuída à bactéria Burkholderia gladioli, que produz toxinas altamente perigosas, levando a um surto de envenenamento alimentar em massa com consequências fatais. O episódio é considerado uma das mais graves intoxicações alimentares documentadas no país. (Wikipédia)
Mesmo após esse evento, sistemas de vigilância de alimentos e bebidas caseiras mantêm lacunas, sobretudo em áreas rurais e periurbanas onde produtos tradicionais são elaborados sem supervisão técnica.
Pesquisas científicas identificaram contaminação por parasitas intestinais em hortícolas vendidos em mercados de Maputo. Um estudo indicou que quase 30% das amostras de hortaliças compradas em mercados e supermercados apresentaram pelo menos um parasita patogénico ou potencialmente patogénico, incluindo o Giardia duodenalis e Enterocytozoon bieneusi, indicando riscos alimentares associados à falta de higienização e à água contaminada. (PubMed)
Doenças tropicais negligenciadas (DTNs), muitas delas associadas a condições de higiene, saneamento e alimentação precários, continuam a afetar fortemente a população moçambicana, sobretudo em zonas de baixa renda.
Até 2024-2025, o país registou aumento de casos em várias doenças tropicais negligenciadas, entre as quais sarna, tinha, filaríase linfática, lepra e níngua (matequenha). Em 2023, foram notificados mais de 2.700 casos apenas de lepra, um indicador preocupante de que a incidência dessas doenças ainda persiste em níveis elevados. (24 Notícias)
Segundo dados governamentais, doenças tropicais negligenciadas afectam mais de um milhão de moçambicanos, enquanto cerca de 2 milhões estão em risco de infecção, especialmente em áreas rurais e periurbanas. Estas doenças são classificadas como negligenciadas porque recebem financiamento insuficiente e são associadas à privação socioeconómica, comprometendo o acesso aos serviços de saúde. (Voice of America)
Mapeamentos epidemiológicos indicam forte distribuição de parasitoses intestinais e outras enfermidades tropicais nos distritos do Norte (como Niassa, Cabo Delgado e Nampula), com percentuais elevados de prevalência, e regiões centrais como Zambézia continuam vulneráveis, sobretudo devido à falta de água tratada, saneamento básico e supervisão sanitária adequada. (jornaldomingo.co.mz)
Moçambique apresenta um perfil epidemiológico misto, marcado pelo peso simultâneo de doenças infecciosas tradicionais e do surgimento crescente de outras doenças derivadas de factores nutricionais e alimentares.
Dados recentes indicam que até 60 mortes em cada 1 000 crianças menores de 5 anos ocorrem em Moçambique todos os anos, resultado de doenças evitáveis como diarreia, pneumonia e malária que estão diretamente relacionadas a condições de saneamento, nutrição e acesso a cuidados de saúde. (Health News)
Entre as principais causas de morte infantil estão, consistentemente, diarreias e infecções gastrointestinais, muitas vezes associadas à água contaminada e a práticas alimentares inseguras. A desnutrição também agrava o prognóstico destas doenças. (Health News)
Entre 2019 e 2021, relatórios nacionais revelam uma mudança no perfil das causas de morte: embora doenças como HIV/SIDA e malária tenham diminuído de peso, doenças crónicas não transmissíveis (como doenças cardiovasculares, diabetes e câncer) aumentaram significativamente e representam uma proporção maior de óbitos, refletindo mudanças de dieta, urbanização e estilos de vida. (Instituto Nacional de Saúde)
A insegurança alimentar permanece um factor crítico para a saúde pública. Relatórios recentes apontam para um aumento de situações de insegurança alimentar e desnutrição aguda, impulsionadas por eventos climáticos extremos, acesso limitado a alimentos diversificados e água potável, que agravam a susceptibilidade da população a doenças infecciosas e crónicas associadas à alimentação. (Food Security Portal)
Estudos em distritos como Mopeia mostraram que mais de 88% dos agregados familiares não têm acesso a serviços básicos de saneamento, alimentando o ciclo de doenças transmitidas pela água, como cólera, diarreia e outras infeções gastrointestinais. Esses fenómenos estão diretamente associados a regimes alimentares inseguros e prática alimentar de risco. (JOGH)
Embora tenha havido avanços na expansão dos serviços de saúde e imunização, a capacidade de diagnóstico e tratamento de doenças negligenciadas e alimentares continua deficiente, sobretudo nas zonas rurais e periurbanas.
Relatórios epidemiológicos nacionais indicam que 3 em cada 4 óbitos ocorrem fora de unidades sanitárias, sugerindo barreiras de acesso a cuidados de saúde e falta de sistemas de vigilância eficazes para monitorar e responder prontamente a surtos alimentares ou de doenças negligenciadas. (Instituto Nacional de Saúde)
Entre 2015 e 2026, Moçambique enfrentou desafios persistentes no domínio dos perigos alimentares e de saúde pública. Eventos extremos como intoxicação por bebidas contaminadas, contaminação de alimentos frescos por parasitos, elevada prevalência de doenças tropicais negligenciadas, além de lacunas no saneamento básico e acesso aos serviços de saúde, conformam um quadro em que a combinação de determinantes sociais, nutrição inadequada e estrutura de saúde fragilizada continua a ameaçar a vida de muitos moçambicanos.
A análise sugere que, apesar de progressos pontuais em vigilância e resposta a surtos, a prevenção e o tratamento eficaz de doenças relacionadas com alimentação e negligenciadas exigem investimentos sustentados em saneamento, vigilância alimentar, cobertura de saúde primária e educação sanitária comunitária, com foco específico nas populações mais vulneráveis.
Dados oficiais estimados indicam que a taxa bruta de mortalidade em Moçambique vem reduzindo gradualmente desde 2015, apesar de flutuações pontuais ligadas a surtos, contexto epidemiológico e acesso a serviços de saúde:
| Ano | Número Total de Mortes | Taxa de Mortalidade (‰) |
| 2015 | 253 411 | 9,37 |
| 2016 | 245 597 | 8,98 |
| 2017 | 243 160 | 8,63 |
| 2018 | 241 551 | 8,32 |
| 2019 | 241 406 | 8,08 |
| 2020 | 246 485 | 8,01 |
| 2021 | 266 441 | 8,40 |
| 2022 | 236 921 | 7,26 |
| 2023 | 235 513 | 7,00 |
A redução geral pode refletir melhorias graduais em alguns determinantes de saúde, como imunização e tratamento de doenças específicas, mas ainda enfrenta desafios operacionais nas zonas rurais e periurbanas.
Embora o país não disponha de séries completas anuais de causas de morte publicadas de forma detalhada para todos os anos de 2015 a 2024, estimativas globais e relatórios parciais indicam que, nos períodos mais recentes, a distribuição relativa de causas de morte em Moçambique está associada sobretudo a:
Fonte agregada estima que estas causas combinadas explicam a maior parte dos óbitos registrados no país, e, mesmo com a redução proporcional de algumas (como HIV e malária), continuam a ser fatores centrais de risco.
HIV/SIDA
Malária
Essa doença tem forte ligação a determinantes ambientais e sanitários, incluindo acesso a água tratada, redes de drenagem e fatores de exposição ao vetor.
Taxas de mortalidade também fornecem uma lente sobre fatores alimentares e sanitários:
Essa evidencia progressos comparado a taxas muito mais elevadas em décadas anteriores, mas as doenças alimentares e transmitidas por água continuam a representar desafios estruturais significativos.
Relatórios sobre causas de morte publicados pelo sistema nacional indicam que, a partir de 2019–2020, há um padrão de transição epidemiológica:
Esse padrão é equivalente ao fenómeno observado em muitos países com dupla carga de morbidade: persistência de doenças infecciosas e aumento de condições crónicas associadas a fatores nutricionais/estilo de vida.
É importante observar que Moçambique historicamente enfrenta limitações na qualidade e abrangência dos dados de mortalidade, devido à cobertura incompleta de registos civis e sistemas de vigilância sanitária. Sistemas como o COMSA/SIS-COVE foram introduzidos para melhorar a monitorização de causas de morte populacionais, e seus relatórios reforçam tendências de transição epidemiológica e causas principais de óbito no país.
| Indicador | Tendência Observada |
| Taxa de mortalidade geral | Decrescente geral, de cerca de 9,37‰ em 2015 para ~7‰ em 2023, refletindo melhorias lentas no acesso a cuidados e maior cobertura de serviços sanitários. |
| HIV/SIDA | Continua relevante, embora com peso proporcional menor em comparação histórica – destaca a necessidade persistente de programas de tratamento e prevenção. |
| Malária | Altos números de casos e mortes (por exemplo, ~358 óbitos em 2024), como um dos principais desafios de saúde pública. |
| Doenças gastrointestinais (diarreia) | Inclusão entre causas significativas de mortalidade, refletindo determinantes ambientais e alimentares precários. |
| Mortalidade infantil (<5 anos) | Redução comparativa ao longo de décadas, mas permanece elevada, com doenças infecciosas e fatores nutricionais como causas dominantes. |
| Transição epidemiológica | Evidência de aumento relativo de causas crónicas para adultos, sem eliminação das doenças infecciosas como fatores dominantes. |
Os dados comparativos revelam que, entre 2015 e 2023, há uma tendência geral de redução da mortalidade bruta em Moçambique, contudo, o perfil das causas de morte ainda é fortemente dominado por doenças infecciosas, muitas com relação a determinantes alimentares, ambientais e sanitários. Doenças como HIV/SIDA, malária e infecções gastrointestinais continuam a causar um número substancial de mortes, particularmente onde o acesso a cuidados de saúde, água potável e saneamento é limitado.
Esses padrões estatísticos reforçam a necessidade de políticas públicas sustentadas que abordem determinantes sociais de saúde, reforcem a vigilância epidemiológica, melhorem os sistemas de registo de causas de morte e ampliem as intervenções preventivas, a educação alimentar e o acesso a serviços de tratamento em zonas rurais e periféricas.
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