Um grave acidente de viação registado na zona de Bobole, no município de Marracuene, transformou-se num retracto inquietante da degradação dos valores sociais. Um camião carregado de batata-reno capotou na via pública e, em vez de uma mobilização imediata para prestar socorro ao motorista, o local tornou-se palco de saque desenfreado da mercadoria, perante o olhar passivo de dezenas de pessoas.
Segundo avançou a TV Miramar, através do programa Balanço Geral, o sinistro ocorreu num contexto em que a prioridade deveria ter sido a preservação da vida humana. No entanto, o que se assistiu foi a inversão completa dessa lógica, com a mercadoria a sobrepor-se à vítima do acidente.
Falsa solidariedade e saque premeditado
As imagens divulgadas pela estação televisiva mostram um cenário de falsa solidariedade. Pessoas aproximaram-se lentamente do local do acidente, aparentando intenção de prestar auxílio, mas rapidamente revelaram outro propósito.
“Houve um momento de saque. Pessoas que foram se aproximando de mansinho e inicialmente davam ideia de que queriam ajudar, que iriam socorrer o motorista. Nada disso aconteceu”, relatou a TV Miramar.
Em poucos minutos, sacos de batata começaram a desaparecer, carregados por populares que abandonavam o local como se estivessem a aproveitar uma oportunidade legítima. De acordo com a reportagem, este tipo de comportamento tem-se repetido em vários pontos do país, revelando um padrão preocupante: o socorro às vítimas deixa de ser prioridade quando há bens saqueáveis no local.
“Deus não responde assim”: o alerta moral
Durante a emissão, foi duramente criticada a mentalidade que associa acidentes rodoviários a supostas “bênçãos” ou respostas divinas às dificuldades económicas. O apresentador do Balanço Geral rejeitou frontalmente essa interpretação.
“Deus não respondeu. Deus não responde assim. Isso é buscar azar, buscar problemas. É preciso que as pessoas que saíram daqui com sacos de batata coloquem a mão na consciência”, alertou.
A TV Miramar recordou ainda que este tipo de comportamento não é apenas moralmente condenável, mas também extremamente perigoso. Foi citado o caso recente ocorrido na província de Manica, onde um camião de combustível sofreu um acidente e a tentativa de saque resultou numa explosão que deixou várias pessoas gravemente feridas.
Riscos, crime e consequências sociais
Além de configurar crime, o saque em cenários de acidente expõe os envolvidos a riscos elevados, desde atropelamentos secundários até explosões e intoxicações, dependendo da carga transportada. Mais grave ainda, impede o acesso rápido das equipas de socorro, colocando em risco a vida de quem necessita de assistência urgente.
A reportagem sublinha que encarar um acidente como uma oportunidade para “fechar o mês” ou garantir sustento imediato é um erro grave, com consequências legais, sociais e humanas.
“Não podemos ter esse pensamento. É errado”, reforçou a estação televisiva.
O episódio de Bobole levanta, mais uma vez, um debate profundo sobre ética, pobreza, desespero social e responsabilidade colectiva nas estradas moçambicanas. Enquanto a batata foi levada, ficou para trás uma pergunta incómoda: em que momento a vida humana passou a valer menos do que um saco de mercadoria caída no asfalto?




