Quando João Ferreira ergueu a primeira pedra no monte Cabeça-de-Velho, não estava apenas a iniciar uma obra municipal. Estava a introduzir o município de Chimoio no debate internacional sobre cidades intermédias que reinventam o território através de infra-estruturas de lazer. A futura primeira praia artificial de Moçambique coloca a capital de Manica ao lado de uma tendência que, em mercados africanos e europeus, tem demonstrado impacto económico expressivo e, simultaneamente, levantado desafios ambientais de peso.
O projecto, anunciado como promessa eleitoral e agora finalmente materializado, tem uma ambição clara: reposicionar Chimoio como um destino turístico interno e criar novas fontes de rendimento para a economia local. Mas essa ambição exige uma leitura concreta da experiência de cidades que já trilharam este caminho, muitas vezes com custos invisíveis para quem apenas vê a areia, a água e os guarda-sóis.
Ruanda é hoje referência quando se fala da construção de espaços artificiais de lazer em cidades sem mar. O país transformou o Lago Kivu numa espécie de “cinturão de praias urbanas”, com investimentos que variam entre 1,5 e 3 milhões de dólares por cada área adaptada.
O resultado económico é sublinhado pelo Banco Nacional do Ruanda:
o turismo interno cresceu 14% entre 2021 e 2024, com impacto directo nas pequenas e médias empresas que orbitam os espaços de lazer.
A lição para Chimoio é clara: um projecto desta natureza só se paga quando consegue atrair consumo regular — não só visitantes esporádicos.
Em Kigali, o retorno veio porque as praias artificiais geraram cadeias periféricas de rendimento: cafés, actividades aquáticas, eventos privados, aluguer de equipamentos e pequenos comércios autorizados. O mesmo modelo terá de ser replicado em Chimoio, sob pena de a praia se tornar apenas um ponto fotográfico sem impacto económico real.
O Egipto transformou desertos em resorts e praias artificiais durante duas décadas. O lucro está comprovado:
mais de 20 bilhões de dólares/ano em turismo de lazer, segundo o Ministério do Turismo egípcio.
Mas há um custo: consumo intensivo de água e energia. As praias artificiais do Cairo exigem manutenção constante, reabastecimento de areia e sistemas de filtragem industrial.
Chimoio não enfrenta o desafio desértico, mas deve avaliar a sustentabilidade do abastecimento de água, sobretudo em épocas de seca na província de Manica. Se o município não integrar sistemas de recirculação e tratamento, o custo operacional pode ultrapassar as receitas.
Windhoek não tem mar. Nunca teve. Mas criou lagoas artificiais para lazer.
Em cinco anos, segundo dados do Namibia Statistics Agency, os bairros adjacentes a essas infra-estruturas registaram valorização imobiliária entre 12% e 22%, impulsionada pela procura de famílias por zonas com melhor qualidade de vida.
Em Chimoio, o monte Cabeça-de-Velho tem características semelhantes:
• território subvalorizado
• potencial paisagístico
• fraca ocupação comercial
Com este projecto, o município prepara o terreno para transformar a zona num novo corredor de investimento, gerando procura para hotéis, restaurantes, guest houses e actividades culturais.
O impacto estratégico não está apenas no turismo, mas na forma como esta intervenção altera o mapa económico da cidade.
A Espanha é mestre na reinvenção costeira:
Benidorm, Valência e Málaga repetem anualmente o processo de recuperação artificial de areais, num investimento que ultrapassa 90 milhões de euros por ano.
A razão é simples:
cada euro investido em praias urbanas rende entre 6 e 12 euros ao turismo local, segundo o Instituto Espanhol de Turismo.
Chimoio, naturalmente, tem outra escala, mas o princípio é o mesmo:
o lazer urbano artificial não gera apenas visitantes; cria uma indústria sazonal que movimenta serviços, gastronomia, cultura e transporte.
O Tropical Islands Resort, construído num hangar militar abandonado em Brandemburgo, é hoje uma das maiores praias artificiais indoor da Europa.
Recebe mais de 1,2 milhões de visitantes por ano e gera centenas de empregos directos.
A relevância para Chimoio não está na tecnologia, mas no conceito:
projectos de lazer artificiais são economicamente viáveis quando se tornam destinos por si só, e não apenas “mais uma obra municipal”.
Paris Plages é um exemplo extraordinário de praia urbana temporária. Criada às margens do Sena, atrai milhões de residentes e turistas, apesar de ser montada e desmontada todos os anos.
O segredo não está na água, mas no uso social do espaço:
eventos culturais, actividades juvenis, concertos, pequenas feiras e animação permanente.
Para Chimoio, esta é a lição mais crítica:
sem uma programação anual consistente, a praia artificial pode morrer após o entusiasmo inicial.
O empreendimento do monte Cabeça-de-Velho coloca Chimoio num lugar inédito no país.
A cidade, tradicionalmente associada ao corredor Beira-Zimbabwe, aos mercados informais e ao crescimento desordenado, agora ensaia uma mutação urbana com potencial de impacto profundo.
• dependência de água em períodos críticos
• custos elevados de manutenção anual
• risco de abandono caso não exista plano de exploração turística
• impacto ambiental se não houver recirculação adequada
• possibilidade de desperdício de fundos se não houver atracção contínua
• diversificação da economia local
• novos segmentos de turismo interno
• revalorização imobiliária de toda a zona do projecto
• criação de pequenas e médias empresas de lazer
• posicionamento de Chimoio como cidade inovadora no centro do país
• integração de actividades culturais e artísticas no espaço
A praia artificial de Chimoio é, acima de tudo, um experimento nacional.
É o primeiro teste ao potencial do lazer urbano artificial no país.
Se funcionar, novas autarquias ganharão coragem para replicar o modelo.
Se falhar, servirá de alerta para a necessidade de planeamento de longo prazo.
O impacto económico só será mensurável após os primeiros 24 meses, quando:
• houver dados de fluxo turístico
• receitas dos negócios adjacentes forem contabilizadas
• investimentos privados começarem a surgir
• o município publicar relatórios transparentes de gestão
O lançamento da primeira pedra não é apenas político. É estratégico.
João Ferreira arrisca entrar para a história municipal como o primeiro edil a contrariar o cliché de que cidades não costeiras só podem observar o turismo alheio.
Com as lições de Ruanda, Namíbia, Egipto, Espanha e França, Chimoio tem em mãos um empreendimento que pode redefinir o futuro económico da cidade.
Mas como mostram os casos internacionais:
praias artificiais não são sobre areia e água — são sobre gestão, visão e economia.
Se o projecto for tratado como atracção estratégica e não como obra decorativa, Chimoio poderá transformar o monte Cabeça-de-Velho no seu maior activo urbano desde a criação do município.
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