Uma disputa por herança familiar terminou em um caso de suposto sequestro e internação forçada no interior de São Paulo. O empresário Guilherme, de 29 anos, acusa a própria mãe, Marta, de ter armado uma emboscada para interná-lo contra a vontade, com o objetivo de controlar uma herança avaliada em 83 milhões de meticais (R$ 7 milhões) deixada pelo pai, dono de uma loja de autopeças.
De acordo com o relato de Guilherme, após a morte do pai, Marta o convidou para um almoço em um restaurante no dia 22, alegando que discutiriam a partilha dos bens — entre eles casas e outros patrimónios da família. No entanto, o encontro teria sido uma armadilha.
Ao chegar ao local, o empresário foi surpreendido por quatro homens ligados a uma clínica de reabilitação, que o colocaram à força dentro de um carro. O episódio, que durou cerca de seis minutos, foi presenciado e gravado por pessoas que estavam no restaurante. Nas imagens, Marta aparece acompanhando a ação, vestida com calça azul e lista vermelha. Guilherme afirma que tentou resistir até o último instante, mas acabou levado para outra cidade.
Segundo ele, os homens alegavam que ele “precisava sair das drogas”, embora negue qualquer envolvimento com entorpecentes. Durante o sequestro, diz ter sido roubado e dopado.
O empresário foi levado para uma clínica em Piraçununga (SP), onde permaneceu internado sem ordem judicial. Ele afirma ter sido mantido dopado e privado de contacto com familiares.
A defesa da clínica nega irregularidades e sustenta que a internação foi voluntária, com assinatura do próprio paciente e laudo médico que atestaria uso de drogas. O advogado da instituição afirmou que havia histórico de tratamentos anteriores.
Guilherme contesta a versão e afirma ter feito exame toxicológico que comprovou ausência de substâncias ilícitas no organismo, classificando a internação como uma “armação”.
As desavenças familiares teriam começado antes mesmo da morte do pai. Segundo Guilherme, o casal estava em processo de separação e o pai pretendia dividir os bens, mas faleceu antes da partilha. O filho, que trabalhava desde a adolescência com o pai na loja de autopeças, herdou 25% da empresa; a mãe, outros 25%; e um tio, 50%.
Com o tempo, Marta passou a administrar o negócio. Guilherme afirma ter descoberto desfalques e empréstimos de cerca de 7 milhões de meticais(R$ 600 mil) feitos em nome da empresa, mas destinados a uma construtora ligada ao irmão da mãe.
Ele também acusa Marta de ter feito um seguro de vida em seu nome, no valor de 8 milhões de meticais(R$ 700 mil), sem o seu consentimento, sendo ela a única beneficiária. O empresário acredita que as internações forçadas começaram logo após a contratação do seguro.
Durante o período em que esteve internado, Guilherme contou com a ajuda da namorada, Bianca, que iniciou buscas após uma semana sem notícias. Ela localizou o paradeiro do empresário, conseguiu filmá-lo dopado e levou o caso à polícia.
Em uma segunda clínica, Guilherme conseguiu acessar um computador abandonado e enviou uma mensagem de socorro para Bianca, indicando o local onde estava. A jovem accionou as autoridades e participou do resgate. Ele descreve Bianca como sua “guerreira” e “heroína”.
Actualmente, Guilherme move ações judiciais contra a mãe. Ele afirma que Marta vendeu duas casas da herança, avaliadas em 4 milhões de meticais (R$ 350 mil) cada, e ficou com o dinheiro.
Procurada, Marta não quis se manifestar. Por telefone, informou que enviaria o contacto de seu advogado, o que não ocorreu até o fechamento da reportagem.
O caso segue sob investigação. Guilherme e Bianca dizem esperar que a Justiça reconheça as supostas fraudes e privação de liberdade. O empresário declara não considerar mais Marta como mãe, referindo-se a ela apenas como “progenitora”.
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