A detenção de ex-gestores seniores da Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), ordenada pelo Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC), é um marco simbólico no combate à corrupção em Moçambique. Mas símbolo não basta. O país precisa de resultados concretos.
OPINIÃO & ANÁLISE | Hora Certa News | 26 DE FEVEREIRO DE 2026
Estamos perante acusações graves: corrupção, peculato, gestão danosa e abuso de cargo ou função. O processo inclui:
- Pagamentos sobrefaturados
- Irregularidades em contratos de catering, combustível e fardamento
- Memorandos com entidades estrangeiras sem retorno operacional
- Arrendamento de aeronaves que nunca chegaram a operar
Traduzindo: prejuízos significativos ao erário público numa empresa estratégica que já atravessava uma crise financeira profunda.
Não é um caso isolado — é um padrão
Ao longo dos últimos anos, relatórios de organizações como o Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) já vinham denunciando práticas de má gestão na companhia. Reestruturações anteriores não resolveram o problema estrutural.
Paralelamente, o Procurador-Geral da República vinha afirmando que os indícios estavam sob investigação. A operação agora visível sugere que o processo saiu da fase preliminar para a responsabilização concreta.
A pergunta é direta:
Estamos perante uma mudança de paradigma ou apenas mais um ciclo mediático?
O que está realmente em jogo
A LAM não é uma empresa qualquer. Trata-se de uma companhia estatal estratégica, com impacto direto:
- Na mobilidade interna do país
- Na integração económica regional
- Na imagem externa de Moçambique
- No equilíbrio das finanças públicas
Quando há má gestão numa entidade desta dimensão, o impacto vai muito além da folha salarial dos gestores.
E há um ponto sensível: o International Monetary Fund (FMI) já alertou para os riscos de canalizar recursos de empresas públicas lucrativas para sustentar a LAM sem transparência e reformas estruturais.
Se o Estado injeta capital sem controlo rigoroso, o risco de repetição do ciclo aumenta.
Sinal positivo: ninguém acima da lei?
Do ponto de vista institucional, a ação do GCCC envia uma mensagem importante: gestores públicos podem ser detidos e investigados.
Num país onde historicamente muitos casos de corrupção terminam arquivados ou arrastam-se durante anos, a execução de mandados de captura é um passo relevante.
Mas aqui reside o ponto crítico:
- Detenção não é condenação.
- Processo mediático não é reforma estrutural.
- Operação policial não substitui governança sólida.
Se os processos não forem conduzidos com celeridade, rigor técnico e transparência, o efeito simbólico perde força.
O verdadeiro teste começa agora
O combate à corrupção não se mede pelo número de detenções, mas por:
- Acusações formalizadas com prova robusta
- Julgamentos céleres e tecnicamente sólidos
- Sentenças proporcionais
- Recuperação efetiva de ativos desviados
- Reformas de controlo interno nas empresas públicas
Sem isso, o sistema apenas reage — não previne.
A crise estrutural da LAM
A LAM enfrenta dificuldades financeiras severas. Problemas de:
- Frota limitada
- Custos operacionais elevados
- Gestão inconsistente
- Interferência política
Nenhuma companhia aérea sobrevive apenas com injeções financeiras. Sobrevive com disciplina administrativa, contratos transparentes e liderança técnica.
Se o Estado quer salvar a LAM, terá de fazer mais do que prender gestores. Terá de reformar profundamente o modelo de gestão das empresas públicas.
Conclusão direta
As detenções representam um momento importante. Mas o verdadeiro significado deste episódio dependerá de três fatores:
- Continuidade processual
- Transparência pública
- Reformas institucionais permanentes
Moçambique precisa de um Estado que puna desvios, mas sobretudo de um Estado que construa sistemas onde o desvio se torne difícil.
Se este caso resultar numa mudança estrutural, será histórico.
Se terminar em arquivamentos e esquecimentos, será apenas mais um capítulo num problema antigo.
Agora, a responsabilidade está nas mãos da justiça. E o país está a observar. 👀





