O Governo moçambicano decidiu transferir para os municípios e governos distritais a responsabilidade de organizar, licenciar e fiscalizar o transporte por mototáxis e serviços por aplicativo, numa altura em que cresce o alvoroço no sector.
A medida resulta do Decreto n.º 78/2025, de 31 de Dezembro, que aprova o novo Regulamento do Exercício da Actividade de Transporte Rodoviário e Automóvel, e foi esclarecida esta terça-feira pelo Ministério dos Transportes e Logística.
Após dúvidas e receios entre operadores, sobretudo mototaxistas e plataformas digitais, o Executivo veio a público garantir que não está em causa a proibição da actividade.
“O Ministério dos Transportes e Logística vem, por meio do presente comunicado, clarificar que o referido Decreto não interdita nem proíbe o exercício da actividade por mototaxistas e operadores de transporte em velocípedes”, refere o comunicado oficial.
O posicionamento surge num contexto de forte dependência destes serviços, tanto nas zonas urbanas como rurais, onde os mototáxis se tornaram uma solução prática face às limitações do transporte público convencional.
O ponto central da nova legislação é a descentralização da regulação. Na prática, o Governo central retira-se da gestão directa e entrega o controlo às autoridades locais.
“O Decreto estabelece transferência de competências para os Municípios e Governos Distritais, aos quais cabe a responsabilidade de organizar, regulamentar, licenciar e fiscalizar o exercício destas actividades.”
Com esta decisão, cada município passa a definir regras próprias, respeitando o Código de Estrada, mas ajustadas às realidades locais — desde zonas urbanas congestionadas até distritos com fraca cobertura de transporte.
O Executivo defende que a medida visa pôr ordem num sector marcado pela informalidade, sem eliminar as fontes de rendimento de milhares de famílias.
A intenção é clara: integrar os operadores num sistema formal, com regras, segurança e padrões mínimos de qualidade.
Segundo o Ministério, o objectivo é garantir um sistema de mobilidade “mais estruturado, seguro e acessível para todos os cidadãos”.
Apesar da tensão inicial, o Governo assegura que a implementação será feita de forma gradual, apostando no diálogo com operadores e autoridades locais.
A estratégia passa por uma “estreita articulação com as autoridades locais e com os operadores do sector”, visando uma transição harmoniosa.
A decisão, embora apresentada como técnica, tem forte impacto político e social. Ao passar a “batata quente” para os municípios, o Governo central reduz a pressão directa, mas aumenta a responsabilidade das autarquias — que agora terão de lidar com licenciamento, fiscalização e eventuais conflitos no terreno.
O desafio está lançado: organizar um sector vital para a mobilidade e sobrevivência de milhares de moçambicanos, sem provocar ruptura social nem travar o acesso ao transporte.
Para já, a mensagem oficial é de controlo — mas no terreno, a execução dirá se a descentralização será solução ou novo foco de tensão.
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