No âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo, o antigo vice-chefe do Estado-Maior General, Bertolino Capetine, lançou duras críticas à gestão do sector de defesa e segurança em Moçambique. Durante um debate técnico focado na estabilidade do país, o general na reserva expôs fragilidades que vão desde o orçamento “irrisório” até à falta de uma estratégia científica para combater o terrorismo em Cabo Delgado.
Segundo noticia o canal STV Notícias no seu canal do YouTube, as declarações de Capetine revelam um cenário de vulnerabilidade num país rico em recursos, mas com as fronteiras “escancaradas” à entrada de qualquer ameaça.
Capetine apresentou números preocupantes sobre o desinvestimento público no sector. Segundo o general, o Orçamento Geral do Estado para a defesa, que atingiu 6,3% em 2024, baixou para 4,3% em 2025 e a projecção é de uma queda contínua.
“2029 provavelmente estaremos no 1%. Que defesa é essa? Querem fazer como? Não estão a vedar a vossa casa, mas está cheio de recursos, mas está escancarada. Qualquer um entra à vontade”, questionou o general.
Para o oficial, esta negligência financeira impede a atracção de investimentos externos, sublinhando que nenhum investidor “há-de vir semear seu dinheiro aqui enquanto continuar como estamos”.
Um dos momentos mais impactantes da sua intervenção foi a revelação de um episódio ocorrido em 2018, envolvendo o então Presidente tanzaniano John Magufuli. Capetine relatou que, numa reunião estratégica sobre o terrorismo, a delegação moçambicana apresentou um informe afirmando que a situação estava “calma e controlada”.
Em contraste, a delegação tanzaniana exibiu imagens chocantes de crânios humanos usados como tripés pelos terroristas em solo moçambicano.
“O antigo comandante geral da polícia lá disse assim: ‘Vocês não são sérios… se continuarem assim, isto vai se alastrar'”, recordou Capetine, destacando a falta de coordenação e transparência das autoridades nacionais na época.
A crítica estendeu-se à aquisição de meios técnicos que o general considera inoperantes para os desafios actuais. Citou o exemplo dos barcos HSI, que têm alcance de apenas 10 milhas, enquanto as plataformas de gás em Cabo Delgado situam-se a cerca de 40 milhas da costa.
O general lamentou que Moçambique trate o seu espaço marítimo com negligência, referindo que o Estado muitas vezes acompanha a situação operacional através das redes sociais, em vez de investir em inteligência e patrulha eficaz.
Capetine defendeu que a guerra contra o terrorismo não se resolve apenas “juntando pessoas” ou enviando todos os militares para o norte.
Por fim, o debate abordou a facilidade com que estrangeiros obtêm documentação moçambicana, o que Capetine classifica como um risco de segurança nacional.
“Hoje há chineses com o apelido BA… amanhã não será chefe do estado? Você vai negar o filho desse BA que veio via corta-mato?”, ironizou, referindo também casos de cidadãos de países vizinhos que se infiltram nas forças armadas através de processos de identificação deficientes.
O encontro terminou com o apelo à construção de consensos para reformas urgentes que devolvam a dignidade e a operacionalidade à defesa do Estado moçambicano.
Analogia para Compreensão:
Manter a defesa nacional com um orçamento em queda e sem estratégia é como tentar proteger uma mansão repleta de jóias usando apenas um cadeado de plástico e janelas de papel. Por mais que se diga que “está tudo bem”, os invasores percebem a fragilidade da estrutura e entram sem resistência, enquanto o dono da casa apenas assiste ao roubo pelas câmaras de segurança dos vizinhos.
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